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'Minha carne' é um grito de liberdade, diz Preta Ferreira sobre lançamento de livro

Obra reúne memórias dos 108 dias em que a artista passou presa sem provas na Penitenciária Feminina de Santana

25/01/2021 11:07

(Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: (Reprodução/Facebook)

 
A arte e a escrita possibilitaram a artista e publicitária Preta Ferreira a sobreviver aos 108 dias em que permaneceu presa sem provas na Penitenciária Feminina de Santana, em São Paulo.

Liderança do movimento de moradia, Preta e outros integrantes do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) foram acusados de extorsão e associação criminosa por supostamente coagir moradores a pagarem taxas nas ocupações na cidade de São Paulo.

Entretanto, nenhuma prova foi apresentada ao longo de todo o processo, ao qual a ativista ainda responde em liberdade.

As reflexões sobre as injustiças do sistema prisional e as vivências com outras mulheres privadas de liberdade estão publicadas no livro Minha carne: diário de uma prisão, lançado pela Editora Boitempo. A obra está em pré-venda.

“Escrevi esse livro para que as pessoas sentissem como é a dor de ser presa injustamente. Não é um livro que escrevi enquanto estive em liberdade, mas sim narrando todos os dias como é ser preso injustamente e o peso que essa injustiça traz no contexto social e na cor da nossa pele”, afirma Preta Ferreira em entrevista ao Brasil de Fato.

Além dos manuscritos da produtora cultural, a obra conta também com letras de música, poesias e participações especiais de nomes como Angela Davis, Conceição Evaristo e Carmem Ferreira.

As condições precárias e estruturais do cárcere também são denunciadas pela ativista.

“As pessoas estão sendo presas não para cumprir pena, mas para serem torturadas. Tem presídio em que não há condição de vida, com comida que chega com rato. Quem consegue comer isso? Passei três noites e três dias dormindo no relento, sem tomar um gole de água, sem comer nada. Isso é uma prisão ou é uma tortura?”, questiona Preta.

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato - De onde surgiu a ideia de escrever o livro e como foi sua passagem pela Penitenciária Feminina de Santana?

Preta Ferreira - Eu sempre tive uma relação muito boa com a escrita, mas o que me motivou a escrever esse livro foi o desejo de não me silenciar. Era uma forma de poder gritar, de poder gritar junto com vocês que gritaram aqui fora pelas liberdades pretas.

Escrevi esse livro para que as pessoas sentissem como é a dor de ser presa injustamente. Não é um livro que escrevi enquanto estive em liberdade, mas sim narrando todos os dias como é ser preso injustamente e o peso que essa injustiça traz no contexto social e na cor da nossa pele.

Sabemos que o que está prendendo pessoas pretas no Brasil é o racismo. Escrevi esse livro porque não queria perder nada do que vivi naqueles dias. E eu sabia que muitas pessoas iam me fazer essa pergunta de como é viver na prisão e quis escrever para que eu não perdesse nenhum daqueles dias, para que nenhum pensamento se esvaísse, porque as pessoas precisam saber como é ser presa injustamente e conhecer as falhas do sistema prisional que está aí para matar pessoas pretas.

Você imaginou que ficaria tanto tempo detida?

Quando me levaram da minha casa, irregularmente porque não apresentaram nenhum documento, não trouxeram nenhum mandato, o mandato que tinham era somente de busca e apreensão. Me levaram pra dar um depoimento. Como eu não devia e não devo nada pra ninguém, eu fui. Temos que colaborar com a Justiça.

Eu fui e até hoje continuo "dando esse depoimento". Estou de habeas corpus, haverá um julgamento com acusações de um crime que eu não cometi. Praticamente pegaram o Código Penal e jogaram nas minhas costas e dos meus familiares.

Como sempre digo, são essas pessoas que têm que arranjar provas de que eu cometi crimes. Mas não cometi crime nenhum e disso tenho certeza absoluta. Sempre gritei e vou continuar gritando que sou inocente.

