Pelo Mundo

Se a China espirra, o mundo fica resfriado

Todos estão sujeitos aos efeitos dos altos e baixos da economia chinesa, e é fundamental que ela seja menos instável.

10/09/2015 00:00

mariusz kluzniak / Flickr

Créditos da foto: mariusz kluzniak / Flickr

O colapso financeiro de 2008 confirmou a importância que a China havia alcançado no cenário econômico desde o começo deste século, graças ao seu crescimento de dois dígitos e sua plena inserção na economia global. Essa inserção mudou as tendências que pareciam irreversíveis, como a deterioração dos termos de intercâmbio entre matérias-primas e produtos manufaturados. Graças à China os preços das commodities dispararam, a América Latina teve uma década de ouro, a África cresceu como nunca e até mesmo o mundo desenvolvido acabou se tornando dependente do mercado chinês.
 
Não é uma surpresa, portanto, que as notícias sobre a economia chinesa nos últimos meses – com a queda do mercado bursátil, baixa no crescimento do PIB e desvalorização da moeda – tenham golpeado uma economia global vacilante, gerando pânico nas bolsas de valores. Um estudo publicado recentemente pelo matutino britânico “The Guardian” mostra que se o gigante asiático espirra, o mundo inteiro fica resfriado. Baseado na queda das importações chinesas nos primeiros seis meses (14,6% em comparação ao ano anterior), o “The Guardian” calculou quanto perderiam os diferentes países se esse panorama se repetir na segunda metade deste ano.
 
Ninguém ficará imune aos efeitos. A Alemanha, o motor da União Europeia, perderia mais de 14 bilhões de dólares, os Estados Unidos teria quase 12 bilhões em prejuízos e a Coreia do Sul 14 bilhões. O Brasil seria o mais afetado da América Latina, com perdas em torno de 12 bilhões. Outro estudo, publicado em agosto por analistas da filiar de Hong Kong do banco BBVA, chamado “Medindo a dependência das exportações de América Latina para a China”, enfatizou a dependência da região aos ventos de crise na China. Os países mais expostos são, nesta ordem: Costa Rica, Colômbia, Uruguai, Venezuela, Brasil, Panamá, Peru, Chile, Guiana e Argentina. “O Brasil é o principal sócio da China na região, e por isso será um dos mais afetados. Argentina e Costa Rica são os únicos países da América Latina que tentaram diminuir essa dependência da China em termos de exportações, e ainda sim serão afetados de forma importante pela crise”, indicou à Carta Maior um dos autores do informe, o economista-chefe, Xia Le.
 
Tanto países desenvolvidos como os em desenvolvimento estão sujeitos aos efeitos dos altos e baixos da economia chinesa, e é fundamental para todos que ela seja menos instável. Na recente cúpula dos ministros da Fazenda do G20, o chefe do Banco Central da China (PBOC), Zhou Xiaochuan, e o ministro da Fazenda, Lou Jiwei, tentaram tranquilizar seus colegas, afirmando que, durante o resto do ano, haverá estabilidade financeira, com um crescimento de 7%, e que o gasto estatal crescerá em 10%, ou seja, por cima do PIB. Porém, o mesmo Jiwei falou de “dores de parto” nos próximos cinco anos, enquanto a China tenta completar suas principais reformas estruturais.
 
Essas reformas, apresentadas formalmente em 2010, têm como objetivo alcançar uma transição do modelo de crescimento baseado no investimento e na exportação a um mais centrado no consumo interno. Esse novo modelo mais inclusivo foi iniciado a partir do plano quinquenal 2011-2015, com um explícito estímulo do consumo mediante um incremento anual dos salários e um maior acesso aos serviços básicos, como saúde, educação, moradia e seguridade social.
 
