Pelo Mundo

O sectarismo no Iraque

O Iraque caminha na direção de uma guerra civil sectária. O Isis, grupo sunita, considera os shias hereges que traíram a fé e merecem a morte

25/06/2014 00:00

dvidshub / Flickr

Créditos da foto: dvidshub / Flickr

O secretário de estado John Kerry parecia animado depois de uma reunião de 90 minutos com o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, “a reunião foi boa”, disse o norte-americano. Mas se Kerry está otimista sobre a situação, então ele é a única pessoa em Bagdad se sentindo assim depois das notícias de vitórias dos rebeldes e de massacres sectários. O Iraque está começando a se parecer com a Índia na época de sua partição, em 1947, quando massacres propagaram mudanças demográficas.
 
O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isis, em inglês) se espalhou pela gigantesca província de Anbar, a oeste de Bagdad, sem encontrar muita resistência. O exército Iraquiano abandonou a fronteira com a Jordânia, onde tribos sunitas tomaram um posto de fronteira em Turaibal, na autoestrada construída por Saddam Hussein para ser uma rota crucial de suprimentos durante a guerra Irã-Iraque. Tribos estão negociando para entregar Turaibal para o Isis, que capturou os dois principais postos de fronteiras com a Síria no fim de semana. Um líder tribal declarou que estava mediando a situação com o Isis numa tentativa de “poupar sangue e tornar a situação mais segura para os funcionários dos postos, e estamos recebendo uma mensagem positiva dos militantes.”



 

O exército jordano diz que suas tropas foram colocadas em estado de alerta ao longo dos 180km de sua fronteira com o Iraque, para repelir “qualquer ameaça potencial à segurança” nesta região inabitada e deserta. O porta-voz do exército iraquiano declarou que as tropas deixaram algumas cidades em Anbar por “razões táticas”.

Obama e John Kerry pediram por um governo genuinamente inclusivo onde os líderes sunitas, assim como com os Shias e os Curdos, tivessem uma fatia do poder. Os dois insinuaram que, para que tal governo seja criado, Maliki não pode se manter no poder. Mas pode ser tarde demais para solucionar o problema dividindo o poder, uma vez que os sunitas já tiraram o lugar do governo enquanto autoridade principal nas províncias onde eles são maioria. Os políticos sunitas que se encontraram com Kerry — o porta-voz do parlamento, Osama al-Nujafi e o vice-primeiro-ministro Saleh al-Mutlaq — possuem pouquíssima autoridade em suas próprias províncias. O eventos lhes ultrapassaram e é improvável que haja um papel principal para políticos sunitas como eles em um momento de revolta.

Oficiais iraquianos declararam que Maliki pediu aos EUA que fizessem ataques aéreos contra as posições do Isis no Iraque e na Síria, tendo campos de treinamento e comboios como alvo. Kerry respondeu que deveria se tomar cuidado com vítimas civis. Obama disse que Maliki e as lideranças iraquianas enfrentam um teste para provar se “são capazes de colocar de lado suas desconfianças e preferências sectárias para o bem comum”.
 
 


 

Esperanças de um governo plural parecem anacrônicas enquanto o Isis se aproxima da capital e deixou claro que não quer conversar com os shias, mas matá-los ou expulsá-los do Iraque. O Isis considera os shias apóstatas ou hereges que traíram a fé e merecem a morte. Onde os Shias não podem se defender eles fugiram. Em lugares como Tal Afar, com uma população de 300.000 shias turcomanos a oeste de Mosul, a luta ainda está acontecendo. O Isis é um movimento anti-shia no Iraque e na Síria, seu sectarismo violento é tão extremo que esta foi uma das razões pelas quais foram criticados pela Al-Qaeda. Há relatos de que alguns shias que vivem em Mosul receberam um ultimato de se converterem em sunitas em 24h ou seriam mortos.


O Iraque percorre um longo caminho em direção a uma guerra civil sectária entre sunitas e shias nas últimas duas semanas. Na província de Salahuddin, insurgentes ajudados por grupos sunitas locais conseguiram expulsar milhares de shias turcomanos de três vilarejos. “Você não pode imaginar o que aconteceu, só quem viu pode acreditar,” foi o que contou à AP Hassan Ali, um fazendeiro de 52 anos, enquanto estava sentado na mesquita shia de al-Zahra, que é usada para distribuir ajuda em Kirkuk. “Nos atingiram com morteiros, as famílias fugiam e eles continuavam a atirar,” disse o fazendeiro.
 
 


 

Os ataques ocorreram dia 16 de junho nos vilarejos vizinhos de Chardaghli, Brawchi e Karanaz e também em outra vila, Beshir, 45km ao norte, como contaram refugiados à agência. O objetivo parece ser criar zonas livres de shias, onde o Isis possa estabelecer seu califado sunita fundamentalista. Entre 15 e 35 aldeões foram mortos e tiveram seus corpos jogados na estrada para que fossem recolhidos. “Nos ligaram e disseram ‘mandem alguém para buscar seus cães’,” contou um policial do vilarejo. Sobreviventes disseram que as mesquitas shias foram destruídas, suas casas queimadas e o rebanho roubado.
 
Diferente de outros massacres do Isis, este último teve seus autores reconhecidos. Os aldeões shias dizem que seus vizinhos sunitas também participaram dos ataques. Os sunitas que vivem em vilarejos próximos estão fugindo, pois esperam uma vingança dos shias.
 
Tradução de Roberto Brilhante



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