Leituras

A eletrizante história dos bastidores do 'Aurélio'

Intrigas e disputas narradas pelo jornalista Cezar Motta em 'Por trás das palavras' marcaram a criação do maior fenômeno do mercado editorial brasileiro

10/01/2021 10:59

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
Não são muitos os que conhecem a saga que durou cinquenta anos e se desenrolou por trás da elaboração do dicionário Aurélio, a maior referência da língua portuguesa no Brasil. Agora, essa trepidante história é narrada no volume Por trás das palavras, da editora Máquina de Livros de autoria do jornalista Cezar Motta, com todos os lances que envolveram a produção do livro brasileiro mais vendido de todos os tempos.

Motta trabalhou na Rádio Nacional, Jornal do Brasil, TV Globo, Veja, O Fluminense, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense e Zero Hora, e relembra que na primeira fase das disputas as peripécias foram marcadas pela incansável e conturbada busca por parte do célebre lexicógrafo, filólogo e professor alagoano Aurélio Buarque de Holanda por um financiador da empreitada.

Aurélio Buarque de Holanda (Divulgação)

Depois, os desencontros e também prejuízos se seguiram com o descumprimento de prazos de entrega de material por parte do autor e da sua equipe, embora todos trabalhassem em ritmo frenético na empreitada.

O estrondoso sucesso, em 1975, com o lançamento do dicionário, foi logo seguido de disputas pela coautoria da obra e pelos direitos autorais que resultaram numa batalha judicial só encerrada em 2015, numa ação julgada pelo Supremo Tribunal Federal.

Hoje, o Aurélio é vendido em e-book (R$32), e Cezar Motta, de 70 anos, nascido em Niterói, lembra que foram vendidos cerca de 15 milhões de exemplares do dicionário, ''somadas as versões originais, minidicionários e outros subprodutos lançados a partir do dicionário original''.

Segundo ele, o leitor ainda compra o Aurelio em papel, ''mas pouco, por causa das edições digitais, inclusive do aplicativo. A mais recente edição impressa é a de 2010, já na Editora Positivo''.

A ideia do seu livro surgiu há cinco anos. Conta Motta: ''Fui entrevistar Joaquim Campelo, então diretor editorial do Senado, para o livro sobre o Jornal do Brasil que escrevi, Até a última página: uma história do Jornal do Brasil, da Editora Objetiva. Campelo participara da reforma gráfica do JB no fim da década de 50 e nessa época encontrei-o deprimido com a derrota que havia sofrido em última instância, no STF, na disputa judicial com a família de Aurélio Buarque de Holanda. Em 2003, pela segunda vez, ela havia cancelado seus direitos autorais relativos ao dicionário ao assinar contrato com uma nova editora, a Positivo, do Paraná''.


A equide do Dicionário Aurélio
''Campelo me contou a história'', diz Motta, ''que eu já conhecia por alto. Quando o Aurélio foi lançado, em 1975, eu trabalhava na Rádio Jornal do Brasil e a frase corrente na redação do jornal era 'sem o Campelo, não haveria dicionário'. Aurélio era um dos dois maiores lexicógrafos do Brasil – o outro era Antônio Houaiss. E o dicionário tem a marca do seu brilho''.

''Mas Joaquim Campelo foi o lado prático da obra, foi quem viabilizou tudo. Chegou até a pagar salários a Aurélio e aos colaboradores do seu próprio bolso. Ele montou uma equipe e uma redação, conseguiu contratos com editoras até chegar à Nova Fronteira, além de ter sido o coordenador do grupo que trabalhou no dia a dia. Mas a família do Aurélio por duas vezes o excluiu dos direitos autorais, e na segunda, de forma definitiva''.

Cezar Motta achou, com justa razão, que a história daria um bom livro, acrescido o fato de o dicionário é uma experiência semelhante às de outros grandes como o Oxford, o Webster e o francês Littré. ''Os lexicógrafos eram personagens que dedicaram suas vidas a esse tipo de sacerdócio''.

Era uma boa história, ele lembra, contar sobre como, após muitos obstáculos, o Aurélio foi lançado. ''A grande dificuldade para publicá-lo, além da fama que o mestre Aurélio Buarque de Holanda tinha de não cumprir prazos, era o custo industrial da edição de um dicionário. Para que o Carlos Lacerda, que era o dono da editora Nova Fronteira, topasse, foi necessária a intervenção de várias pessoas. Dentro da própria editora, o maior aliado de Campelo foi um jovem advogado, Roberto Riet''.

Houaiss e Aurélio conversam no dia da posse do segundo na Academia Brasileira de Letras (27/08/1971)

''Lacerda advertia'', relata Motta: 'Roberto, esse dicionário pode quebrar a editora'. Mas Riet buscou respaldos técnicos, e o principal deles foi o jornalista Jânio de Freitas, responsável pela reforma gráfica e editorial do JB, que foi dono de editoras e é um bibliômano, em sua própria definição. Jânio e Riet passaram algumas tardes fazendo cálculos sobre custos industriais, tipo de papel etc. enquanto consumiam poire, o licor de pêra francês, e muitos maços de cigarros''.

''Jânio não aconselhava o papel bíblia porque não resistia muito ao excesso de manejo. Mas um papel mais grosso transformaria a obra em tijolo quase impossível de manejar. A Nova Fronteira estava bem capitalizada por sucessos como O Exorcista, de William Peter Blatty, vitaminado pelo filme nele baseado e de grande sucesso, e por outras boas tacadas no mercado''.

''O empurrão decisivo', diz o autor de Por trás das palavras, ''para convencer Lacerda veio do amigo e escritor José Condé, que era também amigo de Aurélio, um pernambucano de Caruaru e que publicava na revista O Cruzeiro os seus Arquivos Implacáveis - manuscritos de obras primas, informações, fotos de família e anotações que 'roubava' de amigos escritores como Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Jorge Amado etc. 'Vai ser um sucesso, um estouro', previu Condé. E foi então que Lacerda se convenceu e deu o sinal verde''.

Depois, se abriu um outro capítulo dessa saga que envolveu diretamente o jornalista Joaquim Campelo Marques, de 87 anos, ex-assessor parlamentar da presidência do Senado, na sua mais recente etapa- aquela que foi parar no Supremo.

''Mas'', define muito bem Motta, ''acima de tudo, Por trás das palavras é um livro sobre ousadia, paixão e cobiça: paixão pelas palavras, ousadia em registrar e compartilhar os signi­ficados de centenas de milhares de termos e expressões da língua portuguesa, e cobiça pelo prestígio e dinheiro decorrentes do sucesso do dicionário''.

Conteúdo Relacionado