Leituras

A Ilíada de Homero, a morte de Heitor e os que não retornaram

 

06/07/2020 14:46

 

 

O que haveremos de resenhar em tempos tão incertos e tão repletos de anúncios violentos, que pronunciam a “imposição de poder” e nos atrai ao pior de nós, homens que desejam a paz e a necessidade da paz e o prazer da paz, dos dias de rememorações e de feitos que consideraríamos memoráveis? Que dias foram esses? Hoje, creio que não mais memoramos... E talvez aí exista o perigo do conforto do saber, que nunca é exato, já que existimos na exatidão do perecível, se não entendemos de onde vêm nossas lembranças. Então rememoro a morte de Heitor, o herói troiano, o primeiro exemplo literário do homem que lutou até o fim.

Há um consenso geral de que Homero, dito autor da “Ilíada” e da “Odisseia”, viveu por volta do século VIII antes de Cristo, sendo assim uma espécie de fundador da literatura ocidental, não só por ter sido um modelo literário, mas também um modelo daquilo que os homens são em si e de como fazem os “feitos”, gloriosos ou não, principalmente os de guerras e os de “justa causa”, segundo a elite de cada época em que se deu tais ações. E não são poucas as citações “homéricas” ao longo da história: políticos, juristas, militares, literatos e muitos outros tipos de mandatários, usaram e abusaram de Homero e de suas epopeias para exemplificar ou justificar este ou aquele ato. De fato, Homero é o início da influência grega e de tudo o que a Grécia Antiga fundou e que hoje chamamos de Ocidente.

Nos dias atuais, Homero já não é tão mais citado, mas seu legado, e toda a Grécia que o tomou como uma didática, e todos os frutos e feitos dessa educação da “guerra e do direito”, continuam a ditar as normas, ao menos as de fachada, dos que habitam agora a zona do chamado “poder”, seja o político, o militar, o geográfico, o social e o econômico, ou todos eles juntos.

Não precisamos mais das epopeias heroicas! Não precisamos mais de Homero! As universidades já o provaram e também os batalhões de bacharéis que disputam a tapa uma parte do mercado ou o que pensam ser um lugar ao sol, pois não sabem, como Homero bem o disse, “caem como as folhas das árvores”.

Contudo, ainda precisamos de heróis! Ó, como precisamos de heróis! E o século XX foi pródigo em inventá-los! Superman, Homem-Aranha, Fantasma, Batman, impressos de início e depois em outros meios, e os verdadeiros heróis das guerras reais que povoaram aquele século XX e o nosso, e ainda mais com toda a parafernália tecnológica da TV, das séries, dos filmes e outros que a mídia nos oferece sem nenhuma didática, exceto a do consumo e da alienação. E tudo no fim é culpa dos gregos, porque inventaram a Educação (seguindo a cartilha fascista), que hoje parece tão ínfima aos olhos dos que acreditam ser a educação apenas a forma de combater e matar o que não lhe agrada. A mesma tática é ainda hoje a homérica (mas duvido que Homero assim tenha pensado): se antes os gregos ensinavam a “ilíada” e a “Odisseia” em suas escolas, porque eram uma espécie de bíblia, a doutrina e os hábitos da vida, hoje não é menos, embora a doutrina e a vida de agora sejam muito diferentes e regidas por outros objetivos e destinos, onde o heroísmo em batalha ou a recuperação de direitos “familiares” estejam travestidos de altos cargos, em altas cortes, em altos poderes financeiros, e ainda que o traje seja singelo: terno e gravata... e o ambiente muito limpo (a classe média, capaz de louvar torturadores, a perder de vista seus direitos mal fundados). Os filmes todos exibem isto! E até mesmo quando os filmes tratam de párias, é a este tipo de aquisição gloriosa a que se remetem. Mas, enfim, o que isto tudo tem há ver com a morte de Heitor?

A “Ilíada” trata de um único assunto: “A ira de Aquiles” e como ela termina, com “a morte de Heitor”. No poema de Homero não ficaremos sabendo como termina a guerra entre gregos e troianos. Para os gregos, a partir de Homero, já era claro que os troianos perderam a batalha e a guerra. E os versos de Homero narram com poderosa objetividade este fato único da famosa sanha.

