Leituras

A Nova ordem

Livro será lançado em breve pela Casa Editorial Alameda. Leia, em primeira mão, o capítulo que abre a mais recente novela do jornalista e escritor Bernardo Kucinski

31/03/2019 11:29

 

 
O livro A nova ordem será lançado em breve pela Casa Editorial Alameda. Leia, em primeira mão, o capítulo que abre a mais recente novela do jornalista e escritor Bernardo Kucinski, autor de cerca de 20 obras, entre elas, Jornalismo Econômico, vencedora do prêmio Jabuti em 1997, e K. - relato de uma busca, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Portugal Telecom, em 2012. Sua ultima novela Pretérito Imperfeito, foi publicada no ano passado pela Companhia das Letras

Cap. I

A Nova Ordem proclama seu advento. O fechamento das universidades e a morte do pensamento crítico.

Anoitece. Pelas vidraças esburacadas, amplas e inalcançáveis, chega do mar uma brisa refrescante. Os cientistas formam pequenos grupos dispersos no vasto galpão. Antes das privatizações, ali funcionava o almoxarifado do maior estaleiro nacional. Tufos de musgo nos cantos e teias de aranha nas traves denunciam o abandono. No piso de cimento misturam-se areia, folhas secas e pontas de cigarro. Junto à entrada, um grupo mais numeroso aglomera-se como que à espera de um anúncio importante. Os demais, aos poucos, vão se sentando no cimentado. Não se vê uma única mulher. Apesar do desconforto, discutem animadamente, alguns por reencontrarem antigos colegas, outros, envaidecidos por constarem na lista dos mais importantes cientistas do país, segundo um deles ouvira do tenente que o prendera.

- Imagine você que me pegaram no motel, sussurra um deles.

- É que você fala demais, alguém te dedou; e ela, como é que reagiu?

- Ficou assustada, é claro.

Numa roda ao lado discutem política em voz alta.

- Faltou ao Brasil uma revolução burguesa, diz um de cabelos grisalhos, trajando um pesado capote.

- Coutinho, você não está com calor?

- É que na correria só consegui apanhar esse casacão; nem a escova de dentes me deixaram pegar.

- O que você achou dessa tal de ECONEC? Pergunta outro. [1]

- Uma bosta.

- Você insiste na ideia da revolução burguesa, desde o Caio Prado ninguém mais endossa isso, nosso capitalismo sempre foi dos mais avançados...

- E a tese do João Miguel? Aliás, onde é que está o João Miguel?

- Acho que não entrou na lista.

- E não tinha mesmo que entrar, intervém outro catedrático.

- A tese dele é fraca, veja as usinas de açúcar, nos anos quinhentos já usavam empréstimo bancário, produziam mercadoria de comércio mundial; quer coisa mais avançada do que um engenho de açúcar? E o João Miguel vem falar em capitalismo retardatário...

- Mas a mão de obra era escrava...

- Escrava, mas não feudal! Capitalismo escravista, como disse bem o Gorender. Aqui nunca houve feudalismo, foi sempre trabalho escravo. Por que você pensa que instituíram essa Nova Ordem? Porque os sindicatos estavam pondo as manguinhas de fora! Sindicato é incompatível com trabalho escravo.

- Não tem nada a ver com sindicato, isso tudo é por causa dos utopistas, dos quebra-quebras das agências bancárias.

- Você está confundindo tudo, são os mascarados que estão depredando os bancos, os black blocs, uns desordeiros; os utopistas renegam a violência.

- Mas querem extinguir os bancos, são uns doidos, onde já se viu acabar com o sistema financeiro?

- E onde já se viu obrigar a pessoa a se endividar?

- Não é bem isso o que diz o decreto. [2]

- Como não?! Está lá com todas as letras! Você é obrigado a contrair um empréstimo!

- Me faz lembrar o sistema do barracão nas fazendas de café, o colono estava sempre endividado.

- Estou muito aborrecido com a falta da minha escova de dentes.

- Eu também, que situação deplorável.

-Vamos falar com o Fernando, como presidente da Academia ele pode exigir as escovas de dentes; você viu se trouxeram o Fernando? Ele precisa nos arranjar as escovas.

- Não vi o Fernando, não deve estar no Brasil, acho que foi o primeiro a dar no pé.

- Mesmo que tivesse ficado é um cagão, não ia fazer nada! Grita alguém de uma roda ao lado.

Abre-se o portão e surgem mais pessoas. Entre elas está um afamado geneticista, especialista em doenças tropicais. Chega entretido numa conversa animada com o naturalista Pessoa. O naturalista lhe expõe sua suspeita de que o pantanal mato-grossense tornou -se o principal reservatório de reprodução do mosquito da dengue na América do Sul.

O geneticista conta que foi surpreendido no Vale do Jequitinhonha onde estudava a desnutrição entre crianças quilombolas. De repente baixou lá uma expedição anti-quilombo e pôs tudo abaixo. Ao vê-los, junta- se à conversa o chefe do Instituto Butantã, preso em meio à produção da primeira vacina nacional contra a dengue. Os três trabalharam anos juntos na Fiocruz.

