Leituras

'Fake news' e COVID-19: Mentira e democracia

''Fake news'': a expressão é recente, mas o problema remonta ao nascimento da democracia. Sophia Rosenfeld explora as raízes da questão da verdade na política

10/06/2020 16:58

 

 
"Fake news": é dos Estados Unidos [da América] que nos vem a expressão hoje onipresente, grito de alarme popularizado na origem, cúmulo da ironia, por Donald Trump, o presidente mais mentiroso da história do país. A ascensão dos extremismos que abala o planeta - em particular o mundo ocidental - é acompanhada de uma crise dos regimes de verdade, de uma rejeição por muitos dos consensos científicos (aquecimento global) ou médicos (vacinas) ou de autoridades do jornalismo estabelecido (reportagens do New York Times). O assunto é urgente no contexto de nossa atual crise de saúde: entre os debates em torno da eficácia da hidroxicloroquina no combate ao Covid-19 e as declarações do presidente americano que defende injeções de lixívia como remédio, a questão da verdade na política democrática é hoje uma questão de vida ou morte. O colapso cada vez mais acentuado da confiança no profissionalismo e na perícia, com o aumento paralelo na esfera pública de todas as conspirações com Trump, Farage, Orbán e outras encarnações do fenômeno, é muito facilmente atribuído em exclusividade à mudança tecnológico-midiática recente, o surgimento das redes sociais na internet. O mérito do ensaio sucinto e lúcido de Sophia Rosenfeld, Democracy and Truth (Democracia e verdade), é nos ajudar a entender essa crise do século XXI no tempo mais longo da história da democracia.

Em vez de uma aberração recente, escreve Rosenfeld, o impulso de mentiras e rumores que abalam as democracias atuais, a perda de critérios de verdade amplamente compartilhados, podem ser entendidos como o resultado de tensões inscritas desde o século 18 no modelo democrático ocidental. Rosenfeld não é filósofa nem teórica da política. Historiadora das idéias, ela escreveu, entre outras coisas, uma obra notável sobre o nascimento do conceito político de "senso comum" na Europa do Iluminismo.[1] Ancorada em um profundo conhecimento da história das idéias e da vida política dos últimos dois séculos, Democracy and Truth foi projetada para explicar ao grande público de leitores, em cerca de duzentas páginas, as raízes históricas das tensões atuais em torno da verdade em política. É no nascimento da democracia moderna que Rosenfeld busca as origens da crise que nos abala. Ela acentua, tese central de seu ensaio, a contradição fundamental presente desde o nascimento das democracias ocidentais entre duas formas de "verdade", muitas vezes incompatíveis na prática. Segundo Rosenfeld, as atuais tensões políticas decorrem em parte de uma contradição histórica nascida com a democracia, entre duas tradições da verdade em democracia: a que depende do saber da elite meritocrática e dos governantes, e a que prega as virtudes do saber e do bom senso popular.

O Modelo Democrático
Somente a partir do século XVIII, explica Rosenfeld, com o advento da democracia, é que a verdade se tornou a chave fundamental e oficial da política. Os monarcas do antigo regime, embora supostamente não mentissem a seus súditos, podiam legitimamente esconder-lhes múltiplas facetas de sua atividade governamental - daí o famoso segredo do rei em política externa. As ditaduras não apresentam hoje senão simulacros da verdade, sendo esta última de fato sacrificada a algum valor transcendente - a nação, a raça, a fé ou o triunfo da classe trabalhadora. Certamente, no seu nascimento, as democracias americana e francesa também evocam critérios irrefutáveis subjacentes às verdades fundadoras: ao “consideramos essas verdades por si só evidentes”, da Declaração de Independência, faz eco à afirmação de “princípios simples e incontestáveis” da Declaração dos Direitos do Homem. Alguns anos depois, em pleno Terror, Robespierre evoca os princípios da justiça eterna "cujas leis foram gravadas, não no mármore e na pedra, mas nos corações de todos os homens."

