Pelo Mundo

O capitão que conseguiu os votos

Grandes grupos econômicos que participaram das ditaduras conseguiram agora eleger Macri. Quem é, o que pensa e como se relaciona o presidente eleito.

23/11/2015 00:00

Site Oficial Mauriciomacri.com.ar

Créditos da foto: Site Oficial Mauriciomacri.com.ar

Se é verdade que Franco Macri tratava seu filho Mauricio como “pelotudo” [N.E: o equivalente a idiota, no Brasil], quem recebeu o título de pelotudo foi ele. Aos 56 anos, o primogênito da família demonstrou ser capaz de articular um partido de capitães da indústria em condições de ganhar, através do voto, nada menos que a Capital Federal, a província de Buenos Aires e a Presidência da Nação.
 
A referência aos capitães, esse grupo reduzido de industriais que cresceu graças aos contratos com o Estado e à concentração sem limites, ou sem limites razoáveis, é fática e não ideológica.
 
Tomemos alguns fatos como exemplo:
 
– Mauricio Macri foi, desde bastante jovem, diretor da Socma, Sociedades Macri.
 
– Ontem, o presidente da Fiat, Cristiano Ratazzi, quis dar um testemunho do seu compromisso pessoal com a coligação direitista Cambiemos (“Mudemos”) e trabalhos como fiscal de urna no distrito de La Matanza, um dos setores simbólicos da periferia e coração do peronismo.
 
– Um dos ministeriáveis de Macri, o economista Alfonso Prat-Gay, é o responsável pelas contas no exterior da já falecida Amalia Lacroze de Fortabat, uma integrante conspícua do grupo dos capitães, através da sua empresa de cimento Loma Negra.
 
A novidade com Mauricio Macri na presidência não é que os grandes industriais estarão próximos do poder. Tampouco ela consiste em que eles lá estejam pela primeira vez em tempos democráticos. As duas coisas já haviam acontecido antes. Naturalmente, os grandes grupos se beneficiaram da concentração econômica nos tempos de José Alfredo Martínez de Hoz (ministro de Economia da ditadura argentina), que não liquidou totalmente a indústria como alguns dizem, mas sim o mundo industrial constituído durante as décadas anteriores, com seus componentes de pequenas e médias empresas, seus sindicatos e seus bairros.
 
Depois da ditadura, os capitães influíram no governo de Raúl Alfonsín, através de suas relações com o setor da Junta Coordenadora Nacional, encabeçado por Enrique “Coti” Nosiglia. Aumentaram sua presença de maneira notável nos dez anos de governo de Carlos Menem, entre 1989 e 1999, quando se transformaram num patrocinador fundamental das políticas de privatização, funcionando como operadores locais junto com um banco onde trocavam títulos de dívida através do Plano Brady e uma companhia europeia de serviços públicos.
 
Não saíram de cena com o kirchnerismo, embora tenha aparecido novos grupos com a mesma metodologia. Transportadores como os da família Cirigliano cooptaram os funcionários da Secretaria de Transportes de Ricardo Jaime, ou os funcionários de Ricardo Jaime cooptaram a família Cirigliano? Em todo caso, o resultado foi o primeiro fracasso de uma política popular de transportes, e esse fracasso logo levaria o país a viver a tragédia do choque de trens na estação Once. A área de transportes, como qualquer uma que tenha que ver com a logística, é um bom posto de observação sobre as idas e voltas dos grupos econômicos e seus gerentes. Quem substituiu Ricardo Jaime então foi Juan Pablo Schiavi – que foi integrante do movimento Compromisso para a Mudança, de onde surgiu a atual coalizão de Macri, além de amigo de Carlos Grosso, ex-intendente regional e ex-gerente da Socma.
 
Seria ingênuo pensar que milhões de eleitores legitimaram essa situação ontem. Que votaram conscientes da drenagem de recursos de Amalita, com a ajuda de Prat-Gay. Que se preocuparam especialmente por validar a matriz de contratista estatal de primeiro nível dos Macri, ou seu caráter de grupo beneficiário de subsídios fiscais.
 