Abreviando Homero: Agamenon, o chefe supremo dos guerreiros gregos (no original são chamados Aqueus), toma uma escrava de Aquiles, que este muito apreciava, e cujo nome era Briseida (Briseis sereia a tradução direta). Aquiles fica furioso, “irado”, e decide não mais lutar, frustrando a intenção bélica dos gregos, que o tinham como principal guerreiro e, portanto, exemplo de bravura para o resto do exército (este tipo de atitude não deve ser estranho nos dias atuais), embora ali, segundo a doutrina em vigor, a “honra” de Aquiles estivesse em jogo, pois seu valor estava sendo contestado, já que ter escravas era parte da honra do herói (nos dias de hoje isto não é bem compreendido, já que o mercado disponibiliza outras opções de escravagismo sexual). Entre lutas épicas singulares, com heróis e muitas batalhas, os versos de Homero trazem à tona toda a sanha do pensamento grego e sua trama de atos, que dizem como é a doutrina a seguir e os hábitos a fomentar: nada escapa a Homero, nem mesmo os cães e os abutres comendo os corpos dos derrotados e os banquetes dos vencedores, que não poupam a comemoração de uma breve vitória.

Nunca tiraremos dos gregos a importância da invenção da Educação. Talvez tenha sido o que de melhor tenham inventado e deles nos lembremos exatamente por isto. Mas devemos estar atentos às deformações do assunto imposta pelas transformações a que fomos, ocidentais, submetidos pelas crescentes e inovadoras perversas formas de administrá-la, e chamo Nietzsche para me ajudar:

“Mudei-me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo, a minha alma assentou-se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É melhor dormir em meios às vacas, que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.”.

Muito da nossa atual Educação deveria se envergonhar diante desta fala, e nem precisaríamos de um Weintraub para nos confirmar! A erudição e o conhecimento tornaram-se coisas a serem destruídas, como o fizeram fascistas, nazistas e seus eventuais colaboradores, por toda a Europa e outros mais além do Atlântico, como o nosso Brasil.

Mas voltemos à morte de Heitor. Há algo em Homero que já prenuncia o Teatro, o Drama, talvez a Tragédia. No XXII canto, dá-se o combate entre Pátroclo e Heitor. Pátraclo era o amigo íntimo de Aquiles, seu melhor amigo, e este vendo o outro prostrado e irado, pede para que este lhe conceda as armas (as armas de Aquiles não eram armas comuns, eram da “idade do bronze” e forjadas por Hefaístos [Aquiles é um semi-deus], portanto, poderosas, além de belas, e a beleza das armas enunciam o charme a que os machistas de então proferiam). Aquiles concede, e Pátroclo segue para a batalha e é morto por Heitor. Aquiles, ao saber da morte do amigo, abre mão de sua ira e decide vingar-se de Heitor e dá-se então a batalha singular na qual Heitor será morto e a ira de Aquiles terá fim, mas não a guerra.

Homero combinava bem sua poesia com rapidez, objetividade, ritmo e nobreza (tudo em Homero é nobre, como hoje nada mais existe de nobreza nos atos dos atores): Ájax, Diomedes, Menelau, Agamemon, Ulisses, Nestor, Tersites, Páris, Heitor, Odisseus, Andrômaca, Príamo, Hécuba... encenam aquilo que na futura tragédia troiana já se sabia inevitável: Tróia está perdida! E no início do poema já podemos ver o fim do que está por ser narrado, e que nunca o foi a guerra, mas apenas a ira de Aquiles que, seguindo o canto homérico, terá de ser o vencedor, como nas telenovelas de agora, onde o mau sempre será derrotado ou, no mínimo, humilhado:

“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida
(mortífera! que tantas dores trouxe aos Aqueus
e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,
ficando seus corpos como presa para cães e aves
de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),
desde o momento em que primeiro se desentenderam
o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.
(tradução de Frederico Lourenço)”.

A “Ilíada” é o poema da sanha guerreira de Aquiles, mas estranhamente este não é louvado no poema, exceto no canto XXIV, mas não como guerreiro, mas como vencedor e proprietário do cadáver de Heitor. E isto hoje pode parecer horrível, ser proprietário de um corpo alheio e morto (hoje escondem ou desaparecem com os cadáveres). Mas, pensem bem, que somos nós, nesta pandemia, senão doadores de nossos corpos em batalha pela vida, já que sequer podemos velar e sepultar nossos mortos? Ulisses estava em seu “direito” e não sepultar o herói era uma desforra (será que alguém aqui, entre nós, faz o mesmo?).

Príamo, rei de Tróia, ao saber da morte de seu filho Heitor, imbuído desse sentimento de perda e luto, atravessa sozinho o acampamento grego e se dirige à tenda de Aquiles que, vendo o heroísmo de um pai que chora por seu filho, não age como o antes irado guerreiro, mas como verdadeiro herói e homem digno, e diz a Príamo:

“Ai, miseravelmente e glorioso hás padecido!
E a mim, que te privei de extremos filhos,
Buscas sozinho? Tens entranhas de ferro!
Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.”