Em termos de salário mínimo, o plano fixou um aumento em torno dos 13% anual, que, combinado com uma inflação de 2,5%, representa um importante incremento do poder aquisitivo. Com relação à saúde e à seguridade social, o projeto apresentou uma cobertura universal que deveria estar completamente vigente entre 2015 e 2020. O plano foi elaborado pelo governo de Hu Jintao (2003-2013), e continuou sua implementação durante o atual mandato de Xi Jinping, que assumiu a presidência do país em março de 2013, com a promessa de tirar 80 milhões de pessoas da pobreza, graças a um aprofundamento dessas políticas públicas.
 
Segundo o ministro da Fazenda chinês, Lou Jinwei, a mudança no modelo já está encaminhada. O ministro citou como provas a criação de sete milhões de empregos durante o primeiro semestre deste ano e o fato de que o consumo está superando os investimentos como componente do PIB. Em diálogo com Carta Maior, Xiaolan Fu, especialista chinesa em economia de desenvolvimento e acadêmica da Universidade de Oxford, pôs as cifras em contexto. “Considerando a inserção anual de pessoas no mercado de trabalho, os números deste ano ainda não são suficientes. O mesmo acontece com as reformas da saúde e da seguridade social. As pessoas economizam mais do que gastam, porque têm medo de não conseguir enfrentar uma doença grave. É necessário aprofundar essas reformas”, analisou Xiaolan Fu, em entrevista para Carta Maior.
 
As dificuldades de uma mudança de modelo em um país de quase 1,4 bilhões de pessoas, com 33 governos provinciais e cinco zonas autônomas são muito grandes. A sofisticada Shanghai tem o salário mínimo mais alto do país (cerca de 1,9 mil yuanes, equivalente a uns 300 dólares) enquanto a atrasada província de Guizhou, no sudoeste do país, tem o mais baixo (aproximadamente 1,1 mil yuanes, ou 170 dólares). A reforma do sistema de saúde, que começou a ser planejada no começo deste século, foi lançada primeiramente em 2009, e continua passando por reformulações.
 
Nos últimos cinco anos, o governo investiu mais de 500 bilhões de dólares, para estender o serviço de atenção em saúde a toda a população. Não foi suficiente. Em agosto deste ano, o presidente Xi Jinping prometeu que aumentaria a cobertura para casos de doenças mais graves até o fim do ano. “A China deixou de ter um sistema que assegurava o prato de arroz diário, a atenção de saúde e a educação grátis, passando por uma reforma de mercado onde se perderam todas essas garantias sociais. Agora, está buscando recuperar alguns desses direitos sociais, o que é fundamental para o novo modelo. Essa mudança está em marcha, mas por enquanto é limitada”, relatou Xiaolan Fu a Carta Maior.
 
Ninguém duvida da necessidade de mudar o modelo. Os investimentos representavam 35% do PIB em 2000, 44% em 2009, e dispararam por cima dos 50% com a recessão mundial posterior à quebra do Lehman Brothers. Em comparação com o consumo doméstico, como motor de crescimento, apenas superou os 30% durante este período.
 
O fato de que, segundo o governo, essa inércia tenha sido superada, e que o consumo esteja sendo finalmente maior que os investimentos é um sinal de que as mudanças estão surtindo efeito, mas, devido às dificuldades dos últimos meses, deve-se esperar que esse avanço tenha alguns ziguezagues. Hongyi Lai, diretor de estudos chineses da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, disse em entrevista a Carta Maior que o mundo terá que se acostumar a essas turbulências. “A mudança de modelo pode durar uma década inteira, e inclusive mais, porque há muitos obstáculos estruturais e culturais que precisam ser enfrentados. O mundo terá que se adaptar a esses altos e baixos, porque é um processo que levará tempo”, indicou.
 
América Latina
 
Isso não quer dizer que não haja oportunidades. O “Novo Plano de Urbanização Nacional 2014-2020”, anunciado pela China em março do ano passado, é um estímulo para a demanda de matérias-primas latino-americanas. O plano contempla um aumento da população urbana entre 70 e 100 milhões de pessoas até o fim desta década, e um investimento massivo de 7 bilhões de dólares em moradias, linhas ferroviárias, e autopistas e melhoramento dos serviços básicos.
 