O voto que consagrou Macri como presidente merece e merecerá um detalhe maior, e é insuficiente limitar sua explicação à aprovação da elite dirigente. Entre outras coisas porque num segundo turno não existe vitória sem derrota alheia, e ontem a Frente para a Vitória (FpV) sofreu uma derrota dura depois de 12 anos de governo.
 
Contudo, os fatos são os fatos. Um desses fatos é que o grupo de empresários que sempre apostou em influir sobre os governos militares e civis finalmente conseguiu, com a vitória de Macri, construir uma força competitiva eleitoralmente, e convenceu a maioria dos argentinos de duas cosas. Uma: que é uma força capaz de governar melhor que a FpV. Outra: que também é a melhor forma de castigar o kirchnerismo e alguns erros políticos regionais da atual coalizão governista.
 
Com experiência em segundo turno – perdeu um contra Aníbal Ibarra em 2003 e ganhou duas vezes contra Daniel Filmus, em 2007 e 2011, suas batalhas eleitorais pela prefeitura de Buenos Aires –, Macri parecia dominar a polarização que se deu em parte pelo fato de que o próprio kirchnerismo a alimentou, talvez por considerar os últimos doze anos e ver em seu pensamento conservador um adversário ideal, uma opção de frágil construção política. Se foi assim, a FpV terá repetido a mesma leitura falha de 2009, quando a polarização extrema com Francisco de Narváez terminou agrandando a figura do empresário e consagrou a derrota de Néstor Kirchner como cabeça da lista para a Câmara de Deputados. No caso de Macri, o exercício polarizador talvez não tenha levado em consideração que, com o tempo, Mauricio foi se desprendendo do peso da imagem de seu pai, um empresário ligado à ditadura. “Mauricio, que é Macri”, recordava Kirchner em 2003, quando apoiou a reeleição de Aníbal Ibarra. Mas os anos se passaram, Macri e Jaime Durán Barba se emprenharam em separar a imagem do filho da do pai, e o próprio transcorrer do tempo ajudou a esquecer. Hoje, Franco Macri tem 85 anos e sequer aparece em revistas de celebridades e especializadas no jet set, é um completo desconhecido, a não ser dentro dos círculos empresariais e os dos grandes dirigentes políticos da direita.
 
O Mago e o Fino
 
A data que os torcedores do Racing e do Boca Juniors nunca esquecerão, e tampouco Macri é o dia 3 de dezembro de 1995. Nesse dia, o Racing ganhou o clássico por 6x4 em plena Bombonera, com gols do mago Rubén Capria. No mesmo dia, há quase 20 anos, Macri foi eleito presidente do Boca Juniors. Era sua primeira aposta numa carreira popular eletiva, e uma das tantas na que desafiou o seu pai, que não concordava em colocar os ativos da Socma em jogo nessa aventura – os ativos simbólicos, claro.
 
Aconteceu apenas quatro anos depois do seu sequestro, em mãos da quadrilha que logo seria capturada pelo comissário Carlos Sablich, então chefe de Delitos Complexos da Polícia Federal Argentina. Sablich é o mesmo oficial que, em 2014, foi condenado à prisão por ter usado meios ilegais para esclarecer justamente o sequestro do agora presidente eleito. Confiante nos vínculos pessoais como uma via rumo aos cargos institucionais, Macri acreditou na palavra de Sablich para nomear o comissário Jorge “Fino” Palacios, amigo de Sablich, como chefe da sua recém criada Polícia Metropolitana. Palacios havia sido sacado da Federal por ordem do próprio presidente Néstor Kirchner, em 2004. Hoje, está processado numa causa por grampos ilegais, na qual também está envolvido Macri, o primeiro presidente eleito na Argentina a quem pesa essa categoria penal, como recordou na semana passada o jornalista Darío Villarruel.
 
Na presidência do Boca Juniors e na Prefeitura de Buenos Aires, Macri contou com a incondicionalidade do amigo Nicolás “Nicky” Caputo, seu companheiro no Colégio Cardeal Newman, que negociou com os sequestradores até combinar o pagamento e conseguir sua liberdade. Com Caputo e Leonardo Maffioli – outro grande amigo, onipresente no diretório da Socma – fundaram, em 1983, a Mirgor, empresa de ar condicionado para carros, que ainda existe, e incorporou sistemas residenciais, crescendo muito graças à demanda dos últimos anos.
 
