Pelo Mundo

Os velhos e novos amigos europeus da extrema-direita ucraniana

No seu país de origem, o partido de extrema-direita Svoboda usou suas ligações na Europa para fins de relações públicas, imagem e propaganda.

02/03/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Há muito tempo é tomado como certo que o partido ucraniano radical de direita Svoboda, que formou a primeira fação parlamentar de extrema-direita na Ucrânia após as eleições de 2012, é membro da Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus (AMNE). Afinal de contas, os líderes do Svoboda sempre disseram que o seu partido era membro da AENM, enquanto que o Partido Nacional Britânico (BNP), que é um dos mais antigos membros da Aliança, explicitamente mencionou o Svoboda, em 2010, como membro da AENM, juntamente com a Frente Nacional Francesa (que recentemente abandonou o grupo), o húngaro Jobbik, o italiano Fiamma Tricolor, o próprio BNP, o Movimento Social Republicano espanhol, belga Frente Nacional, o português Partido Nacional Renovador e os Democratas Nacionais Suecos.


Desenvolvimentos no início deste ano revelaram uma imagem diferente. As primeiras dúvidas sobre o estatuto de membro do Svoboda foram levantadas após o político polaco Mateusz Piskorski ter alegado, no início de 2013, que o Svoboda tinha sido excluído da AENM devido às suas posições abertamente racistas - como diz o ditado sarcástico russo, eles foram "expulsos da Gestapo por excesso de brutalidade ". A AENM é, de fato, muito mais extremo do que um outro grupo de extrema-direita paneuropeu, a Aliança Europeia para a Liberdade, que reúne representantes do Partido da Liberdade austríaco, da Frente Nacional francesa, do belga Interesse Flamengo, dos Democratas Suecos e alguns outros.

No entanto Piskorski é ele próprio um ex-membro do agora extinto partido de extrema-direita polaco Auto-Defesa, e nós sabemos como essas pessoas não são de confiança. Além disso, Piskorski tem sido associado com ao partido fascista russo Movimento Internacional da Eurásia, liderado por Aleksandr Dugin,conhecido pelas suas posições imperialistas e, em particular, anti-ucranianas. Provocar os ultranacionalistas ucranianos, seus antagonistas, alegando que eles tinham sido rejeitados pelos seus "irmãos de armas" europeus, poderia ter sido uma forma comum de assédio fascista.

O Svoboda prontamente negou estas alegações, com uma referência a Bruno Gollnisch, presidente da AENM, que supostamente confirmou a presença do Svoboda na Aliança. Mas a referência a Gollnisch, eurodeputado francês pela Frente Nacional, era questionável. Já em outubro de 2012, tinha postado uma mensagem no seu blog dizendo que o AENM consistia apenas em quatro partidos: Jobbik, PNB, Chama Tricolor e o minúsculo Partido Nacional Democrático búlgaro. Isto não só confirmou que os líderes do Svoboda tinham feito falsas alegações sobre a adesão do seu partido à AENM, mas a mensagem de Gollnisch revelou também a incompetência do PNB, que emitira uma declaração falsa.

A informação fornecidas por Gollnisch e novas investigações sobre a AENM levou a que se compusesse a seguinte lista dos principais oficiais da Aliança: Gollnisch (Presidente), Nick Griffin (Vice Presidente), Béla Kovács (Tesoureiro) e Valerio Cignetti (Secretário Geral). Os membros associados incluem Jean-Marie Le Pen (Frente Nacional francesa), Andrew Brons (independente, ex-PNB), Maurizio Lupi (Povo Italiano pela Liberdade), Christian Verougstraete (Interesse Flamengo), Bartosz Józef Kownacki (Lei e Justiça Polacas), e Dailis Alfonsas Barakauskas (Ordem e Justiça Lituanas).

