Pelo Mundo

O legado de 2013: o colapso da Primavera Árabe e o declínio europeu

Os casos do Egito e da Síria indicam o colapso da Primavera Árabe e são suficientemente paradigmáticos para dissuadir outros países árabes a segui-los.

29/12/2013 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


San Salvador de Bahamas, dez/2013 - Neste momento de esperança que o novo ano pode nos oferecer, seria útil examinar o legado que acarreamos do ano que acaba. Foi um ano cheio de acontecimentos: as guerras, o aumento da desigualdade social, as finanças sem controle, a decadência das instituições políticas e a erosão da governabilidade global.

Talvez isso não seja nada novo, uma vez que essas tendências vem nos acompanhando durante bastante tempo. Entretanto, alguns acontecimentos têm um impacto mais profundo e duradouro.  Aqui, vamos apresentar brevemente, em forma de lista para lembrar e ver, mas não colocadas por ordem de grandeza, o que sempre é uma decisão subjetiva.

1. O colapso da Primavera Árabe. Egito e Síria são suficientemente diagramáticos para dissuadir outros países árabes a segui-los. As lutas internas no amplo e variado mundo do Islã tomarão muito tempo para assentar-se. O verdadeiro desafio é como utilizar a modernidade como elemento de viabilidade no Islã. O golpe de Estado no Egito deu uma nova força aos radicais que não acreditam na democracia e nunca se saberá se a Irmandade Muçulmana poderia ter conduzido o país com eficácia ou se teria fracassado (como é o mais provável).  Os estrangeiros não podem resolver esse conflito, como mostra claramente o caso da Síria, que se converteu em uma guerra de poder financiada por atores externos.

 2. Autossuficiência energética nos EUA.  Em cinco anos, a exploração das areias betuminosas reduzirá as importações petrolíferas estadunidenses à metade e, se essa tendência continuar, os EUA na verdade poderiam chegar a ser autossuficientes no abastecimento de energia. O impacto no preço do petróleo é claro. Isso afetará a importância estratégica do mundo árabe e de países com petrodólares como a Rússia. A indústria estadunidense receberá um forte impulso, mas os incentivos para o desenvolvimento das energias renováveis em todo o planeta diminuirão.

3. A impossibilidade de chegar a um acordo significativo sobre a mudança climática. O fracasso da última conferência sobre a mudança climática na Polônia demonstrou que há pouca vontade política para chegar a um consenso global sobre a forma de abordar esta questão. Entretanto, segundo a maioria dos cientistas do clima, estamos nos aproximando rapidamente do ponto de não retorno, com a perspectiva de um dano irreversível ao ecossistema global. Enquanto isso, investidores franceses estão comprando terras no sul da Inglaterra para plantar vinhedos.  A Islândia é assediada pelos investidores (incluídos os chineses), que querem explorar grandes extensões de terreno onde o cultivo continuará sendo possível. Todas as nações estão se preparando para a exploração das reservas de minerais sob o gelo ártico de fusão, que está abrindo novas vias para o transporte marítimo. Isso demonstra que o mundo dos negócios não apenas tem uma avaliação mais clara que os governos do que está acontecendo, mas também uma falta de visão da responsabilidade social.

4. Declive estadunidense. O presidente Barack Obama teve que cancelar sua participação na recente cúpula da Ásia devido à crise orçamentária dos EUA. Mas o presidente russo Vladimir Putin pode comparecer e foi capaz de manipular com êxito os acontecimentos na Síria.  A assinatura da reforma de saúde de Obama está em perigo. Edward Snowden demonstrou ao mundo que os EUA não respeitam seus próprios aliados. Enquanto isso, o Tea Party foi capaz de paralisar o governo estadunidense e levar o partido Republicano a abraçar uma política de deterioro do setor público. Pessoas de todo o mundo consideram agora os EUA um sócio pouco confiável, em uma crise irreversível, com um presidente que faz um conjunto de promessas de belas palavras, mas que não é capaz de colocá-las em prática.


Ninguém tem sido capaz de colocar o setor financeiro sob controle e os escândalos e multas gigantescas são uma realidade constante. Não há solução à vista na Palestina e os EUA enfrentam grandes dificuldades para retirar-se do Afeganistão, enquanto o caos está voltando ao Iraque. As negociações com o Irã estão dando um forte impulso ao setor radical xiita do mundo islâmico. Os EUA são um país com uma grande capacidade de recuperação, mas o futuro não se vê nada prometedor.

5. Declínio europeu. O ano que termina foi de falta de unidade na Europa e da ascensão definitiva da Alemanha nos assuntos europeus. Só a macroeconomia conta hoje. A Irlanda é elogiada como o bom exemplo, depois de ter conseguido colocar seu déficit sob controle. Mas a nível microeconômico, o dano no tecido social pode ser dramático. O mesmo está acontecendo com Portugal.  A Grécia é o exemplo extremo. Os gregos perderam 20% de seus ingressos, o desemprego aumentou até 21%, e mais recortes estão sendo exigidos. Este não é o lugar para uma análise de como a Alemanha se viu favorecida por sua política que sufoca outros países sem nenhuma contemplação de solidariedade. Nas eleições europeias de maio de 2014, é provável que um grande número de pessoas vote pelos partidos anti-Europa que têm surgido em quase todos os cantos, com a única exceção da Espanha, já que o governo de Mariano Rajoy, como demonstram as leis sobre o aborto e a ordem pública, é suficientemente de direita para deixar espaço a um partido ainda mais direitista. O debilitamento do Parlamento Europeu perdurará durante muito tempo, até que a Europa recupere algo do atrativo que foi perdendo progressivamente frente seus cidadãos.

6. Nacionalismo chinês. Em poucos meses, o novo presidente, Xi Jinping, adquiriu uma autoridade sem precedentes desde a época de Mao e Deng.  Está fomentando a ideia de um sonho chinês, para incentivar as pessoas sob sua liderança.  Isso se baseia na afirmação da China como uma grande potência de imponente respeito de todo o mundo. Deram-se passos audazes para consolidar as reivindicações territoriais chinesas, que abriram conflitos com a Coreia, Filipinas, Vietnã e Japão.
Com o governo japonês, agora dirigido por políticos nacionalistas, muitos analistas estão considerando a possibilidade de uma terceira guerra mundial a partir da Ásia. No século 16 a China tinha 50% do PIB mundial e há um forte desejo entre os chineses para recuperar seu legítimo lugar no mundo. O tratado de defesa entre Japão e Estados Unidos converte este ponto do conflito em potencialmente global.

7. As Mudanças no Vaticano. A eleição do Papa Francisco supôs um (??) muito necessário, mudou o rumo da Igreja Católica. O Papa colocou novamente uma ênfase nas pessoas em vez do mercado, utilizando termos como "solidariedade", "justiça social", "exclusão" e "marginalização", que já haviam desaparecido do discurso político. O presidente Obama o acompanhou com um contundente discurso contra as crescentes desigualdades sociais nos EUA. Entretanto, de acordo com a London School of Economics, em 20 anos a Grã Bretanha voltará ao nível de desigualdade social dos tempos da rainha Victória. O Papa Francisco é o único que denunciou o desmantelamento do sistema de bem-estar social que surgiu durante a Guerra Fria. Confiemos que seu exorto ajudará a prevenir a redação de um novo Das Kapital, onde as vítimas não seriam os trabalhadores mas os jovens.

(*) Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e Publisher de Other News.



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