Pelo Mundo

Ucrânia consegue o perdão de um quinto da sua dívida

No caso da Ucrânia, cujo governo teve origem num golpe de Estado, houve acordos, já no da Grécia, onde um governo de esquerda foi eleito democraticamente..

30/08/2015 00:00

Sasha Maksymenko / FLickr

Créditos da foto: Sasha Maksymenko / FLickr

Há meses lutando para melhorar sua problemática situação financeira, a Ucrânia conseguiu, nesta quinta-feira (27/8), uma vitória muito importante: nada mais nada menos que o perdão de parte da dívida. Após cinco meses de negociações, um significativo grupo de credores – entre os quais não se encontra a Rússia – chegaram a um acordo para a reestruturação de 17 bilhões de euros dos passivos adquiridos no exterior, aproximadamente 20% do total. O governo ucraniano celebrou a conquista, que oxigenará bastante a economia do país, fortemente golpeada pelos enfrentamentos que não cessam, contra os rebeldes pró-russos.
 
Com isso, a Ucrânia deu um passo importante em seus esforços por estabilizar sua economia, com uma reestruturação de 19,3 bilhões de dólares da sua dívida com alguns dos seus credores mais importantes. Esse acordo, do qual a Rússia não participou, implica numa redução de quase um quinto dos seus compromissos. O primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, assegurou que Moscou não poderá obter condições melhores que a do resto dos credores.
 
O acordo acontece depois de mais de cinco meses de difíceis negociações entre Kiev e os credores. Após a conclusão dessas árduas conversações, a ministra da Fazenda da Ucrânia, Natalie Yaresko, não escondeu sua satisfação com o perdão concedido. “Todos ganhamos com esse acordo. Agora podemos avançar sem colocar em risco o valor dos títulos”, declarou a responsável pela economia do país. As finanças ucranianas atravessam uma profunda crise, agravada pela situação que se vive no leste do país, onde as forças de Kiev se enfrentam há mais de um ano com os rebeldes pró-russos.
 
A redução de quase 20% da sua dívida se produz depois que o Comitê de Credores a reduziu em 3,8 bilhões de dólares, com um período de quatro anos nos que deverá pagar somente os juros. Em um princípio, Kiev havia pedido que lhe perdoassem 40% do valor total da dívida, mas Yaresko reconheceu que seu objetivo não era chegar a essa cifra particular, e sim cumprir com o objetivo que o Fundo Monetário Internacional havia planteado.
 
Ficaram de fora do acordo os 3 bilhões de dólares que deve pagar à Rússia até o final de dezembro. A exceção se deve, segundo Anton Siluánov, ministro de Desenvolvimento Econômico russo, não só ao fato de Moscou decidir não participar das negociações, mas também porque a Rússia não recebeu nenhuma proposta oficial por parte da Ucrânia. O ministro russo afirmou também que o governo do seu país de viu obrigado a tomar essa decisão devido às dificuldades que sua economia experimenta, por causa da queda nos preços do petróleo – que caiu cerca de 50% em menos de um ano – e as sanções ocidentais. “Limitaram os nossos créditos nos mercados financeiros, e agora nós mesmos precisamos de divisas”, comentou Siluánov.
 
Pouco depois do perdão se tornar público, Yatseniuk negou que a Rússia vá receber “melhores condições” que as dos demais credores. “Sob nenhuma circunstância, a suspensão dos pagamentos que os nossos inimigos esperam já não sucederá”, assegurou o chefe de governo ucraniano, após reunião do conselho de ministros, na qual Yaresko deu a boa notícia da desaparição de parte da dívida. Naturalmente, Yatseniuk se referia à Rússia, país que classifica como agressor.
 
Por sua parte, a ministra da Fazenda afirmou que é “altamente improvável” que outros credores rechaçassem o acordo, e previu que o processo será encerrado por volta de outubro.
 
O pagamento do montante principal da dívida deverá ser feito entre 2019 e 2027, e não nos prazos estabelecidos inicialmente, entre 2015 e 2023. Yatseniuk detalhou que o adiamento de quatro anos na devolução do crédito principal representa um grande triunfo, pois são as melhores condições de refinanciamento outorgados a um país do FMI desde o ano 2000, e permitiu à Ucrânia evitasse declarar a suspensão dos pagamentos.
 
Apesar do acordo, a situação econômica da Ucrânia continua sendo bastante difícil. Além de uma inflação galopante – de mais de 55% neste ano, e que se espera chegue a 40% em 2016 –, o país enfrenta também o retrocesso do Produto Interior Bruto: o FMI prevê retração de 9% para o ano em curso.
 
Comentário do Other News: É curioso observar que, no caso da Grécia, desde que o governo de esquerda de Alexis Tsipras assumiu, os credores insistiram numa postura extremamente dura, enquanto, no caso da Ucrânia, cujo governo teve sua gênese num golpe de Estado e o deficit é filho do roubo, os acordos são feitos com uma rapidez surpreendente, e sem tantas exigências.
 
Tradução: Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado