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'Sob o império do arbítrio: Prêmio Esso, imprensa e ditadura' é lançado no Rio

 

17/12/2019 13:34

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Créditos da foto: (Reprodução)

 

O livro "Sob o império do arbítrio: Prêmio Esso, imprensa e ditadura" será lançado nesta sexta, dia 20/12, às 18h, na livraria Leonardo da Vinci, no Centro do Rio de Janeiro. Ao longo dos 21 anos de vigência do regime civil-militar no Brasil (1964-1985), a relação entre o campo jornalístico e o campo político foi marcada por aproximações e distanciamentos. Esta obra, que saíra pela Alameda Editorial, tem o objetivo de complementar os estudos sobre a atividade jornalística neste momento que marcou a história republicana recente do país, delimitando a análise ao mais tradicional programa de reconhecimento do trabalho dos profissionais de imprensa, o Prêmio Esso de Jornalismo.

O "império do arbítrio" que dá título ao livro foi a expressão usada em editorial censurado do Jornal do Brasil na noite do fatídico Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968. Cinquenta e um ano depois, o AI-5 é revisitado e defendido por integrantes do atual establishment político. Trata-se, portanto, de um debate atual diante das tentativas de revisionismo sobre o que representou a ditadura e da retomada do militarismo na cena política nacional.

Luís Edgar de Andrade venceu o prêmio em 1969 com uma matéria sobre a psicanálise, publicada na Última Hora. O discurso do jornalista em 1969 demonstra como as cerimônias de entrega da premiação se constituíram como espaço para denunciar a violação de direitos humanos. Luís Edgar ficara preso naquele ano por agentes da polícia política. No discurso de agradecimento, no Hotel Glória, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ele comparou a experiência do cárcere com um outro momento vivido por ele quando era correspondente na Guerra do Vietnã:

"Certa noite de fevereiro do ano passado, eu estava em Da Nang no Vietnan do Sul. Ia partir na manhã seguinte para a base de Khe Sanh, cercada naquela ocasião pelas forças vietcongs. Um velho correspondente de guerra americano me disse: ‘Meu chapa, ainda que viva cem anos, você não esquecerá o inferno de Khe Sanh. Pois eu digo a vocês: esqueci Khe Sanh. No entanto, ainda que viva cem anos, jamais esquecerei os gritos que ouvi na noite de 14 para 15 de agosto de 1969 na cela de uma prisão brasileira".

Elaborar a memória sobre o passado autoritário, não enfrentado durante o período de transição, parece-nos sempre um bom caminho para entendermos o presente. A proposta do livro é complementar, através da análise do Prêmio Esso, outros estudos sobre a relação entre imprensa e Estado autoritário brasileiro.

Sobre o livro:

Sob o Império do Arbítrio trata de uma questão importante do ponto de vista histórico da imprensa brasileira: as complexas relações de poder que se estabelecem entre as empresas jornalísticas e o Estado. Centrado num dos períodos mais sombrios da história do Brasil, a primeira década da ditadura civil-militar brasileira, analisa a maior instância de consagração e legitimação do jornalismo brasileiro, o Prêmio Esso.

Percebido como estratégia para conferir poder e agendar temas, no período da ditadura, além de orientar os modos como os repórteres deveriam atuar, o prêmio se tornou importante instrumento de constituição das identidades jornalísticas.

Numa análise cuidadosa, o autor apresenta um painel multifacetado da imprensa brasileira nas décadas de 1960/70, tomando os jornalistas como um dos centros da análise, para perceber aspectos que poderiam passar despercebidos sem o olhar arguto com que realiza a pesquisa.

O livro possui muitos méritos. Enfatizo apenas um. Produzir uma interpretação importante sobre a história da imprensa brasileira, desvendando processos encobertos num período sombrio e de trevas, em que exercer a atividade jornalística era uma tarefa, por vezes, de derrubar muros e muralhas, num país que estava envolto sob o signo da ditadura, sob o império do arbítrio.

Marialva Barbosa, Professora Titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Sobre o autor: Marcio de Souza Castilho é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Comunicação, Imagem e Informação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É professor-adjunto IV do Departamento de Comunicação Social da UFF.

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