Pelo Mundo

O sonho europeu de voltar ao passado

Vale a pena recordar que, até a crise financeira de 2008, a xenofobia e os partidos de direita radical eram entidades marginais em quase toda a Europa.

30/10/2015 00:00

Imigrantes europeus nos Estados Unidos

Créditos da foto: Imigrantes europeus nos Estados Unidos

As recentes eleições na Suíça e na Polônia são bons indicadores do que vai ocorrer em outros países da Europa devido à crescente e imparável onda de refugiados. Vamos situar os acontecimentos num contexto mais vasto, mas primeiro é necessário fazer algumas considerações cruciais, sobre as quais existe um consenso cada vez maior.
 
A primeira é que o sistema atual de relações internacionais e governança nacional deixou de funcionar. Estamos vivendo um período de transição, mas ninguém sabe aonde ele vai dar. A esquerda não tem um manifesto e a direita apenas cavalga no status quo. Não há um pensamento político a longo prazo.
 
A segunda é que se vive numa época de “nova economia”, baseada na supremacia das finanças sobre a produção. Funcionários não eleitos governando os bancos centrais e os banqueiros, que com isso têm muito mais poder que antes.
 
Essa “nova economia” considera os empregos precários uma realidade legítima, a desigualdade social natural, o mercado como a base exclusiva para o desenvolvimento da sociedade, e estima que o Estado é ineficiente e um freio permanente para o setor privado.
 
A terceira é que as instituições políticas vêm sendo ofuscadas. Nenhum partido conta mais com um movimento juvenil. São vistos cada vez mais como parte do sistema de poder, forças fisiológicas que consideram os cidadãos como mero eleitorado, e não mais porta-vozes da cidadania.
 
As cifras da política (e da corrupção) estão crescendo ano após ano. As próximas eleições norte-americanas custarão mais de 4 bilhões de dólares e até agora apenas 145 doadores já pagaram mais de 50% da campanha eleitoral.
 
Segundo a Escola de Economia de Londres, o custo de uma campanha eleitoral na Europa aumentou 47% na última década. Em outras palavras, muitos consideram que vivemos agora numa democracia que está se tornando uma plutocracia. A Hungria está defendendo abertamente uma democracia autocrática, ao estilo de Cingapura e da China, e está tendo sucesso com essa proposta.
 
A quarta consideração é que o multilateralismo está em crise. Os Estados Unidos deixaram de ratificar todos os tratados internacionais, começando pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Crianças e pelo Direito Marítimo. As Nações Unidas foram marginalizadas. As organizações regionais, como a União Africana, ou a Organização dos Estados Americanos, se tornaram notoriamente ineficazes.
 
A União Europeia está saindo de uma crise existencial do euro (a questão da Grécia) para entrar em uma ainda mais grave, a dos refugiados. O Reino Unido está liderando uma ofensiva contra Bruxelas para a restituição de poderes, o que criará um precedente que outros invocarão, começando por Hungria e Polônia.
 
Se essas considerações, entre muitas outras, forem consideradas válidas, então não é difícil entender porque os eleitores europeus estão votando com base na nostalgia política e na falta de segurança. Devido a um futuro incerto, o sonho de voltar a um melhor passado se fortalece.
 
As eleições suíças e polonesas premiaram os partidos que anunciaram que defenderão a identidade nacional contra os estrangeiros, especialmente os muçulmanos. As tradições religiosas nacionais contra os valores europeus de liberdade sexual, o casamento homossexual, o aborto livre e os estilos de vida decadentes.
 
O caso da Polônia é emblemático. O país tem sido um dos maiores beneficiados pela ajuda da União Europeia – o leste europeu quis ingressar ao bloco para conseguir fundos e apoio, mas sem nenhuma intenção de dar algo em troca, como vemos na negativa de aceitar os imigrantes agora.
 
Vale a pena recordar que, até a crise financeira de 2008, a xenofobia e os partidos de direita radical eram entidades marginais em quase toda a Europa.
 
Em pouco tempo, os outrora marginais ganharam espaço, inclusive em países conhecidos por seu sentido cívico e tolerância, como a Holanda e os países nórdicos.
 