- Pessoa, essa descoberta é importante, você acha que é consequência do aquecimento global?

- É a minha hipótese; o problema no Pantanal é a falta de dados, eu tentava localizar um mosteiro de capuchinhos quando me prenderam; consta que mantinham um registro de temperaturas desde 1750.

Chega mais um catedrático, um neurocirurgião conhecido por suas revolucionárias próteses do joelho. Tiveram que esperar quatro horas para prendê-lo. Operava um coronel paraquedista que se acidentara num salto de exercício. Chegou de bata branca, ainda com respingos de sangue.

- Alguém viu o Eduardo Jorge? Pergunta, perscrutando o galpão. Ele e o Eduardo foram da mesma turma na Medicina e ficaram amigos.

- Então você não sabe?

- O Eduardo morreu, diz outro cientista.

O médico empalidece.

- Como?! Impossível! Jantei com ele anteontem! De onde é que surgiu isso?

- Eu estava no camburão quando foram pegar o Eduardo. Voltaram dizendo que ele sofreu uma síncope na frente deles.

Faz-se silêncio.

Ao lado, dois senhores, ambos em mangas de camisa, falam de literatura.

- Lessa, você já leu o Englander? Pergunta um deles.

- Englander? Não, nem sei quem é.

- Nathan Englander, é um americano muito engraçado, uma das novelas dele satiriza a liquidação dos escritores judeus na União Soviética.

- Você acha isso engraçado?

- É que juntaram os escritores num galpão parecido com este aqui e um deles conta que foi preso no bordel, o outro, caindo de bêbado, o terceiro na casa da amante, e assim por diante; é muito divertido; os diálogos são surreais porque eles sabem que dali a pouco serão fuzilados e não dão a menor importância.

Ao ouvirem a palavra fuzilados, alguns catedráticos especulam sobre o que lhes pode acontecer.

- Ainda bem que aqui não tem nenhum psicopata como o Stalin, diz um deles.

- Com Stalin ou sem Stalin eles podem fazer o que bem entenderem, diz um catedrático em Direito Constitucional.

- Podem até nos fuzilar.

- Impossível! Protesta outro jurista, presidente da OAB.

- Na Nova Ordem tudo é possível, retruca o catedrático.

- Mas isso é fascismo!

- Chame como quiser; eu digo que vivemos um estado excitado do capitalismo que se manifesta sempre que é preciso refrear os avanços do povo.

- Até parece que você está defendendo isso...

- Defendendo não, tentando entender.

- Esses bandos de mascarados pondo fogo em agencias de banco acabaram por fornecer o pretexto, diz o presidente da OAB.

- Como se generais precisassem de pretexto! Foram os primeiros a quebrar a ordem jurídica!

- Seduzidos pelos banqueiros! Quem iria imaginar...

- E nós alguma vez demos atenção aos militares? Alguma vez convidamos os generais para um seminário? Um simpósio? Nós sempre os desprezamos. O resultado é esse aí.

- Você tem toda a razão. Lembrei-me daquela história do Ítalo Calvino em que os generais ocupam a biblioteca nacional com a missão de expurgar obras não patrióticas e de tanto estudar os livros para decidir se são patrióticos ou não acabam rendendo-se ao pensamento crítico.

- Mas e o final da história? Por que você não conta o final da história? Eu também li o Ítalo Calvino. No final, o general e seus auxiliares são passados para a reserva.

- Você lembrou bem. A formação militar é incompatível com o pensamento crítico. Só a ideia de ser treinado para matar já mostra a estupidez dos exércitos.

Na rodinha ao lado, três senhores sentados no piso de pernas cruzadas conversam calmamente. Um deles, franzino e bem idoso pergunta a outro:

- Você leu o último artigo do Mangabeira? Ele diz que os tribunais são o lugar onde o Estado crucifica os ideais de homem. Quer uma sociedade sem tribunais. Acho que o Mangabeira endoidou! Igual os utopistas que querem acabar com os Bancos...

- Ou quis nos sacudir...

- Se estivesse aqui, armaria um escândalo; o Mangabeira não deixa nada barato; tirar-nos de casa de pijama, no meio da noite, onde já se viu tamanho desrespeito...

- Eu só lamento não ter concluído meu trabalho sobre a estrela anã, diz um que estava rabiscando fórmulas no piso. - Vou morrer faltando o último capítulo; já estava esboçado, uma pena...

- Morrer!? Você acha que vão nos matar!?

- Não tenho a menor dúvida! Quando quis pegar meus rascunhos o tenente disse que eu não ia mais precisar de papel nenhum.