Dar-se-ão vários dias de trégua e Príamo e os demais troianos poderão sepultar seu herói, como lhe é devido, por ser aquele que defendeu seu povo de uma guerra mal feita. E é preciso entender isto dentro da conjuntura das normas desses povos: Páris raptara Helena, mulher de um rei: e isto não era aceitável em nenhuma hipótese, como hoje aceitam nossos tribunais, que nada entendem de honra e dignidade guerreira e direito de ato (embora a imitem apenas em palavras). Na Grécia antiga, muito antiga, a mulher era uma propriedade, a coisa-mulher era uma Lei e isto, se não fosse retratável devidamente, terminava em guerra. Hoje, miseravelmente, não temos mais os culhões desses guerreiros fantásticos, que partiam para a luta com toda a razão de seu bruto mas infalível direito, e então aprovado pelos deuses, que até ajudavam na contenda, sem precisar de pastores fajutos para oferecer unção de araque. Ainda que os deuses gregos não fizessem nada, a mente grega fazia como se deuses lá o fizessem, como fizeram a filosofia, a matemática e muito mais!

Creio, pessoalmente, que a Guerra de Tróia é a fundação soberba do machismo, a fundação literária dessa cultura de ódio e diminuição dos seres humanos, a fundação da cultura do desprezo e da jactância e a criação da própria “hybris (a exarcebação do mando)” como forma comum de exercício de toda a forma de poder sobre os homens e seus desejos. Acredito mesmo que este exemplo de sanha guerreira fundou a nossa violência contra a mulher e, a partir dele, de tudo o que o homem machista não se submeteu, e aí incluímos os nossos preconceitos étnicos, raciais, geográficos, sociais, citadinos e tantos outros absurdos de mandos e desmandos.

Respiro... Mas, enfim, o corpo Heitor foi resgatado por seu pai e pelos troianos. Por dias será celebrada sua partida. Respeito ao morto é feito e tudo é celebrado, como se rememorando os feitos do morto, pudéssemos por último abraçá-lo sem esquecer. Mas será preciso esquecer, e a guerra continuará. Os troianos a perderão, mas a morte de Heitor continuará para sempre como o último canto de um magistral poema épico!

Talvez, nos cantos fúnebres do sepultamento de Heitor (dos quais certamente participaram Andrômaca, sua esposa, e Hécuba, sua mãe), tenham sido ouvidos as vozes das mulheres dos guerreiros troianos (e também das mulheres gregas se ali os vissem), comidos por cães e abutres, e que o poema de Homero não reverenciou. Mas Homero era grego e nada se lhe pode mal desejar, e menos ainda seu canto, como não mais cantamos pelos nossos mortos nos dias de hoje, um simples 26 de junho de 2020, onde uma pandemia ceifou, e ainda vai ceifar, a vida de muitos guerreiros.

Os nossos mortos de agora já não podem pedir seus sepulcros. Mortos sem nome, exceto os que lembraram, longe da pandemia. E a coisa da morte nos vem visitar e somos nós os comensais.

Volta sempre a satisfação de que nada nos faltará: a morte nunca falta! E esta é a palavra bendita “a morte!”, pois nem direita ou esquerda a evitará! E assim, fugindo dessa metafísica sem fim, encontramos o nome da mãe de todas as guerras, nossa mãe, a morte e sua luta conosco, que nos diz: onde vais e de onde vais partir? Eu parto desse porto e me vou (o porto futuro?), ainda lutando, porque a morte nos quer assim (lutando?), e talvez ou outra vez vençamos, deixando a ela um sorrir que já sabe o fim, onde podemos dizer sem maldade:

“Mas, se nãos os fins, sabemos que a única matéria é lutar até morrer!!

Fico lembrando a morte de Che. Heitor é pequeno diante dessa morte e eu exumo o seu cadáver, e sou apenas aquele que não pode lamber os seus ossos. Ai, Heitor, que perdeu a batalha e ganhou a história... Ai, Che, que nada sabemos de ossos e de seus futuros....

Sejamos sinceros... Se não leu a “Íliada”, porque chorar Guevara?

Talvez e, só talvez, pudéssemos chorar os mortos de nosso Brasil.

Heitor ainda é o exemplo de respeito que devemos aos mortos. E os mortos do Brasil não têm nome!! Não retornaram, como Heitor não voltou da morte, senão em versos!

João José de Melo Franco é poeta, contista e editor




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