Passei 108 dias presa injustamente, sem a presunção da inocência, com minha família sendo perseguida. Uma perseguição política. Somos lideranças do movimento de moradia de São Paulo, onde as pessoas foram presas sem nenhuma prova.

Minha mãe ficou foragida, minha irmã também. Eu e meu irmão ficamos presos injustamente. Fomos acusados de diversos crimes sobre os quais não havia provas. Meus advogados só tiveram acesso ao processo quase um mês depois para saber por que eu estava sendo presa.

Criminalizar todos os movimentos sociais que lutam por direitos constitucionais, sabemos que foi um plano de campanha de João Doria junto com Bolsonaro. Criminalizam esses movimentos para tirar a culpa de si, pra dizer que não é o governo que não cumpre com os direitos constitucionais.

O movimento social existe pela incompetência dos governantes, mas acaba sendo criminalizado por exigir um direito que é básico e constitucional. Eles estão invertendo a lógica.

Quais os principais sentimentos retratados no livro e quais eram as condições objetivas para essa produção?

Eu senti muita coisa quando estive presa injustamente. Senti ódio... senti não, ainda sinto porque sou um ser humano. Ódio, raiva, pena. De mim não mas de outras pessoas. Senti muita coisa, um mix de sentimentos que oscilam mas recebi muito amor também.

E houve muito um lugar de escuta das mulheres. Isso foi bom, me levou a conhecer outras coisas.

A minha relação com a escrita é desde a infância. Chegou o momento em que eu escrevia muitas caras e muitas respostas não chegavam, então descobri que minhas cartas não estavam sendo entregues.

Mas queria escrever que não perdesse nenhum dia, para ser fiel ao que estava vendo, vivendo e sentindo. O processo de escrita baseou-se em trazer a verdade.

E em relação às condições estruturais do cárcere?

As pessoas estão sendo presas não para cumprir pena, para serem torturadas. Tem presídio em que não há condição de vida, com comida que chega com rato. Quem consegue comer isso?

Passei três noites e três dias dormindo no relento, sem tomar um gole de água, sem comer nada. Isso é uma prisão ou é uma tortura?

Temos que olhar pro sistema prisional. A comida vem do interior, todos os dias. Por que vem do interior se as próprias mulheres podem cozinhar e ter redução de pena?

Não tem boa vontade dos governantes [com as pessoas presas] porque o plano é genocida. O plano é assassinar pessoas pretas. Prisões estão sendo construídas para que pessoas pretas sejam presas. É objetivo o plano deles.

O que mais podemos encontrar na obra para além dos relatos?

No meu livro tem poesia, música, roteiro. Tem muita arte. O que me salvou na prisão foi meu lado artístico. Sempre fui da arte, sempre trabalhei com a arte, que me possibilitou estar em outros lugares.

A arte me possibilitou enxergar o sofrimento com outro olhar. Existe arte nos presídios, mulheres artesãs e outras artistas. A bandeira que eu saí era uma bandeira feita de crochê, com os dizeres Marielle Presente. Existe música, pintura, crochê. O que a gente precisa fazer é criar oportunidade pra essas pessoas.

O que me possibilitou foi a arte, saber que não ia durar pra sempre. A minha fé também me possibilitou a enxergar que o sofrimento deveria ser encarado de uma outra forma. Aquele sofrimento não podia me derrubar porque tinha muita gente aqui fora gritando pela minha liberdade.

Busquei minha liberdade na arte. Fui livre de outras formas. Prenderam meu corpo mas aqui dentro, na minha cabeça, estava livre. É sobre isso: A arte significa também a liberdade.

Como foi a troca com as outras mulheres presas?

Encontrei diversos perfis, são muitas mulheres e diversas histórias. Mas o que leva as mulheres a serem presos, em sua a maioria, são os homens.

