Pelo Mundo

Uma guerra atrás da esquina

18/02/2008 00:00

Num movimento que o comentarista Simon Tisdall, do The Guardian, chamou de “Um grande salto no escuro”, a província (ou república federada) sérvia do Kosovo (diz-se Kôssovo) declarou unilateralmente no domingo passado a sua independência. Unilateralmente? Nem tanto. A declaração conta com o apoio já garantido da maior parte dos países da União Européia, com a França, a Alemanha e os Países-Baixos (Holanda) à frente, da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e das forças da OTAN, que desde o fim da chamada “Guerra do Kosovo” (1999) mantém uma força de 16 mil soldados na região.

Devem se opor à independência pelo menos o Chipre e a Espanha, esta comprimida por movimentos separatistas internos, que certamente serão incentivados pelo novo gesto europeu.

Esse apoio já prolongado motivou o título do artigo de Tisdall, um renomado comentarista de política internacional. Segundo ele, a União Européia está rasgando um importante princípio de sua política (inclusive a interna) ao apoiar implícita ou explicitamente essa independência do Kosovo, aproximando-se da política “pragmática” reforçada por Tony Blair enquanto foi primeiro-ministro britânico e da política de gestos unilaterais da administração de George Bush nos Estados Unidos.
Lembrou Tisdall em seu artigo
que quando Saddam Hussein anexou “a antiga província otomana de Basra, que sob a tutela britânica tornou-se o Kuwait” houve uma grita internacional. As potências do Ocidente invocaram de modo agressivo a carta das Nações Unidas que reconhecia a integridade das fronteiras na região. O incidente foi o estopim que levou à Guerra do Golfo de 1991, cujas conseqüências aí estão à vista de todos nós.

Dessa vez a União Européia está dando as costas para a mesma carta da ONU, que reconhece a integridade da Sérvia incluindo a província rebelde, já que o Kosovo independente é visto como um enclave seu numa região pulverizada depois da falência dos regimes comunistas. A ONU não reconhecerá oficialmente o novo país, pois fatalmente a Rússia, aliada da Sérvia, impedirá esse movimento através de um veto no Conselho de Segurança. Entretanto o Kosovo mais cedo ou mais tarde será admitido na União Européia – coisa que a maioria dos sérvios também parece querer no momento – criando uma assimetria internacional e uma nova instabilidade regional, e numa região marcada pelas instabilidades desde séculos.

A região conta hoje com uma miríade de pequenos países, oriundos a maioria dos escombros da antiga Iugoslávia. Por ali se acotovelam a Croácia, a Sérvia, a Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Macedônia e agora o Kosovo, ladeados pela Romênia, a Hungria, a Bulgária, a Albânia, a Grécia e um pouco adiante a Turquia.

Olhando-se o mapa vê-se logo a importância estratégica, inclusive do ponto de vista militar, dessa província ou república federada que agora dá o salto de declarar-se país independente. O Kosovo está encravado no meio daquele mosaico, e se incluirmos a própria Sérvia, ele fará fronteira com cinco daqueles 11 países.

Não existe uma “povo kossovar” (este é o patronímico adotado na Europa e por eles mesmos), no mesmo sentido em que existe um “povo curdo”, por exemplo, dividido entre a Turquia e o Iraque. No Kosovo existe uma rivalidade secular entre albaneses e sérvios; há também romenos emigrados ou fugidos da pobreza e alguns outros oriundos de outros povos que se abrigam sob a alcunha de “albaneses” por causa da religião islâmica que praticam e que é uma religião expressiva entre estes, na ex-província agora país. Já os sérvios são, em grande parte, cristãos ortodoxos.

Há aspectos recentes a outros multisseculares nessas disputas na região. A Sérvia foi uma das primeiras “nações ou estados modernos” na região e na Europa, ainda na Idade Média. Teve poder considerável e pretensões de Império, mas perdeu-se nas constantes invasões das sucessivas potências européias e do Império Otomano, de que a Turquia hoje é o principal remanescente. Conta-se que Belgrado, a capital da Sérvia, já foi ocupada e às vezes saqueada e arrasada por mais de 30 exércitos de diferentes procedências.

A Sérvia recuperou sua independência no começo do século XIX, entre as irrupções nacionalistas e românticas e as guerras napoleônicas. Desde então a intervenção das potências ocidentais européias ou da Rússia foram constantes na região, e a daquelas teve entre seus objetivos o de impedir (por parte do antigo Império Austro-Húngaro, mas também da Grã-Bretanha, da França e da Alemanha, além da Itália durante o período fascista) o renascimento de um “Império Sérvio”. Por quê? Porque a Sérvia é vista com a desconfiança de ser um aliado potencial da Rússia, que continua sendo a grande preocupação do ocidente europeu e das forças da OTAN.

A Primeira Guerra Mundial nasceu de uma declaração de hostilidade do Império Austro-Húngaro contra a Sérvia, devido ao assassinato do arqui-duque Francisco José em Sarajevo, hoje na Bósnia-Herzegovina. A Rússia correu em defesa da Sérvia, e daí seguiram-se alianças e comprometimentos em dominó que levaram àquele primeiro conflito mundializado, com reflexos imediatos nos cinco continentes.