Nesse sentido, e por se tratar de um país tão complexo como China as opiniões sobre o impacto que isso pode ter na América Latina variam. O comércio bilateral cresceu 23% entre 2008 e 2014, mas é uma relação desequilibrada, não só pelo deficit em favor da China, equivalente a um 1% do PIB regional, mas também porque as exportações regionais se concentram em quatro produtos, enquanto a China exporta produtos manufaturados. “Esse deficit será difícil de reverter a curto prazo, devido à natureza do intercâmbio – commodities versus produtos manufaturados. A soja, o petróleo, o cobre e o minério de ferro constituem 80% das exportações regionais. Contudo, a mudança de modelo da China é fundamental considerando objetivos a longo prazo. O deficit existe porque os chineses economizam muito e consomem menos”, indicou à Carta Maior o economista Xia Le, do BBVA de Hong Kong.
 
Contudo, no artigo publicado recentemente pela revista da CEPAL (Comissão Econômica para a Amélica Latina e o Caribe), o economista Daniel Perrotti afirma que mesmo a curto prazo se podem encontrar perspectivas positivas. “As exportações da América Latina para a República Popular da China poderiam aumentar em média 10% ao ano, no caso se confirmem os prognósticos do FMI, que indicam que a segunda economia mundial crescerá num ritmo de 6,8% por ano durante os próximos quatro anos”, afirmou Perrotti. Outra economista, Margaret Meuers, diretora do programa para China e América Latina do Inter American Dialogue, de Washington, também estima que o comércio bilateral da China com a región seguirá crescendo, ainda que num ritmo mais lento que antes, e que a demanda de commodities seguirá sendo alta, especialmente a de produtos agrícolas.
 
Com relação à naturaleza do intercâmbio comercial com a China, o desafio para a região não mudou. Em diálogo com a Carta Maior, em novembro de 2013, o professor Wu Guoping, do Instituto Latino-americano da Academia de Ciências Sociais de Pequim, disse que a América Latina já está moldeando o perfil do consumidor urbano chinês por meio do setor agroindustrial, e que tinha que aproveitar as zonas de livre comércio, como Shanghai, para avançar na exportação de produtos de maior valor agregado. “Hoje, a vida cotidiana de um chinês tem a ver com a América Latina. Pela manhã, ele toma um suco de soja ou de frutas importadas do Brasil, Chile e Argentina. Ao meio-dia, consome carne e vinho, também importados desses países. À noite, a festa é regada a tequila mexicana. Todos esses produtos agroindustriais de consumo doméstico terão cada vez mais importância. Mas a China está mudando o seu modelo. Creio que a América Latina tem que levar isso em conta, porque a China vai buscar outros produtos para esse novo modelo baseado no crescimento do consumo interno. O Brasil sempre pensa na soja e nos produtos primários, mas creio que teria que perguntar o que mais poderia exportar para a China em meio a esta mudança radical da estrutura econômica chinesa”, afirmou.
 
A dinâmica avança em dois ritmos diferentes. A capacidade do Brasil e da América Latina de reagir com flexibilidade a uma economia em transição como a da China, mas também, ao menos a curto prazo, a resposta que a China terá aos próprios desafios que enfrenta. “Calculo que essa desaceleração chinesa será mantida no próximo ano, enquanto se busca um novo equilíbrio. Dependerá muito da reação do governo. Se aceita a dor dessa transição até conseguir o que a própria China chama de `nova normalidade´ ou se volta ao modelo de investimentos, uma alternativa sempre possível. Dependerá do custo político dessa transição, vinculado ao impacto que terá sobre os empregos e sobre as lutas internas do Partido Comunista, entre a `direita´ e a `esquerda´, os que favorecem a transição e os que apoiam mais o anterior modelo de investimentos”, concluiu Xiaolan Fu, em entrevista para Carta Maior.
 
Tradução: Victor Farinelli





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