Vemos muito o feminicídio aumentando. Muitas mulheres foram para a prisão porque queriam se libertar, porque não queriam morrer nas mãos dos homens. Chegou a ponto de mulheres matá-los para sobreviverem. Elas denunciaram e nada foi feito.

Não queríamos que existissem mais "Marias da Penha" mas existem, infelizmente, porque não há lei que protejam as mulheres nesse país. O machismo, o feminicídio, o patriarcado. É isso que está levando as mulheres a serem presas.

E elas te ajudaram de alguma forma no processo de criação do livro, seja de forma objetiva ou como inspiração?

Com certeza todas elas me ajudaram porque a história também é delas. Não estou falando somente da minha prisão. Conto porque muitas delas foram parar ali porque são histórias verídicas, relatos que eu ouvi, presenciei, que estava presente.

Não conto só minha história porque não é só a Preta Ferreira que é injustiçada. Existem outras pessoas presas injustamente e precisamos contar essas histórias. Por isso conto as histórias das mulheres que cruzaram meu caminho.

A realidade que você encontrou corresponde ao perfil da população carcerária registrado por dados oficiais, de um maior encarceramento de mulheres negras?

Tem coisas que os dados nos mostram, que eles não veem. O universo é bem pior do que a gente imagina e do que pensamos. Os dados não mostram sentimentos. As mulheres e pessoas que foram presas injustamente têm que começar a gritar.

É isso que vai trazer a realidade. Minha carne tem esse propósito.

O título da obra realmente é muito forte e chama atenção, convoca uma reflexão. Qual o significado e a mensagem que ele carrega e transmite?

Só quem poder retratar algo é quem está sentindo. Então retrato em Minha Carne tudo o que o povo preto sente, tudo o que o povo preto passa, tudo o que vivem essas mulheres que cruzaram meu caminho.

Descrevo Minha carne com o que eu senti, com o que eu vivi, é a minha carne. Quando eu falo pessoas pretas livres é sobre isso, sobre essa carne, sobre esse povo, sobre essa população morta e perseguida. O povo preto, o povo indígena.

O que sinto em Minha Carne estou desenhando para que pessoas que não tem a possibilidade de sentir isso pela cor de sua pele, para que pessoas brancas que não vão sentir isso, entendam. Para que elas saibam como é sentir isso na carne todos os dias.

Temos que começar a falar sobre porque aquelas pessoas foram parar ali. Vejo que temos que começar a explicar. Fomos criados em uma sociedade em que a pessoa que foi presa um dia nunca vai ter a possibilidade de um recomeço.

Eu vivo em um mundo em que as pessoas vão procurar emprego, o que é solicitado não é o currículo, é o antecedente criminal. Como vamos chamar essas pessoas de reeducandas se elas nunca tiveram oportunidade? Como reinserir na sociedade quem nunca foi inserido?

Precisamos falar sobre o mundo do cárcere e que pessoas estão presas injustamente. Pessoas pretas e pobres. O direito de ir e vir está sendo retirado.

Se eu não contar, as pessoas não vão entender. Se eu não abrir a boca, vai ser mais uma forma de me silenciar. Eu tenho que encorajar outras pessoas para que elas também falem e gritem.

Do ponto de vista da sua trajetória pessoal, o que significa o lançamento do livro?

Significa vitória e liberdade. Realmente é um diário, não tem como dizer que as histórias não são reais. Tem as datas, os manuscritos. Então, lá atrás estava com um papel narrando toda a minha dor e hoje estou gritando por mundo para que ele entenda o que eu e outras pessoas estamos passando.

Minha carne é um grito de liberdade. E não tem só o simbolismo de vitória e conquista. É o sinônimo de liberdade. Significa que todos nós somos livres e precisamos falar.

Como é seu cotidiano, sua vida, depois que deixou a penitenciária e seu caso ter ganhado uma repercussão tão grande?

Eu saí muito mais forte. Agora, com o livro, as pessoas vão ler e muitas outras bolhas serão furadas. Esse livro também podem ser usados nas academias para que as pessoas saibam como funciona o sistema penitenciário de dentro.

