Pelo Mundo

O papel da mídia ocidental na suposta execução do ministro norte-coreano

Compreender os interesses ocidentais e o papel deslegitimador da grande mídia não conduz necessariamente a um apoio ao regime norte-coreano.

22/05/2015 00:00

Wikimedia Commons

Créditos da foto: Wikimedia Commons

Desde a terça-feira de 12 de maio a grande mídia ocidental tem circulado a informação de que o governo norte-coreano teria executado brutalmente um de seus líderes militares, Hyon Yong-chol, cujo cargo seria equivalente ao de Ministro da Defesa em seu país. Tal informação tem como uma de suas principais fontes a agência de notícias sul-coreana Yonhap, que por sua vez baseia-se em informações fornecidas pelo Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul a parlamentares deste país.
   
Hyon teria sido executado numa escola militar de Pyongyang (capital da Coreia do Norte), no final de abril deste ano, em presença de centenas de oficiais militares norte-coreanos. O líder militar teria sido fuzilado com um canhão antiaéreo (utilizado para abater aviões), sob acusações de insubordinação e desrespeito ao líder supremo do país, Kim Jong-un. De acordo com uma matéria publicada no jornal estadunidense The Washington Post, Hyon é acusado, dentre outras coisas, de haver adormecido durante uma reunião na qual Kim estava discursando. Segundo publicação do jornal britânico The Guardian, o fuzilamento por arma antiaérea seria somente um dos métodos usualmente empregados por Kim para subjugar seus inimigos domésticos, métodos que vão do uso de lança-chamas a envenenamentos, passando por "dar de comer” a cães famintos.
   
De acordo com a Folha de São Paulo, Kim teria ordenado, somente neste ano, a execução de 15 membros do alto escalão de seu governo, a fim de consolidar sua autoridade, sendo que, em 2013, ele teria mandado matar seu próprio tio, Jang Song Thaek, considerado em certa ocasião o segundo homem mais poderoso do país.
   
No entanto, apesar de supostamente executado no final de abril, Hyon teria aparecido diversas vezes em programas da TV norte-coreana e, como salienta o The Guardian, o governo norte-coreano geralmente não veicula informações relacionadas a figuras públicas executadas pelo regime. Além disso, alguns jornais da grande mídia publicaram – ainda que em menor número – opiniões que põem em dúvida a morte de Hyon. Como se em resposta aos aspectos duvidosos que cercam o caso, a agência de notícias sul-coreana Yonhap publicou ontem (15) uma matéria sobre a visita de Kim a uma piscicultura de seu país, destacando a ausência de Hyon. Trata-se de uma verdadeira novela a la coreana cujos capítulos finais ainda estão por vir. De qualquer modo, cabe aqui a pergunta: por que tanto interesse, por parte da grande mídia ocidental, na Coreia do Norte?
   
A resposta mais ingênua a essa questão é aquela que nega a própria pergunta. Ou seja, é aquela que parte do pressuposto de que a grande mídia ocidental é neutra e independente e, portanto, não pode se interessar especialmente por nada ou por ninguém. Este é, aliás, o discurso da própria mídia. A fim de descartarmos essa hipótese, basta compararmos a cobertura dada por ela ao caso “Charlie Hebdo”, por um lado, e à morte de cerca de 400 africanos que tentavam imigrar à Europa via mar Mediterrâneo, por outro. Ou, no Brasil, entre as coberturas da TV Globo às manifestações do “Fora Dilma” e à greve dos professores do Paraná. Além disso, é interessante observar que as informações relativas ao caso “Hyon Yong-chol” provêm do Estado sul-coreano, o qual encontra-se, atualmente, em guerra formal com a Coreia do Norte.
   
Outra possível resposta é aquela que acredita que essa mídia busca auxiliar na libertação do povo norte-coreano frente à ditadura de Kin Jong-un. O descarte a esta hipótese é possível, por sua vez, via comparação do tratamento oferecido por essa mídia aos regimes ditatoriais chinês ou saudita (vistos em geral como parceiros estratégicos dos principais países ocidentais) frente ao norte-coreano (visto como inimigo, “reino do terror”, parte do “Eixo do Mal” etc).
   
Uma resposta mais adequada é aquela que apreende o papel da grande mídia ocidental como legitimadora dos interesses das grandes potências capitalistas ocidentais, principalmente dos Estados Unidos, frente aos interesses norte-coreanos. Segundo esta visão, poderia-se dizer que tais potências têm como objetivo fragilizar e, no limite, derrubar o regime encabeçado por Kim, por motivos que são ao mesmo tempo militares, político-estratégicos, ideológicos e econômicos.
          