O estatuto do Svoboda na AENM foi esclarecido nesta primavera: o partido nunca foi um membro de pleno direito da Aliança, gozando apenas do estatuto de observador, uma vez que a AENM é um grupo baseado na UE e na Ucrânia não é um estado-membro da UE.

A imagem de Svoboda foi ainda mais danificada no dia 22 de março, quando Kovács escreveu uma carta oficial a Oleh Tyahnybok, líder do Svoboda. Nela, ele expressa nos termos mais fortes a sua indignação com o fato de os membros da Svoboda terem organizado comícios contra os húngaros étnicos nos Cárpatos ucranianos da Ruthenia, parte da qual já pertenceu à Hungria. Kovács, um eurodeputado húngaro pelo Jobbik, concluiu informando Tyahnybok de que o estatuto de observador da Svoboda no AENM havia sido terminado Esta informação foi-me confirmada num e-mail a partir de Attila Bécsi (Jobbik): "Svoboda já não é membro da AENM devido às suas declarações anti-húngaras".

Um pouco de escândalo picante é que o Jobbik entrou ao mesmo tempo em cooperação com o Movimento Internacional da Eurásia de Dugin. A 16 de Maio, Kovács e o líder do Jobbik, Gábor Vona, visitaram Moscovo e Vona deu uma palestra intitulada "A Rússia e a Europa" no Centro de Dugin de Estudos Conservadores sediado na Universidade Estadual de Moscovo, onde Dugin é agora professor. No seu discurso, Vona chamou à União Europeia "uma organização traiçoeira", que "[nos tirou] os nossos mercados,as nossas fábricas, e encheu as prateleiras das nossas lojas com lixo ocidental". Ao mesmo tempo, a Rússia conseguiu "preservar suas tradições" e, ao contrário da UE ou os EUA, "não venerava dinheiro e cultura de massas". De acordo com Vona, "o papel da Rússia, hoje, é o de compensar a americanização da Europa".

O líder do Jobbik chegou mesmo a declarar que seria melhor para a Hungria juntar-se à União da Eurásia, dominada pela Rússia, se necessário fosse. Dadas as atuais tendências do Jobbik para encarar a Rússia como um potencial centro de poder na Europa, pode muito bem ser o caso de que a discussão entre o Jobbik e o Svoboda tenha sido tanto sobre as declarações anti-Hungria dos ultra-nacionalistas ucranianos quanto sobre os seus pronunciados sentimentos anti-Rússia.

Para o Svoboda, as ligações com a Europa têm sido uma questão importante desde o final da década de 1990, quando ainda era chamado de Partido Social-Nacional da Ucrânia. Em seguida, foi membro do Euronat, uma organização de extrema-direita, fundada pela Frente Nacional francesa. O SNPU, mais tarde Svoboda, parecia manter boas relações com Le Pen e a Frente Nacional francesa em geral, e, presumivelmente, foramos ultranacionalistas franceses que defenderam a concessão do estatuto de observador ao Svoboda no seio da AENM.
 
No entanto, uma vez que a Aliança foi em grande parte criação do Jobbik (foi fundada em Budapeste durante o 6 º Congresso do Partido do Jobbik, em 2009), os ultranacionalistas franceses tinham poucas possibilidades de anular a decisão de Kovács.

No seu país de origem, Svoboda usou suas ligações na Europa para fins de relações públicas, imagem e propaganda. Foi a Frente Nacional francesa quem consultou os líderes do Svoboda sobre como tornar o partido "mais respeitável" no início da década de 2000, e, naturalmente, relações com os principais ultranacionalistas europeus também impulsionaram a posição do partido entre outras organizações de extrema-direita na Ucrânia. Deste modo, depois de ter sido privado de estatuto de observador na AENM, Svoboda começou a procurar novas ligações na Europa. Seus novos "amigos" acabaram por se revelar ainda mais extremos do que a AENM.

