Pelo Mundo

O ameaçador avanço da extrema direita na Europa

O avanço da extrema direita na Europa continua sendo uma epidemia bastante preocupante, que tem origem na ladainha neoliberal de Bruxelas.

12/11/2015 00:00

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Créditos da foto: Wikipedia

O sexto país com maior número de habitantes da União Europeia foi conquistado pela direita. Depois de vencer as presidenciais de maio, o partido populista Lei e Justiça ganhou também as eleições legislativas na Polônia, com mais de 39% dos votos, suficientes para conseguir a maioria absoluta das vagas disponíveis no parlamento. Uma vitória maiúscula sobre a Plataforma Cívica, a aliança entre os liberais e conservadores – no entanto, europeístas – que governavam desde 2007.
 
A diferença do apelo do nacionalismo foi a consigna “os polacos primeiro”. As reivindicações em matéria econômica do Lei e Justiça se centram na promessa de aumentar os gastos sociais, melhorar o nível salarial e baixar a idade de aposentadoria. Um programa de esquerda num país onde a esquerda defende o neoliberalismo e ocupa hoje uma posição insignificante. Um quadro que vem se repetindo em outras partes do continente.
 
Nos últimos vinte anos, a Europa viu o poder de decisão passado cada vez mais da esfera política à econômica. A economia se tornou um âmbito separado e imodificável, que assume opções decisivas, situadas fora do controle democrático.
 
A substancial uniformidade das decisões tomadas pelos governos de muitos países e a crescente hostilidade de boa parte da opinião pública para com a tecnocracia de Bruxelas contribuiu para produzir uma grande mudança no cenário europeu.
 
O vento populista
 
O Velho Continente tem presenciado uma grande onda de antipolítica, que inclui as forças de esquerda, consideradas responsáveis pelo progressivo abandono das instâncias reformadoras. Bipartidarismos consolidados como o espanhol e o grego implodiram as democracias, países nos quais, após o final das suas ditaduras, a soma das forças socialistas e da centro-direita dominava o eleitorado, com pelo menos três quartos dos votos em todos os pleitos. Algo semelhante sucedeu nos cenários bipolares da Itália e da França, onde se verificava pontualmente uma divisão dos votos entre formações de centro-direita e de centro-esquerda.
 
O panorama político europeu foi se modificando – além da alternativa ao neoliberalismo oferecido por legendas como o Syriza e o Podemos, o que merece uma reflexão a parte – pelo forte incremento do abstencionismo, pelo nascimento de partidos populistas e pelo significativo avanço das forças da extrema direita.
 
O primeiro desses fenômenos vem se manifestando através das eleições legislativas de quase todos os estados europeus, assim como nas do Parlamento de Estrasburgo.
 
O segundo, entretanto, nasceu cavalgando a onda antieuropeísta. Nos últimos anos apareceram novos movimentos políticos, que se declararam “pós-ideológicos”, que vem tendo como ideia guia a denúncia genérica da corrupção do sistema, o mito da democracia online e o euroceticismo.
 
Em 2006, sobre a base desses três princípios, se fundou na Suécia e na Alemanha, de forma quase simultânea, o Partido Pirata, e em 2009 surgiu o Movimento 5 Estrelas na Itália – que revelou, em 2009, o caso do comediante Beppe Grillo – que, na primeira eleição geral a qual se apresentaram, se tornaram a força política mais votada, com 25,5% dos votos. Em 2013, apareceu em Berlim a Alternativa Pela Alemanha – que conseguiu 7% nas últimas eleições europeias. Em 2014, a legenda To Potami, na Grécia, obteve 6,6%. Sem contar o crescimento em escala nacional do movimento Cidadãos (C's) – fundado na Catalunha, em 2006 –, que faturou 3,2% nas eleições europeias, e o dobro nas seguintes eleições municipais, já neste 2015. Em maio passado, o cantor – e populista de direita – Pawel Kukiz ficou com 21,3% dos votos nas eleições presidenciais da Polônia e seu movimento tornou a terceira força política polonesa nas eleições de outubro.
 
