Leituras

A democracia precisa de ar e mais humanidade

 

18/12/2020 16:20

 

 
Ficar “sem fôlego” deixou de ser um dos sintomas do vírus que assola o planeta para se tornar também uma metáfora do nosso tempo.

A busca por soluções é global. Sou otimista e acredito que podemos recuperar a capacidade de respirar em todos os sentidos se agirmos de forma coordenada e cooperativa.

Não nos faltam recursos.

Mas certamente carecemos de lideranças e do rumo político que resgatou a humanidade de outras tragédias da história.

Nada será como antes. Assim como não o foi depois das grandes tormentas do século XX, como as guerras mundiais. Hoje como ontem, o caminho do “novo normal” está sendo pavimentado por centenas de milhares de mortes evitáveis, com agravamento das desigualdades sociais, falências, desemprego e mais fome e miséria.

Uma catástrofe humanitária como a do Covid-19, em grande parte previsível, deveria ter acionado automaticamente mecanismos de coordenação e cooperação globais em defesa da vida de todos os povos, indistintamente.

A solidariedade aos que viessem a perder seus entes queridos deveria se materializar em iniciativas diretas e financeiras, traduzidas em um fundo às famílias mais vulneráveis – a exemplo do que se fez e se faz com instituições financeiras nas crises de mercado.

Não é o que se constata nestes oito meses de pandemia.

Este livro-pesquisa do médico e companheiro Victtorio Agnoletto nos ajuda a desnudar e a compreender a realidade complexa e distinta que nos desafia localmente e nos questiona globalmente.

É uma importante contribuição para entendermos como funcionaram e funcionam na prática os sistemas públicos de saúde diante da pandemia, não somente na Itália, mas em vários países, quase todos sucateados por décadas de políticas neoliberais.

E um poderoso impulso para que se evite o “salve-se quem puder”, dedicando-nos à reflexão sobre as formas de viver, de produzir e de repartir das sociedades pós pandemia. Sublinho essa preciosa oportunidade e tenho a certeza de que Agnoletto, um altermundista, membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, também a vislumbra.

Na história humana não há problema sem solução. O tempo da resposta às vezes tarda e impacienta. Mas chega.

Muitos de vocês sabem que passei 580 dias preso, condenado sem nenhuma prova, apenas para que fosse impedida a minha candidatura à Presidência da República nas eleições brasileiras de 2018, quando as pesquisas da época indicavam a minha vitória.

A cada dia fica mais claro o impacto e as consequências dessa ruptura democrática para o conjunto da sociedade, o custo, para o povo, desta interdição promovida pelas elites da normalidade democrática.

O garrote do lawfare que tentou nos impedir de respirar asfixiou também a respiração da democracia no Brasil, permitindo que o Estado fosse tomado por interesses antissociais e antinacionais de um governo de destruição – dos direitos, das esperanças, da liberdade, da Amazônia - convergindo para o saldo funesto que fez do Brasil o segundo país com mais vítimas da pandemia.

As farsas jurídicas montadas contra o Partido dos Trabalhadores, contra a então Presidenta Dilma Rousseff e contra a minha pessoa têm contas a acertar com a história nessa dimensão trágica da vida brasileira , que diz respeito não apenas a minha história, a minha honra, mas se relaciona com a trajetória das lutas políticas das últimas décadas e às grandes escolhas estratégicas que o país terá que fazer nessa encruzilhada do desenvolvimento e da democracia no pós- pandemia

Por conta do Covid-19, saí de uma “prisão” para entrar em outra. Sequer ver de perto e beijar a minha netinha que acaba de nascer me é possível.

Desde março – quando retornei de uma curta visita à Europa, inclusive à Itália – encontro-me isolado em casa, conversando apenas virtualmente com familiares e amigos, participando de “lives” e reuniões políticas pela Internet.

Sinto, porém, que energias importantes estão sendo acumuladas nesse momento.

Numa dessas reuniões virtuais, conversei longamente sobre a situação da pandemia com companheiros e companheiras do Grupo de Puebla, como o presidente da Argentina, Alberto Fernández; a ex-presidenta Dilma, vítima do golpe de 2016 no Brasil; e os ex-presidentes Pepe Mujica, do Uruguai, e Evo Morales, da Bolívia, também destituído por um golpe de Estado em novembro de 2019.

Os questionamentos que fizemos esboçam uma agenda que em breve pertencerá ao mundo através da ação.

Eles contraditam -- com receptividade e pertinência cada vez maiores -- políticas locais e uma governança global incapazes de oferecer respostas à desesperadora incerteza que impede a humanidade de respirar e progredir.

Por que a ONU não convocou uma Assembleia Geral Extraordinária, mesmo virtual, para coordenar os esforços mundiais no enfrentamento da pandemia?

Por que o FMI não passou a fazer empréstimos facilitados para os países que mais necessitam?

Por que os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, se tornou o campeão mundial de mortes pelo Covid-19? Por que o Brasil já ultrapassou as cem mil mortes, podendo dobrar esse número até o final do ano, sem o governo brasileiro se comover com isso?

Tem faltado humanidade em um mundo regido por mercados financeiros e algoritmos.

A superposição de crises que se retroalimentam – do capitalismo neoliberal, do desequilíbrio ambiental e do descontrole sanitário –anuncia o esgotamento de uma época.

O futuro pós-pandemia não está garantido para ninguém.

Está em disputa.

Os que se apressam em anunciar a volta ao “velho normal’ entendem por isso a restauração plena das iniquidades de um passado e presente caducos, que a pandemia escancarou e agigantou.

Não há precedente de uma volta ao ‘normal’ depois de uma ruptura da intensidade e abrangência de uma pandemia ou de uma guerra.

Os que, como nós, buscávamos há mais tempo construir um mundo de oportunidades iguais para todos, em que a vida, os direitos humanos e o meio-ambiente fossem valores reais e inquebrantáveis, temos uma grande missão pela frente.

Em todos os quadrantes do mundo, em que pese o confinamento, há um clamor que, acredito, tornar-se-á cada vez mais impossível de se calar, uma resposta da sociedade as súplicas sufocadas, como as de George Floyd, vítima de violência policial nos Estados Unidos:

 ‘Queremos respirar, queremos respirar, queremos respirar...’

Voltaremos a fazê-lo, plenamente, se soubermos abrir nossos corações, mentes e ouvidos, e enchermos os pulmões de solidariedade, e abrirmos a democracia às novas formas de participação e ação política que o século XXI nos cobra e propicia.

São Paulo, setembro de 2020.

Luiz Inácio Lula da Silva
Ex-Presidente da República Federativa do Brasil


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