Mas, como ressalta Rosenfeld, uma vez reconhecidos os grandes princípios, o mecanismo da democracia ocidental relega as verdades definitivas, da religião ou da moralidade, ao espaço privado. O pluralismo das democracias de hoje significa que abandonamos a idéia de impor na esfera política um consenso sobre as verdades eternas da ética ou da religião. Mesmo as chamadas verdades empíricas, como números sobre desemprego ou mortalidade, ou o relato histórico das causas de um conflito armado, submetem-se facilmente a debates. Para Rosenfeld, as questões que impulsionam a crise atual não são ontológicas ("existe um conhecimento objetivo?"), mas epistemológicas ("como podemos apreender a verdade?"). A verdade que importa no mecanismo de nossas democracias é o cotidiano da informação pública e a atividade dos governantes. Como nenhum cidadão pode entender de tudo, a teoria implícita do conhecimento em democracia é a de um ciclo de informações entre especialistas, cidadãos e governantes. Especialistas - cientistas, funcionários públicos e outros - compartilham com os cidadãos o conhecimento necessário para votar e, estes por sua vez, depositam sua confiança nos eleitos, escolhidos para implementar a vontade da maioria. Para funcionar da melhor maneira possível, esse sistema envolve condições prévias, que são educação generalizada, liberdade de pensamento e expressão e independência dos especialistas e da mídia. É desnecessário precisar que esse ideal raramente corresponde aos fatos, pois os cidadãos dependem da integridade dos especialistas e dos governantes. Na maioria das democracias, o mecanismo se rompe regularmente, como é hoje o caso nos Estados Unidos [da América] e em outros lugares.

A história de uma contradição

O próprio princípio da democracia é que todo cidadão seja capaz de compreender e pensar bem e, portanto, expressar- se e agir na política. "Nada leva a crer, escreve no século XVIII o radical inglês James Burgh, que o cérebro de um político seja formado de maneira diferente do de um cidadão". Para os fundadores da democracia na Era do Iluminismo, a verdade na política não é dada, é o trabalho coletivo de dois grupos. Por um lado, emanará da inteligência coletiva dos cidadãos comuns, se pelo menos forem independentes e do sexo masculino. Por outro lado, porém, a prática democrática em um Estado, por menor que seja, depende da atividade de um grande número de especialistas em ciência e política, qualificados a processar uma massa de informações especializadas. Daí a constante ameaça de contradição entre o princípio do saber popular e a necessidade percebida de um conhecimento da elite.

O fosso entre a "verdade" dos governantes e a dos governados, presente nas origens das democracias ocidentais, não parou de aumentar em mais de dois séculos. O acesso ao mundo público baseia-se desde o início em condições de independência e conhecimento inacessíveis para quem não tem nada, daí os "cidadãos ativos", o "país legal", critério inicial em todos os países de um certo nível de patrimônio para votar e ainda mais para ser elegível. A contradição social original do Iluminismo talvez seja melhor encarnada na Enciclopédia de Diderot e d'Alembert, um compêndio heróico de conhecimento do século colocado ao alcance de todos em ordem alfabética, mas que custava, em primeira edição, o equivalente atual de um Lamborghini novo.

Ao elitismo da riqueza em breve se adicionará, ou se substiturá, o da perícia. No século XIX, as burocracias estaduais e outras crescem acentuadamente, tornando-se repositórios de dados cada vez mais massivos. Ao mesmo tempo, profissões como medicina, direito e engenharia desenvolvem saberes cada vez mais sofisticados e organizações herméticas. Como nota Rosenfeld, com propriedade, a ascensão do capitalismo torna necessários não apenas exércitos de burocratas para gerenciar as economias, mas também outros especialistas para tentar resolver os problemas - miséria, crime, anomia - que ele gera. Um paradoxo central do desenvolvimento da modernidade é que, embora as sociedades tenham se tornado mais igualitárias no nível político com o triunfo do sufrágio universal, sua complexificação colocou o conhecimento necessário para participar plenamente da política fora do alcance de eleitor médio.

Especialmente desde meados do século XX, segundo Rosenfeld, o abismo entre as elites governamentais e o cidadão comum não parou de crescer. Por um lado, como previu Max Weber na década de 1920, especialistas em governança, tecnocratas e outros, tendem a formar esses corpos cada vez mais fechados em si mesmos que alguns chamam de "especialistacracias". Não ouvindo em geral os afetados por suas decisões, eles freqüentemente os alienam. Pensamos, como exemplo extremo, mas não atípico, nos burocratas da União Europeia que de Bruxelas tomam decisões contra os interesses locais, denunciados tanto pela esquerda em nome da justiça social quanto pela direita em nome da autonomia nacional. Por outro lado, assistimos recentemente o aumento, mais evidente nos Estados Unidos [da América], da injeção maciça de fundos privados na vida política, seja de instituições de pesquisas com vocação ideológica como o Instituto Hoover, grandes indústrias como empresas farmacêuticas ou o apoio financeiro de bilionários a determinado candidato político. A arrogância tecnocrática da classe política, por um lado, e o investimento do grande capital na vida pública têm muito a ver com o cinismo que hoje acompanha muitas vezes as declarações dos governantes.