Depois da Segunda Guerra a maioria dos hoje pequenos países da região ficou reunida sob a liderança do Marechal Jozef Tito na Iugoslávia, que se dissolveu com o mundo comunista na década de 90 do século passado. Ao lado da Iugoslávia de Tito estavam a Albânia, país também comunista, mas independente de Moscou e que durante décadas foi enclave do comunismo chinês na Europa. Tito nunca se alinhou completamente com Moscou, ao contrário das vizinhas Romênia e Bulgária.

Depois da dissolução do comunismo e da Iugoslávia, criou-se uma situação em que a parte sul da república federada do Kosovo tinha uma maioria de origem albanesa. Houve hostilidades entre sérvios e albaneses, que levaram a uma guerra entre a Sérvia, que então ainda se apresentava como remanescente da Iugoslávia, e um “Exército de Libertação do Kosovo”, cujos militantes eram, na realidade, albaneses. Essa “Iugoslávia” remanescente tornou-se liderada por Slobodan Milosevic, um quadro político emergente do antigo Partido Comunista. Milosevic agiu no sentido de expulsar os albaneses do Kosovo, iniciando inclusive perseguições e massacres, que foram fartamente denunciados no Ocidente. Os albaneses também perpetraram perseguições e massacres de sérvios, mas em geral os governos do Ocidente fizeram uma vista grossa sobre isso. A Albânia, que com o passar do tempo tornou-se dirigida por uma coalizão de direita, era a nova aliada na região, enquanto a Sérvia permanecia uma aliada da Rússia.

Nessa época (1999) a OTAN lançou uma campanha de bombardeios aéreos massivos, definidos conceitualmente como “humanitários” (!!!), contra a Sérvia e em auxílio aos guerrilheiros albaneses/kosovares. Os bombardeios duraram 3 meses, envolvendo um milhar de aviões e mísseis disparados do ar, da terra e também do mar. Até hoje os dados sobre os mortos dessa guerra são imprecisos. Fala-se em 12 mil mortos; pelo menos 1.500 civis teriam sido mortos pelos bombardeios da OTAN.

Em conseqüência da guerra e de problemas internos (entre eles o caos econômico e a repressão de seu regime contra opositores) Milosevic caiu, foi preso e morreu alguns anos depois enquanto aguardava julgamento por crimes de guerra pelo tribunal de Haia. A Rússia, enfraquecida, pouco podia fazer pelos aliados sérvios. A OTAN conquistara um enclave importante em território antes ocupado por aliados de seu “inimigo” tradicional, além de ser um importante ponto de apoio para possíveis operações em direção à Turquia, e depois o Afeganistão e o Iraque.

Por seu lado, a União Européia começou a investir pesado nas adaptações dos antigos países comunistas ao capitalismo triunfante... e sedutor. Missões e missões de agentes da União estão instaladas nesses países para supervisionar e “transmitir know-how” para a reorganização de suas economias e de suas administrações, tanto a pública como a privada.
Os milhões de euros empregados nesse investimento estão em disputa. Como parte dessa disputa, houve a polarização recente na Sérvia nas eleições presidenciais do começo de fevereiro. Venceu o candidato Boris Tadic, visto como “pró-europeu”, embora o atual primeiro-ministro sérvio seja Vojislav Kostunica, visto como “pró-russo”. Ambos, em todo caso, declararam-se contra a independência do Kosovo.

2.200 administradores, policiais, juízes e outros especialistas em administração, vindos de países da União Européia, aguardam ordens de irem para Prístina, a capital dos kosovares. Há dezenas de reuniões em andamento em Bruxelas, sede da União Européia, e nos países do leste europeu, pois se espera que a independência do Kosovo reordene os investimentos na região.

Enquanto isso, em Prístina comemorava-se a independência. Significativamente, a CNN mostrou um cidadão Kosovar dizendo, em inglês, “obrigado União Européia, obrigado Estados Unidos, obrigado OTAN”.

Em Belgrado houve manifestações violentas contra a embaixada dos Estados Unidos e da Eslovênia, que ocupa a presidência da União Européia, com intervenção da polícia, pancadaria, feridos e prisões. O primeiro-ministro do Kosovo, Heshim Thasi, deu uma declaração pedindo que as tropas da OTAN estacionadas na região ajudem a manter a ordem e a integridade territorial do Kosovo, pois ele teme que no norte, onde há uma maioria de sérvios, agora transformados em minoria no novo país, haja um movimento de secessão, visando reintegrar a região à Sérvia.

Enquanto isso, o primeiro ministro albanês Gali Berisha, saudava a independência do Kosovo de uma maneira peculiar: “Vivemos, como albaneses, o momento solene da nação, seu verdadeiro nascimento”.

A União Européia, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, no afã de conter uma “Grande Sérvia”, potencial aliada de uma Rússia em vias de recuperação e sob a liderança com ares de neo-czarismo de Vladimir Putin, podem estar fomentando o nascimento de uma “Grande Albânia”.

Significativamente, a bandeira que este correspondente viu desfilando nas ruas de Berlim, na noite de domingo, não era kosovar, era albanesa: uma águia de duas cabeças num fundo vermelho.

Tem razão Simon Tisdall: é um salto no escuro.




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