Militares porque a Coreia do Norte representa um perigo real a essas potências, uma vez que ela possui armamentos nucleares.
   
Político-estratégicos pois o principal parceiro comercial, político etc. da Coreia do Norte é a China, a qual tem desafiado, nos últimos anos - ainda que não abertamente - a hegemonia estadunidense no sistema internacional. Assim, seria interessante aos Estados Unidos tanto uma relação menos conflituosa com os norte-coreanos quanto um distanciamento destes em relação à China.
    
Ideológicos porque os limites do regime ditatorial norte-coreano são apresentados pela grande mídia como limites do socialismo.
   
E econômicos pois a queda de Kim Jong-un poderia significar a abertura do mercado norte-coreano aos capitais das potências ocidentais. A hipocrisia aqui reside no fato de a Coreia do Norte sofrer a imposição crônica de um bloqueio econômico, pelo menos desde a década de 1990, por parte dos Estados Unidos e alguns de seus aliados. Nunca é demais lembrar que a separação da Península da Coreia é fruto da Guerra da Coreia (1950-1953), na qual os Estados Unidos apoiaram a Coreia do Sul enquanto que a União Soviética e a China, a Coreia do Norte. A partir de então os norte-coreanos passaram a depender consideravelmente da ajuda soviética e chinesa. Desde a década de 1970, com a morte de Mao Tsé-Tung e a reaproximação da China aos Estados Unidos, a economia norte-coreana passou a apresentar baixas taxas de crescimento econômico. A situação do país piorou ainda mais no início da década de 1990, com o desmantelamento da União Soviética e as imposições econômicas por parte dos Estados Unidos. Foi a partir deste período que a Coreia do Norte "fechou-se para o mundo" (na verdade, foi fechada, ao menos em parte; ou foi obrigada a se fechar e a se defender) e, desde então, o país tem enfrentado diversas crises, que vão de falta de alimentos a enchentes.
   
O papel da grande mídia ocidental no caso Hyon Yong-chol é, portanto, deslegitimar o atual regime norte-coreano em prol dos interesses das potências capitalistas ocidentais, principalmente dos Estados Unidos. Se alguém dúvida desse papel (que é muito bem cumprido, aliás), basta ler as opiniões que os leitores dessa mídia deixam transparecer, de forma geral, nos comentários de qualquer notícia publicada sobre a Coreia do Norte. Ou mesmo a declaração do think tank Michael Madden, da Suffolk University (Boston), sobre o caso Hyon Yong-chol: “não está claro se há realmente alguma ameaça à liderança de Kim ou à estabilidade do país, mas se isso continuar acontecendo até o próximo ano devemos pensar num plano de contingência para a Península Coreana”.
   
É importante deixar claro que a apreensão desse papel deslegitimador não conduz necessariamente a um apoio ao regime norte-coreano. Aqueles que lutam pela defesa dos direitos humanos, por exemplo, não devem deixar de denunciar o caráter opressor deste regime. No entanto, tal crítica não pode ignorar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e seus aliados à Coreia do Norte, bloqueio este que também é responsável pela fome que acomete o povo norte-coreano. Tampouco pode-se esquecer que a autodeterminação dos norte-coreanos é um direito - a defesa de qualquer direito só ocorre onde há laços de solidariedade. E que – este é o ponto – a criação de laços de solidariedade é muito mais difícil sem a democratização da mídia.
   
Há de chegar o dia em que prestaremos mais atenção à grande cultura milenar norte-coreana do que a seus ditadores.
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Thiago Nogueira Cyrino é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia e mestrando em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas.

FIFIELD, Anna; SEO, Yoonjung. North Korea said to execute top official by antiaircraft gun, 2015. Acesso em: 15 de maio de 2015.
   
McCURRY, Justin. North Korea defence chief reportedly executed with anti-aircraft gun, 2015.

FOLHA DE SÃO PAULO. Coreia do Norte executou 15 oficias neste ano, segundo Seul, 2015.

McCURRY, Justin, op. cit. Ver, por exemplo, The New York Times e Folha de São Paulo.
   
YONHAP. N. K. NEWS: Kim Jong-un visits fish farm without defense chief, 2015.
   
O ESTADO DE SÃO PAULO. Coreia do Norte executou ministro da Defesa por traição, segundo sul-coreanos



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