Em 23-24 de Março de 2013, Taras Osaulenko, diretor de relações internacionais do Svoboda, participou na conferência "Visão Europa", organizada pelo Partido dos Suecos em Estocolmo. O Partido dos Suecos é amplamente conhecido como um grupo neo-nazi; foi criado em 2008 por membros da agora dissolvida Frente Nacional Socialista e é liderado por Stefan Jacobsson. O principal orador na conferência parecia ser Udo Pastörs, vice-líder do mais importante partido neo-nazi e mais significativo a surgir desde 1945, o Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD), do qual dois membros estão sendo julgados na Alemanha por seu apoio do grupo terrorista Underground Nacional-Socialista.

Outro orador na conferência foi Roberto Fiore, líder do partido fascista italiano Nova Força. Entre os convidados europeus presentes contavam-se também: Jonathan Le Clercq da Associação da Terra e do Povo (França); Daniel Carlsen, líder do Partido Dinamarquês (Dinamarca) e Gonzalo Martín Garcia, diretor de relações internacionais do Partido da Democracia Nacional (Espanha).

As ligações entre Svoboda e Fiore foram estabelecidas a partir de 2009, quando Tyahnybok visitou Estrasburgo para conhecer eurodeputados de partidos de extrema-direita como o Partido da Liberdade da Áustria, "Attack" União Nacional da Bulgária, Interesse Flamengo, entre outros. Essas ligações continuaram a ser cimentadas em maio e junho deste ano. Em 23 e 24 de maio, Osaulenko e Andriy Illenko visitaram Roma a convite de Fiore. Aí a liderança da Nova Força e representantes do Svoboda discutiram a colaboração entre os dois partidos.
 
Representantes do Svoboda também visitaram o acampamento de jovens da Nova Força, e Illenko deu uma palestra sobre a história e a ideologia do Svoboda, partilhou os seus pensamentos sobre a forma como ambos os partidos poderiam unir forças na sua "luta contra as forças liberais do multiculturalismo e da destruição das tradições nacionais da civilização europeia ".

De 19 a 21 de junho, representantes da Nova Força, incluindo Fiore, retribuiram a visita. Na Ucrânia, os ultranacionalistas italianos e ucranianos discutiram a criação de um novo grupo de movimentos nacionalistas europeus, a fim de "desenvolver uma nova cooperação dinâmica e estratégica destinada a criar uma nova classe política europeia". Supostamente, o novo grupo poderá vir a ser formado a partir das organizações que participaram da conferência Visão Europa, em Estocolmo.

Entre as duas visitas ucraniano-italianas, a 29 de Maio de 2013, Mykhaylo Holovko, membro do Parlamento ucraniano e do Svoboda, visitou o Parlamento Regional da Saxónia para falar com o NPD. Em particular, Holovko transmitiu os cumprimentos de Tyahnybok e Serhiy Nadal, presidente da câmara da cidade ucraniana de Ternopil do Svoboda. De uma maneira ritual, Svoboda e NPD concordaram em fortalecer as relações bilaterais entre os partidos e os grupos parlamentares.

Está ainda para se ver se as visitas do Svoboda aos seus homólogos europeus fazem parte do processo de criação de um novo movimento ultranacionalista paneuropeu. Nenhum dos partidos representados na conferência Visão Europa é um membro da AENM, enquanto que é improvável que a Nova Força de Fiore é venha a cooperar com o membro da Aliança Chama Tricolor, do qual se separou em 1997. O último projeto fascista "ecumênico" de Fiore, a Frente Nacional Europeia, que reunia representantes da Nova Força, do NPD, do romeno Nova Direita, do grego Aurora Dourada e da Falange espanhola, parece ter falhado.
 
Assim, os novos amigos europeus do Svoboda podem, de fato, precisar de uma nova organização que uniria os partidos políticos e movimentos que são - dado os perfis de Fiore, Pastörs, Jacobsson e outros - realmente mais extremos do que a AENM.


(*) Artigo publicado em Search Light.


(**) Tradução de Adriana Rosa Delgado para Esquerda.net
 



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