A verdade do "senso comum"

As críticas atuais, muitas vezes violentas, à arrogância e venalidade dos especialistas alimentam, segundo Rosenfeld, a outra tradição da verdade na democracia, aquela que coloca o bom senso e a experiência prática do homem comum como pedra de toque, outra herança da Era do Iluminismo. A "verdade do povo" é confirmada nas próprias práticas da democracia ocidental, seja pelo recurso ao júri formado por cidadãos comuns para avaliar a responsabilidade criminal ou pelo próprio princípio do sufrágio universal. As reivindicações em nome do "senso comum" emanaram, desde o início, tanto dos porta-vozes da esquerda quanto da direita, seja Thomas Paine cujo panfleto Common Sense acelerou a independência americana ou Edmund Burke lutando contra os "teóricos" e "sofistas" da Revolução Francesa.

Rosenfeld está longe de negar os méritos do julgamento popular. Muitas vezes, a experiência concreta está certa, observa ela, por exemplo a propósito das teorias de especialistas enviados aos países pobres para promover o desenvolvimento econômico, e diferentes formas de plebiscito e “crowdsourcing” que têm o mérito de reunir as perspectivas mais diversas e incluir grande número [de participantes]. O fato é que no momento, lembra Rosenfeld, o bom senso político do homem comum é cada vez mais invocado, perigosamente, pela direita populista, onde uma figura como Donald Trump funciona como alegre porta voz, quando dá respostas simples para as perguntas mais complicadas: o aquecimento global não existe, pois ainda faz frio no inverno; a construção de um muro gigante servirá para coibir a imigração; contribuições para organizações internacionais nos empobrecem; taxas sobre importações serão suficientes para criar empregos em nosso país, etc. E se essa linguagem pretende ser inclusiva em princípio, o apelo ao senso comum de "pessoas boas" (good people) geralmente se baseia em exclusões implícitas, entre "aqueles que trabalham duro", por exemplo, e minorias que recebem assistência social.

Se elas certamente não criaram o problema, as redes sociais e, nos Estados Unidos [da América] especialmente a mídia de tendência abertamente ideológica, como Fox News à direita e MSNBC à esquerda, ampliam ao máximo esse paradoxo original, a tal ponto que a verdade na política corre o risco de em breve não mais ser avaliada por padrões comuns. Sob as atuais condições tecnológicas e econômicas, a liberdade de expressão pode se tornar Saturno devorando seus filhos: hoje os ditadores não precisam mais censurar a imprensa, basta apenas inundar as redes sociais para intimidar seus oponentes. Se o problema, da perda de referências sobre a verdade em política, afeta todos os países, ele é mais claramente visto nos Estados Unidos [da América] com a conjunção de uma economia de mercado sem freios com a tradição da "liberdade de expressão" (free speech) absoluta. Para evitar derrapagens, defende Rosenfeld, devemos começar por reconhecer que a liberdade de expressão absoluta pode apresentar nas condições atuais perigos sem precedentes e tomar medidas pragmáticas, por exemplo, encorajando jornalistas a denunciar sistematicamente por meio de padrões as mentiras na esfera pública ou pressionar organizações como Facebook, WhatsApp e Twitter com vistas à regulação de conteúdos. Mas o valor desse ensaio luminoso reside menos nas soluções que ele oferece do que em seu esboço magistral dos caminhos históricos que nos levaram ao atual impasse. Se não sabemos mais em quem confiar na política, não é culpa das redes sociais que produzem seu fluxo diário de fake news; elas apenas amplificaram, frequentemente de maneira monstruosa, a contradição entre a verdade dos especialistas e a do cidadão comum, que está no cerne da democracia ocidental.

*Publicado em laviedesidees.fr, maio de 2020.

**Sophia Rosenfeld, Democracy and Truth : A Short History, University of Pennsylvania Press, 2018, 224 p., £16,99.



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