Pelo Mundo

Prefeito de Marinaleda integra partido anticapitalista

28/09/2012 00:00

Naira Hofmeister

Créditos da foto: Naira Hofmeister
Marinaleda - A Espanha tem dois partidos hegemônicos, que se alternam no poder desde a redemocratização: o Partido Socialista dos Trabalhadores (PSOE) e o conservador Partido Popular (PP), sigla do atual presidente do governo, Mariano Rajoy.

Com o objetivo de somar votos suficientes para também ter cadeiras nos parlamentos de províncias e no Congresso Nacional, as siglas de esquerda formaram um bloco nos anos 80. Assim, mantém sua identidade própria e conseguem eleger deputados que compõem os legislativos. É a chamada Esquerda Unida, ainda minoritária entre as forças políticas do país ibérico.

Mais de uma dezena de legendas integram a IU (iniciais de Izquierda Unida), entre elas o Partido Comunista. No seu estatuto, o bloco declara seu projeto para a nação: “gradualmente transformar o sistema capitalista em socialista democrático” e em um “Estado federal republicano”.

Algumas das siglas que compõem a IU são revolucionárias, caso do Coletivo de Unidade dos Trabalhadores (CUT), partido cujo porta-voz nacional é Juan Manuel Sánchez Gordillo. O CUT integra o Bloco Andaluz de Esquerdas e é declaradamente anticapitalista. Além de lutar pela soberania da comunidade da Andaluzia (que reúne as províncias sulistas), prega a emancipação dos trabalhadores, em uma sociedade sem classes. “Somos a esquerda da esquerda”, costuma dizer Sánchez Gordillo.

A administração de Marinaleda - cujo lema é “Uma utopia para a paz” - é o emblema do coletivo e uma mostra de que a tese pode ser posta em prática. O partido se organiza em assembleias locais com autonomia para definir sua linha política e eleger um representante que participa da assembleia nacional do partido.

À frente do órgão máximo do CUT, Gordillo dedica grande atenção à questão da terra, cuja solução, para ele, passa pela reforma agrária e pela regulação dos preços, hoje estabelecidos pelas multinacionais do setor de alimentação.

“É necessário mudar a política de preços, que chega a subir 1.200% entre o produtor e o consumidor. Na Espanha, a média dessa diferença é de 704%”, exemplifica o prefeito de Marinaleda, observando que o agricultor ganha pouco e as multinacionais lucram muito.

Gordillo defende uma aliança entre o agricultor familiar, os consumidores e o pequeno comércio de alimentação, com a criação de um canal público de comercialização dos produtos agrícolas. “Seria uma rede solidária de comércio, não lucrativa, com o auxílio do Estado. Falam contra a intervenção na economia, mas essa crise revelou que quando eles (bancos, multinacionais) têm prejuízos, querem o Estado para socializar as perdas. Só privatizam os lucros”, compara.

Outro tema que chama a atenção da Esquerda Unida são os subsídios à agricultura pagos pela União Europeia, que representam cerca de 20% da receita dos produtores (os outros 80% são pela venda das mercadorias).

O problema é que a ajuda toma por base a extensão da terra e não a produção. Assim, um latifundiário improdutivo pode receber mais do que um agricultor com uma plena atividade na terra. “O correto seria estimular com subsídios o produtor rural em função do número de empregos gerados e dos cuidados com o meio ambiente. E também para a produção familiar, aos que menos terra têm.”

Gordillo sustenta que ao direcionar o subsídio para o grande proprietário, que visa a exportação, a UE está na prática fazendo dumping contra os países em desenvolvimento. “Beneficia os latifundiários e quatro empresas multinacionais que controlam os preços, prejudicando a produção familiar.
Temos que romper com esse modelo, que provoca o aquecimento global, incentiva os transgênicos e ainda privatiza a natureza. Enquanto isso, desaparece um camponês por minuto no mundo”, conclui.

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