Contratista do Estado, e sobretudo do governo da capital, Caputo aceitou fazer um relato para El Pibe, o livro sobre a vida de Macri escrito pela jornalista e legisladora kirchnerista Gabriela Cerruti. Caputo, que se reúne com Macri três ou quatro vezes por semana, disse sobre seu amigo: “ele decidiu que se envolveria com a política muito antes de ser presidente do Boca Juniors. Me dizia que não sabia se ia dar certo, porque não é tão fácil dizer e fazer, mas quando ele se propõe um objetivo, costuma conseguir. Hoje, eu o ajudo em temas estratégicos. Em 2003, quando perdeu sua primeira tentativa para a prefeitura de Buenos Aires, eu o vi triste, mas não desmoronado. É muito difícil var Mauricio desmoronado, ele tem uma energia diferente dos demais”.
 
As fontes
 
O PRO, partido de Macri, tem a anatomia de um partido fabricado para ganhar. No livro de Gabriel Vommaro, Sergio Morresi e Alejandro Bellotti estão claras não só as relações empresariais, de onde vieram os gerentes transformados em assessores políticos, como também as fontes de pensamento do macrismo. Uma delas é a Fundação Sophia, encabeçada pelo seu sucessor na Prefeitura de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta e pela governadora eleita da Província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal.
 
Outra fonte é a do Partido Radical social-democrata, como Hernán Lombardi e os dirigentes da agrupação Recrear, de Ricardo López Murphy, com a que Macri realizou sua primeira aliança.
 
Também estão alguns peronistas com capacidade de construção política territorial, como Cristian Ritondo, que acaba de ser designado ministro de Segurança da Província para o governo de Vidal. Ritondo é o braço direito de Miguel Angel Toma, dirigente peronista ligado a Carlos Grosso, que foi secretário de Segurança de Carlos Menem e chefe de Inteligência do ex-presidente Eduardo Duhalde.
 
Toma é um dos apoios políticos de Antonio Stiusso, recentemente destituído da chefia de Operacões da ex-Secretaria de Inteligência, que costuma se jactar de sua ligação com espiões estadunidenses, embora esse tipo de ligações na Argentina tenham mais conexões com Miami que com Washington. O que Macri fará com Stiusso a partir do dia 10 de dezembro? Seguirá reclamando aos Estados Unidos que o envie à Argentina para depor? E como o novo presidente lidará com as velhas contradições entre Stiusso e Palacios, que disputavam o favor de Miami e competiam por seduzir os setores mais duros da comunidade judia?
 
Sem dúvida, a recomposição dos vínculos com os Estados Unidos está na agenda de Macri, como também estava na de Scioli. A pergunta é como Macri fará essa recomposição e se planejará um revival das relações carnais e da aliança extra OTAN construídas por Menem. No último ano, ele manejou com maior discrição suas relações na América e na Europa, mas não rompeu com nenhum dos seus vínculos mais permanentes. O primeiro deles é o Partido Popular espanhol, de José María Aznar e Mariano Rajoy, que se prepara para colocar em jogo o governo da Espanha, com o desafio de enfrentar os socialistas e o crescente movimento popular Podemos. O PRO tem muito de PP tanto por sua relação com o âmbito das empresas e seus gerentes como por sua origem heterogênea, por sua dirigência proveniente das elites sociais e sua relação com religiões organizadas, do catolicismo ao judaísmo, passando por ramos do mundo cultural protestante.
 
A Fundação Pensar, que orienta Iván Petrella, realizou atividades conjuntas com a FAES, a Fundação do PP, partido com o que o PRO coincidiu em definir a recuperação do controle estatal da YPF como “um confisco”. Um dos seus alvos comuns foi o regime de Hugo Chávez (ao ponto de que a palavra “chavismo” passou a ser vista como um insulto político, como foi usado no Brasil contra Dilma Rousseff), frente ao qual constituiu uma aliança que inclui o chileno Sebastián Piñera.
 
A Fundação Pensar também é parte da rede internacional da Fundação Atlas, que toma seu nome de uma novela que Macri costuma recomendar, “A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand, que fala sobre os males que devastaram os Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, quando supostamente aumentou a intervenção do Estado.
 
Tradução: Victor Farinelli





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