Pelo Mundo

Sanções expõem oportunismo ocidental na crise da Ucrânia

Como se não tivesse nenhuma responsabilidade na crise da Ucrânia, o bloco ocidental decidiu pela punição a Moscou mediante um triplo componente.

30/07/2014 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

 

Paris - A famosa foto do aperto de mãos entre o então presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, e o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, pertence daqui em diante ao album das boas lembranças de família. A imagem, registrada no dia 8 de dezembro de 1987, na Casa Branca, mostra ambos os líderes celebrando a assinatura de um tratado para eliminar os mísseis de médio alcance. O entendimento que perdurava desde então terminou. A guerra na Ucrânia voltou a reavivar o antagonismo entre os rivais da guerra fria. Estados Unidos e União Europeia adotaram uma nova onda de sanções contra Moscou para pressionar o presidente russo, Vladimir Putin, e obrigá-lo a interromper seu apoio aos separatistas pró-russos no leste da Ucrânia.

Como se não tivesse nenhuma responsabilidade direta nesta foco de tensão de consequências imprevisíveis, o bloco ocidental decidiu pela punição a Moscou mediante um triplo componente: a União Europeia adotou um pacote de sanções muito fortes que envolvem os setores financeiro, energético e militar. A Casa Branca, por suia vez, ampliou o leque de medidas punitivas e decidiu suspender os créditos para a exportação assim como todos os fundos ligados ao financiamento do desenvolvimento econômico.

Os europeus, cuja implicação e responsabilidade na crise da Ucrânia são imensas, saíram do plano das ameaças para concretizar a terceira fase do processo de "represálias" desde que estourou a crise. As sanções, vigentes durante um ano, não tem precedentes e se concentram essencialmente no sistema financeiro russo, no embargo de armas e alta tecnologia. Os europeus também pactuaram sanções contra outras oito pessoas que incluem quatro próximas a Vladimir Putin. A UE decidiu bloquear o acesso aos mercados europeus de empresas e bancos russos, e proibir qualquer nova venda de armas assim como a venda de tecnologias sensíveis no campo da energia.

A Europa omite-se quanto à sua atitude provocadora na Ucrânia que foi, em parte, o fator desencadeador desta crise que entra agora em um perigoso ciclo geopolítico. É de se lamentar que os euromoralistas não tenham agido com a mesma energia frente à espantosa repressão desencadeada pelo regime egípcio quando derrubou governantes eleitos depois da revolução da Praça Tahrir. "A decisão de hoje era inevitável", disse a chanceler alemã Angela Merkel, enquanto que o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, declarou que "se tratava de um forte sinal às autoridades" da Federação Russa.

As medidas mais fortes são as que afetam setores chave da economia russa. Neste caso, as empresas russas terão parcialmente bloqueado o acesso aos créditos dos bancos europeus e também não poderão cotizar suas ações nas bolsas do Velho Continente. Na semana passada, o Banco Europeiu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) e o Banco Mundial anunciaram que não apoiariam mais os projetos de construção de insfraestruturas na Rússia. A Europa só tratou de preservar o setor do qual depende, ou seja, o gás russo. Tudo o que diz respeito ao abastecimento de gás russo ao Velho Continente foi excluído do plano de represálias.

Além disso, não há nenhuma sílaba a propósito dos contratos de venda de armas já firmados com Moscou. Isso quer dizer que tudo é para o futuro e que o mais rentável contrato firmado entre Rússia e França para a venda de dois navios porta-helicópteros franceses Mistral (um bilhão de euros) não entra no pacote de sanções. Não se conhece por ora qual será a resposta de Moscou. A Rússia também tem munição para responder a seus ex-amigos e novos inimigos, sobretudo no que diz respeito ao fornecimento de gás. Vários países do leste europeu dependem 100% do gás russo. A Alemanha retira 30% do que consome das exportações russas. Várias empresas empresas ocidentais advertiram que sua atividade pode ser prejudicada por esse pacote de sanções. Entre elas, a empresa petrolífera British Petroleum, que detém 19,75% do grupo russo Rosneft. Os bancos estrangeiros também enfrentam um sério risco de "default".

A Europa operou um giro espetacular em sua política de pressão suave. Até a chanceler Angela Merkel, que era contra a subida de tom, se converteu em uma das principais promotoras das sanções. A derrubada do voo MH17 da Malasia Airlines foi determinantes nesta mudança. O Ocidente acusa Moscou de ter fornecido os mísseis que derrubaram o avião, o que foi rechaçado pela Rússia. É inegável que o golpe será duro para uma economia russa já fragilizada pela crise e a fuga de capitais (75 bilhões de euros durante o primeiro semestre de 2014). Um terço dos intercâmbios comerciais da Rússia é feito com a União Europeia. Por enquanto, o sancionado Putin está silencioso. É óbvio que essa etapa da crise está em sua fase nascente e que virão tempos ainda piores.
 
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



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