Pelo Mundo

O relato de um jornalista chileno que viajou pelo inferno de Pinochet

13/09/2011 00:00

Christian Palma - Correspondente da Carta Maior em Santiago do Chile (@chripalma)

Tudo o que se escrever sobre o grande jornalista Alberto “Gato” Gamboa será pouco. Por isso uma conversa com esse ator privilegiado dos últimos 50 anos no Chile, é um luxo. Foi diretor do diário de esquerda Clarín, silenciado para sempre em 11 de setembro de 1973. Seu slogan, “Firme junto ao povo”, segue gravado no coração da gente. Seu trabalho o levou a ser preso e sistematicamente torturado. Diz-se que ele foi a pessoa mais torturada no Estádio Nacional, logo depois do golpe militar. Quase quarenta anos depois desse episódio, o destacado jornalista, hoje na casa dos 90 anos e com uma clareza mental invejável, nos fala de sua história, sempre com um toque de humor, traço que o acompanha desde sempre.

O Chile necessita de novos dirigentes políticos?
Acredito que sim e esse movimento estudantil deixou isso mais claro ainda. O movimento de esquerda que poderia ter irrompido com força, ideias e projetos capazes de incomodar muito mais o governo, não fez isso porque carece de dirigentes, assim como a classe política em geral. Esse movimento dos estudantes surgiu no momento certo e creio que dele sairão os líderes de que necessitamos. Isso é o mais importante que nos ocorreu nos últimos anos. É possível ver uma força, unidade e um futuro que até então não se via.

O que significa para você a imagem de Salvador Allende?
É uma das figuras mais importantes do Chile. O maior líder que a esquerda já teve. Um emblema que é muito importante que se mantenha e que siga servindo de modelo aos jovens que também são valentes, atrevidos e não têm os medos herdados da ditadura.

Que sentimentos você têm neste novo 11 de setembro, o segundo sob um governo de direita?
É uma data emblemática que, manejada por gente jovem, pode ser uma nova força importante para a esquerda. Agora, vejo também que a direita tomou o poder, mas não sabe o que fazer com ele. Estão buscando um caminho que não encontram. Além disso, chegaram ao poder graças a uma desordem muito grande na Concertação. A esquerda deve estar muito atenta, porque a direita no afã de melhorar seu governo, está propondo reformas que a Concertação devia ter feito quando estava no comando.

Os líderes jovens reclamam dos meios de comunicação que, no Chile, são majoritariamente de direita e estão contra os movimentos sociais. Como jornalista de mil batalhas, o que tem a dizer sobre isso?
Os jovens têm razão. O poder jornalístico da esquerda não tem peso, nem equipes potentes. Os partidos políticos de oposição estão conscientes disso e logo deve aparecer uma publicação com suas cores capaz de fazer um contraponto aos meios de comunicação de direita que mandam hoje. Isso é fundamental para o movimento de esquerda.

Qual sua opinião sobre a repressão usada pelo governo contra as manifestações sociais, inclusive com a morte de um menor?
Não quero pensar que estão elaborando um plano para eliminar a esquerda, porque essa postura provocará o repúdio de todos. Essa repressão me trouxe muitas recordações dos tempos da ditadura. Esse governo pode ser associado a isso. E a esquerda pode usar isso para unir-nos outra vez.

Onde você estava no dia 11 de setembro de 1973?
Eu era diretor do diário de esquerda Clarín (desaparecido naquele ano). Neste dia cheguei para trabalhar no edifício que ficava em pleno centro. Era o jornal de maior tiragem no Chile com mais de 200 mil exemplares diários. Apoiava os partidos de esquerda, mas não tinha problemas em dar espaço para todo mundo. As pessoas gostavam pois ele interpretava o povo. Isso faz falta agora no Chile. Nunca pensei que haveria um golpe de estado. No caminho, fui me inteirando do que estava acontecendo no país. Eles invadiram o jornal e tomaram os primeiros funcionários presos. Eu me salve nesta noite porque não entrei pela porta principal, mas sim por uma lateral. Mas no dia seguinte, me chamaram ao Ministério da Defesa. Quando cheguei lá, me interrogaram junto com outros jornalistas de esquerda. Alguns foram soltos, outros, como eu, ficaram presos.

No Estádio Nacional?
Sim. Por mais de dois meses, onde me bateram e torturaram. Eles pegaram pesado com todo mundo, mas comigo os militares eram especialmente “entusiastas”. Me bateram tanto que fiquei muito ferido e não havia um lugar onde pudesse dormir. Os milicos me fizeram uma cama com cobertores nos vestiários onde os jogadores colocavam suas coisas antes de entrar em campo. Depois me levaram para o campo de concentração de Chacabuco, no norte (deserto de Atacama), onde fiquei preso mais dois anos com uma condenação de morte sobre minha cabeça.

Como enxerga esses anos hoje, com a perspectiva que o tempo dá?
Mais além da dor, do sofrimento e da raiva sinto orgulho de que minha experiência (editou o famoso livro “Uma viagem pelo inferno”, onde relata seu cativeiro) tenha contribuído para mudar em parte o que acontecia no Chile.

Quando você foi solto?
Após dois anos. Nos trouxeram de volta, uns 20 presos, e nos levaram para um regimento na periferia de Santiago. Ali ficamos mais alguns dias detidos. Conversávamos tanto com os milicos, que no final nos tornamos até amigos. Bom, um certo dia, sem mais nem menos, me soltaram.

Era por volta das 11h30min da noite, em um local longe da minha casa. Faltava meia hora para o toque de recolher. Se tivessem me detido, significava cair preso outra vez. Eu e outros prisioneiros liberados começamos a caminhar e nenhum táxi ou micro-ônibus parava para nós. Lá pelas tantas, um taxista gordo, de barba, me reconheceu e parou. Disse a ele: somos seis e acabamos de sair da prisão. Tire-nos daqui, porque se nos prendem outra vez vão nos matar. Subam e me paguem o que quiserem, disse. E foi nos deixando, cada um em sua casa, arriscando sua própria pele. Por último me deixou na casa de minha irmã, ironicamente situada ao lado do Estádio Nacional, ali mesmo onde tinham me detido dois anos e meio antes. Minha irmã ficou louca , quis me esconder embaixo da cama.

Tradução: Katarina Peixoto

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