Eu falo sobre necropolítica, sobre o genocídio, sobre indígenas, sobre a construção atual deste país. Tem carta do Papa Francisco, de Angela Davis, Erica Malunguinho. É um livro de cunho político, não se trata apenas de uma denúncia. Não se trata somente de relatos do que eu vi.

Esse livro e minha história estão alcançando lugares que eu jamais alcançaria. Houve uma transformação, uma reverberação do que foi a prisão.

Não deixei as pessoas me olharem como se eu fosse uma coitadinha porque não sou. Eu sou uma mulher de luta. Não quero que ninguém me veja como coitada porque fui uma mulher preta presa injustamente porque existem outras também sendo presas.

Temos que falar sobre todas. O livro me possibilitou a enxergar a vida com outros olhares e lugares, mostrar que precisamos dialogar com todo mundo.

Quais participações encontraremos no livro e como funcionaram essas colaborações?

Temos Juliana Borges, Erica Malunguinho, a doutora Aline Andrade, minha advogada, Maria Gadú, Angela Davis, Carmen Silva e Conceição Evaristo, que enquanto estive presa fez um poema pra mim.

Todas essas mulheres incríveis. Elas representam muitas coisas. Quis juntar um pouco de cada segmento. Elas, pra mim, são heroínas. Não que as outras não sejam, mas essas tem um significado especial.

Elas sentiram, viveram, presenciaram. Estiveram comigo. A descrição sobre o sentimento do livro é diferente.

A Erica Malunguinho fez um texto incrível na capa. Aí vem Angela Davis, Maria Gadú, Carmen Silva, que é minha mãe, a doutora Aline comentando e fechamos com o poema de Conceição. A última página do livro, está incrível.

Tem também a carta do Papa Francisco, do Lula. Tem uma história muito engraçada envolvendo essa carta do Papa. Eu escrevi e uma guarda riu da minha cara quando foi entregar. Lá não há privacidade pra nada. As cartas são lidas. E zombaram de mim.

Hoje estou aí, mostrando a carta do Vaticano que eu recebi, do Papa Francisco. Temos que fazer com que as pessoas criem possibilidade de sonho, que acreditem nos seus sonhos. Eu quero dizer que não estava louca naquela época e não estou agora (risos), eu recebi uma carta do Vaticano. É sobre isso.

Você foi solta após o habeas corpus. Ainda há algumas limitações no seu dia a dia?

Todos os meses tenho que ir ao Fórum assinar a minha carta de alforria, é assim que eu chamo. Mas não comecei ainda por conta da pandemia.

Qual a perspectiva pro julgamento do caso, considerando também toda a repercussão do caso?

Eu tenho certeza absoluta e plena da minha inocência. Estamos vivendo em um país em que a Justiça tem seletividade. Temos um presidente no país que faz as mesmas coisas que fazia em 1964, houve tortura, como ele mesmo diz.

Eu fui presa injustamente, tem liderança sendo mortas, Marielle foi assassinada. De qual Justiça estamos falando? A Justiça que eu acredito é a divina porque ela não falha. Temos que acreditar na Justiça que Deus move para colocar o homem como um provedor dessa Justiça para todas as pessoas.

É isso que eu espero da Justiça: que ela seja justa, nada mais e nada menos. Que ela seja justa. Presa durante esse tempo todo eu já fiquei, agora eu quero Justiça.

Você tem planos de retornar à penitenciária e mostrar o resultado da obra para outras presas?

Sim, tenho contato com elas ainda. Vão receber os livrinhos delas. Estamos com projetos bacanas. Quando se fala de criar oportunidade temos que criar realmente oportunidades.

Quero que o livro chegue aos presídios femininos para que as mulheres saibam que ali não é o fim da linha. Elas têm que passar por aquilo mas saber que existe esperança.

*Publicado originalmente em 'Brasil de Fato'

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