No mesmo período, outras plataformas políticas análogas se consolidaram, como formações que já existiam há tempos. O caso mais chamativo é o do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que com 26,6% dos votos, se tornou a primeira força nas últimas eleições europeias do lado ocidental do Canal da Mancha.
 
O “novo” rosto da direita
 
Quando os efeitos da crise econômica começaram a ser sentidos de forma mais grave, os partidos xenófobos, nacionalistas e neofascistas viram crescer enormemente sua aprovação.
 
Em alguns casos, eles mudaram seu discurso político, substituindo a clássica divisão entre direita e esquerda pelo conflito “entre os de cima e os de baixo”. Nessa nova polarização, se apresentam como candidatos para representar a esta última parte, o povo, contra o establishment, ou seja, as forças que se alternam no governo, favorecendo o poder do livre mercado.
 
A implantação ideológica desses movimentos mostrou transformações. O componente racista ficou, em muitos casos, em segundo plano, com relação à temática econômica. A oposição às políticas de imigração aplicadas pela União Europeia, já cegas e restritivas, foi reforçada apelando à guerra contra os pobres, antes até que à discriminação baseada na cor da pele ou do credo religioso. Num contexto de desemprego massivo e de grave conflito social, a xenofobia fermenta através de uma propaganda que representa os migrantes como principais responsáveis dos problemas em matéria de emprego, serviços sociais e direitos.
 
Essa mudança de rumo influiu certamente no resultado da Frente Nacional na França. Guiada pela líder ultradireitista Marine Le Pen, o partido alcançou 25,2% nas eleições administrativas de 2015. A coalizão com a Liga Norte, que se tornou um dos principais partidos da direita italiana nos últimos anos – superando o Forza Italia – resultou no nascimento, em junho, do grupo “Europa das Nações e da Liberdade”, que se configurou como uma das forças do Europarlamento, em Bruxelas, junto com outras legendas consolidadas em outros países, que pedem o fim do Euro, a revisão dos tratados sobre imigração e o retorno da soberania nacional. Entre esses grupos, os mais representativos são o Partido da Liberdade, da Áustria – que conseguiu 20,5% nas eleições gerais de 2013 – e o Partido pela Liberdade, da Holanda – que conseguiu 13,3% nas eleições europeias. Esses dois partidos juntos se tornaram a terceira força política em seus respectivos países.
 
As forças da extrema direita ingressaram no Europarlamento através de diversos grupos, e pela primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, tiveram avanços relevantes em outras regiões da Europa.
 
Na Suíça, as recentes eleições, em outubro de 2015, foram vencidas pelo Partido do Povo Suíço, com 29,4% dos votos – o melhor resultado da sua história –, graças a uma aliança com a União Democrática de Centro, uma formação de ultradireita xenófoba e antieuropeísta que, no passado, promoveu o referendo – aprovado em 2009 – que estabeleceu a proibição de construir novas mesquitas no país.
 
Também na Escandinávia, as forças neoconservadoras constituem uma realidade bem consolidada, além da maior expansão eleitoral já registrada por essa orientação política. Apelidados de o “modelo nórdico”, os Democratas Suecos, nascidos em 1988 da fusão de diversos grupos neonazis, se tornou o terceiro partido mais votado nas legislativas de 2014, com 12,8% das preferências eleitorais. Na Dinamarca e na Finlândia, dois partidos fundados em 1995, ambos aderentes do Grupo de Conservadores e Reformistas Europeus, alcançaram resultados ainda mais surpreendentes: os dois passaram a ser as segundas forças políticas nos seus respectivos países.
 
Para o espanto de todos, o Partido Popular Dinamarquês conseguiu 26,6%, sendo o movimento político mais votado nas últimas eleições europeias. Já em Helsinki, após as eleições de 2015, apareceu como grande força eleitoral o partido Verdadeiros Finlandeses, com 17,6% dos votos. Finalmente, na Noruega, aparece o Partido do Progresso, com 16,3% das preferências, chegando pela primeira vez ao governo, com uma visão política claramente reacionária.
 