É desconcertante ver trabalhadores e pessoas de baixa renda votarem pela Frente Nacional na França, pelo Cinquestelle na Itália, pelo UKIP no Reino Unido, e agora pelo Paz e Justiça na Polônia.
 
O sonho de voltar a um passado seguro e ordenado é o que os leva a votar num partido xenófobo, de direita radical e antieuropeu.
 
Não que queiram votar por um futuro incerto: para eles é mais tranquilizador votar por uma época durante a qual a política era nacional, não havia uma burocracia sem rosto em Bruxelas indicando como empacotar tomates, não havia o euro – uma moeda supranacional, manobrada em Frankfurt por banqueiros poderosos do BCE –, não havia uma Alemanha hegemônica ditando instruções aos outros países.
 
Também vale a pena recordar que grande parte dos cidadãos europeus ainda não recuperaram a qualidade de vida que tinham antes de 2007. Os jovens pagam um custo desproporcional por uma crise provocada pelo setor financeiro, que foi resgatado com uma quantidade de recursos muito maior que a destinada para as políticas de emprego ou para a recuperação social.
 
O sonho de voltar ao passado também foi o motivo da criação do Tea Party nos Estados Unidos – criado pela ala radical do Partido Republicano – e da vitória de Justin Trudeau no Canadá. As diferenças entre Estados Unidos e Canadá foram claramente reduzidas pelo primeiro-ministro Stephen Harper, que acaba de deixar o cargo. Os canadenses quiseram voltar aos bons tempos de Pierre Trudeau, elegendo o seu filho Justin nas eleições federais de 19 de outubro.
 
Enquanto o Ocidente pode sonhar com uma idade de ouro recente, no Sul do mundo, o nacionalismo, irmão gêmeo da nostalgia política, está aumentando – especialmente no caso dos países com um passado glorioso, e me refiro não só ao Japão de Shinz%u04D Abe e à China de Xi Jinping, mas também à Índia, à Tailândia e ao Sri Lanka.
 
Se apresenta, assim, um problema para o Ocidente. Atualmente, existem 60 milhões de refugiados, sem considerar neste número os que enfrentam perseguições sexuais, como os gays na África, ou as mulheres que enfrentam o Boko Haram na Nigéria. Tampouco estão contabilizados os que estão obrigados a escapar das mudanças climáticas – que, segundo a ONU, serão outros 15 milhões até o ano de 2025 –, que devem ser somados aos que lutam contra a fome e contra as ditaduras.
 
O termo “migrantes” é muito mais representativo da realidade que a palavra “refugiados”, que são, para a Europa, somente os que fogem de conflitos claramente reconhecidos. E o Ocidente está por trás de muitos desses conflitos. Se calcula que desde que a Rússia começou a intervir na Síria, deve haver uns 150 mil sírios refugiados da guerra, aumentando o êxodo que já existia.
 
A expansão demográfica é clara. A África terá um bilhão de habitantes em 2030, enquanto a Europa vai perder ao menos 15 milhões este ano. A Europa que conhecemos, homogênea, branca, cristã e tolerante vai desaparecer. Isso, inevitavelmente, vai requerer uma boa dose de sofrimento.
 
Os Estados Unidos vai se transformar num país multicultural e multiétnico em pouco mais de cem anos. De acordo com os registros da ilha de Ellis, o ponto de entrada de imigrantes mais importante do país, nove milhões de irlandeses, alemães, austríacos e escandinavos entraram no país nos tempos do barco a vapor, além de outros oito milhões de poloneses, búlgaros, romenos, húngaros, russos e bálticos, e mais uns cinco milhões de italianos e gregos.
 
Em poucas décadas, um total de 22,5 milhões de europeus se tornaram norte-americanos. A Europa não está preparada para abrigar nem mesmo um décimo disso.
 
* Jornalista ítalo-argentino, cofundador e ex-diretor-geral da Inter Press Service (IPS). Nos últimos anos, também fundou Other News, um serviço que difunde “informação que os mercados eliminam”.
 
Tradução: Victor Farinelli





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