Noite avançada, o grande portão é outra vez aberto e surge um oficial com patente de coronel, acompanhado de dois soldados. Um deles traz um estrado e o deposita no centro da entrada. O coronel sobe no estrado de mão esquerda na cintura. A direita empunha uma pistola. Os cientistas agrupam-se à sua frente, curiosos. O coronel fala em tom de comando:

– Quando eu descer deste estrado, os senhores vão caminhar ordeiramente, até onde lhes será indicado pelos soldados.

- O que vai acontecer conosco? Pergunta um catedrático ainda jovem, aproximando-se do coronel.

- Quem é o senhor? Pergunta o coronel.

- Sou o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina.

- As universidades federais não existem mais, retruca o coronel.[3]

E lhe desfere uma coronhada na testa.

Faz-se um silêncio pesado. Logo, os catedráticos começam a se mover devagar, sem entender o porquê da coronhada no reitor que também caminha, sustentado por dois colegas, com sangue a escorrer pelos cabelos. Atingem a beira de um fosso longo e fundo. Numa das margens amontoa-se a terra retirada. Estacionada um pouco além, uma escavadeira de motor ligado e faróis acesos. O manobrista, sentado na cabine, fuma.

Os soldados fazem com que os catedráticos se alinhem ao longo do fosso, do lado oposto ao dos montes de terra. Atrás dos montes, ocultos pela noite, postam-se vinte soldados em fila dupla, metade de pé e metade ajoelhados.

A um comando do coronel, os soldados metralham.

Segundos depois, os mesmos soldados empurram com os pés, para dentro do buraco, os corpos que ficaram fora. O coronel armado de sua pistola, pula para dentro do fosso, percorre os corpos, saltando de um a outro e atira na cabeça dos poucos que ainda se mexem.

***

[1] ECONEC ou a Economia- Neoliberal –Coercitiva foi implantada pelo Edito 2/2019 da Nova Ordem que extinguiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os ministérios do Planejamento, de Minas e Energia e da Indústria e Comércio. O artigo 2 do Édito privatiza empresas estatais, autarquias e bancos; o artigo 3 leiloa as reservas minerais e petrolíferas ; o artigo 4 zera alíquotas de importação e o artigo 5 extingue a Zona Franca de Manaus a Sudam e a Sudene; o artigo 6 reduz a10% o Imposto de Renda e elimina isenção aos detentores de renda baixa ; o artigo 7 extingue o Instituto Nacional de Seguridade Social ( INSS), estabelece a idade mínima de 80 anos para aposentadoria e substitui o regime único por contas individuais de capitalização ; o artigo 8 extingue a estabilidade do servidor público; o artigo 9 extingue o Bolsa Família, os benefícios sociais ao idoso pobre e ao deficiente física, o Auxílio Doença e o Seguro Defeso ( SD), que era concedido a pescadores nos meses de proibição da pesca; o artigo 10 extingue o sistema S (Senai ,Senac, Sebrae e Sesc) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e as agências reguladoras.

[2] Trata-se do Édito 3/2019que obriga todo brasileiro ao completar 18 anos a abrir uma conta bancária denominada Conta-Pessoa, contraindo para tal fim um empréstimo no mesmo banco e agência, denominado Empréstimo-Pessoa de valor não inferior a trinta vezes o da Letra do Tesouro Série N-6; o artigo 2 determina que no casamento a Conta-Pessoa da mulher migra para a do marido; o artigo 3 proíbe a posse de outras contas bancárias; pelo artigo 4 o Empréstimo-Pessoa só pode ser quitado quando o devedor se aposenta ou pelo seu espólio em caso de morte; pelo artigo 5 incide sobre o Empréstimo-Pessoa juros anualizados Selic 24 pontos percentuais ; o artigo 6 extingue o Banco Central passando suas atribuições à Febraban ( Federação Brasileira dos Bancos); o artigo 7 define as sanções aos que não abrirem a Conta-Pessoa, entre elas a retenção de salários e a proibição de adquirir ou vender imóveis e de realizar inventário.

[3]O Édito 14/2019 da Nova Ordem do Ensino Superior fundiu os Ministério da Educação da Cultura e do Esporte num só da Formação Moral e Cívica e fechou as universidades federais, ressalvando cursos de economia agrícola e veterinária; o artigo 3 extingue as disciplinas de sociologia e política, psicologia, literatura, história e geografia, antropologia e línguas estrangeiras, exceto o hebraico e as substituiu pelas de Educação Moral e Cívica, Criacionismo e Estudos Bíblicos; o artigo 4 autoriza 30% da carga horária por ensino à distância; o artigo 5 restringe a instituições militares cursos de direito, engenharia, física, química, matemática, biologia, medicina e psiquiatria; o artigo 6 institui as disciplinas obrigatórias Gestão Patriótica e Guerra Psicológica Adversa em curso para quadros dirigentes: finalmente, o artigo 8 extingue as cotas raciais, os quatro programas de financiamento estudantil do ensino superior ( Prouni, Pronatec, Fies e Sisu) e o programa Ciência sem Fronteiras.

*Publicado originalmente na Revista Pessoa



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