A notável e quase uniforme afirmação desses partidos, numa região onde as organizações do movimento operário vem exercendo uma indiscutida hegemonia durante muitíssimo tempo, o que também tem sido possível porque os partidos de extrema direita vêm se apoderando das batalhas e das temáticas que no passado eram claramente patrimônio da esquerda, seja social democrata ou comunista. A maquiagem da simbologia política – os Democratas Suecos substituíram, por exemplo, a chama típica dos movimentos fascistas: uma flor com os cores nacionais – e o surgimento de líderes jovens e capazes de se comunicar com a imprensa de outra forma têm sido fatores importantes, embora não fundamentais.
 
O avanço da direita não se baseia somente nas clássicas campanhas reacionárias, como as contrárias à globalização, à chegada dos novos refugiados ou contra a “islamização” da sociedade. Na base do sucesso eleitoral observado nos últimos anos está a reivindicação de políticas, tradicionalmente de esquerda, a favor do Estado de bem-estar social. Se trata de um novo tipo de bem-estar, já não universal, inclusivo e solidário, como no passado, mas algo baseado num princípio diferente, que alguns estudiosos definem como “bem-estar nacionalista” – ou seja, proporcionar direitos e serviços exclusivamente aos membros da comunidade nacional já existente.
 
A grande aprovação recebida por esses partidos da extrema direita escandinava nas zonas rurais e nas províncias menos povoadas, onde se observa taxas de desemprego inéditas, mostra que parte significativa do eleitorado cedeu à chantagem eleitoral: “imigração ou Estado de bem-estar social”.
 
Perigo no Leste
 
Também em diversos países do Leste Europeu, a extrema direita conseguiu se reorganizar, depois do fim dos regimes pró-soviéticos. A União Nacional Ataque, da Bulgária, o Partido Eslovaco Nacional e o Partido da Grande Romênia são algumas das forças políticas que conseguiram bons resultados eleitorais e importante representação no parlamento.
 
Nessa zona de Europa, o caso mais alarmante é o da Hungria. Após a aplicação de severas medidas de austeridade, introduzidas pelo Partido Socialista Húngaro – um presente entregue pela Troica a base de intimidações –, cujo capítulo posterior foi marcado por uma grave crise de deflação, que foi resultado daquelas mesmas políticas, o partido União Cívica Húngara – membro do Partido Popular Europeu – chegou ao poder, com a promessa de criar uma nova constituição, com evidentes inspirações autoritárias.
 
Junto a essa perigosa realidade, está o surgimento do movimento Hungria Melhor, que se estabeleceu como o terceiro partido do país, com 20,5% nas eleições de 2014. Diferente das forças presentes na Europa Ocidental e na Escandinávia, o Hungria Melhor representa o clássico exemplo hoje dominante no Leste: formações de extrema direita que utilizam o ódio contra as minorias, o antissemitismo e o anticomunismo como principais instrumentos de propaganda e de ação.
 
Completando este panorama, diversas organizações neonazis, dispersas por várias zonas da Europa. Duas delas obtiveram uma aprovação nada desdenhável. O Partido Nacional Democrático da Alemanha alcançou 11,5% nas eleições de 2013 e conseguiu um eurodeputado em 2014. O Aurora Dourada, na Grécia, alcançou 9,4% nas europeias de 2014 e 7% nas eleições nacionais de 2015, se consolidando, em ambos os casos, como terceira força política del país.
 
Nestes anos, portanto, os partidos da extrema direita ampliaram decididamente seu consenso na Europa, em quase todos os países. Em muitas ocasiões se encontram em condições de hegemonizar o debate político e, em alguns casos, conseguiram chegar ao governo.
 
Todavia, tanto na Grécia quanto nas regiões orientais da Alemanha, conseguiram resultados inferiores aos que poderiam ter, enquanto na Espanha, em Portugal e na República Tcheca – ou seja, nos países em que a oposição social vem sendo dirigida pela esquerda anticapitalista – não se vê as mesmas condições para o seu renascimento. São indícios importantes, num cenário político que está mudando muito rapidamente. O avanço da extrema direita na Europa continua sendo uma epidemia bastante preocupante, à qual não se pode medicar com placebos, sem combater o vírus que a provocou: a ladainha neoliberal tão em voga hoje em Bruxelas.
 
Marcello Musto é professor de sociologia teórica na York University de Toronto, Canadá.
 
Tradução: Victor Farinelli





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