Leituras

A falsa ''inovação'' da escola

Do sociólogo francês Christian Laval, o volume 'A escola não é uma empresa' é lançado em nova edição, com prefácio inédito do autor onde ele lembra que ''os governos continuam a favorecer as universidades particulares''

29/08/2019 17:12

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Em A escola não é uma empresa, o sociólogo francês Christian Laval discute a crise de legitimidade da escola em tempos de avanço neoliberal e coloca em xeque os valores embutidos em termos hoje correntes na educação, como ''inovação'' e ''eficiência''.

A obra faz um diagnóstico geral das mudanças nos sistemas educacionais influenciadas pelo chamado neoliberalismo escolar.

Laval mostra como o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, entre outros órgãos, pressionam os sistemas de educação nacionais a fazer com que as instituições de ensino e os profissionais que nelas trabalham se moldem às necessidades do capitalismo contemporâneo.

Vendidas como modernizadoras, medidas como as provas padronizadas e idéias como as de capital humano e de competências e habilidades se prestam mais a atender interesses do mercado que à formação e emancipação dos estudantes.

A Boitempo publica esta obra pioneira, que serviu de alerta para a luta em defesa da escola pública na França, em uma nova tradução.

E aqui reproduzimos trechos do prefácio inédito de Laval para a nova edição brasileira de A escola não é uma empresa.

'' Este livro tem história. Foi publicado pela primeira vez na França em 2003. E foi recebido com grande satisfação por muitos leitores, porque finalmente lhes proporcionava um quadro global de análise para compreender transformações parciais, localizadas, em geral insidiosas e discretas, que eram vistas com muita dor por professores, alunos e pais, mas não possuíam uma caracterização sociológica e política clara. No início dos anos 2000, era importante mostrar a coerência, o caráter sistêmico e o significado histórico dessas transformações. Era preciso dizer que o que estava acontecendo tinha um nome, seguia um conceito: o neoliberalismo escolar. Apesar das ressalvas no início, especialmente da parte dos principais sindicatos de professores, esta análise foi encampada por uma parte ampla do mundo docente e contribuiu para que certas mudanças pelas quais outros países estavam passando fossem objeto de uma poderosa contestação.

É uma grande, e talvez, rara felicidade para um autor constatar que um livro pode contribuir para a conscientização e ter um efeito político de longo prazo. A introdução do financiamento por publicidade ou patrocínio de atividades escolares permaneceu restrita, e ainda hoje na França há uma forte resistência ao aumento das taxas de matrícula nas universidades.

Isso não significa que essa última transformação não acabará acontecendo: os sucessivos governos continuam a favorecer as universidades particulares, a atribuir estatutos derrogatórios a algumas universidades públicas e ainda, como foi decidido no fim de 2018, a aumentar consideravelmente as taxas de matrícula para os estudantes estrangeiros.

A resistência já era visível no momento em que este livro estava sendo escrito. Vinha de uma estratégia ''incremental'', pensada como tal pelos promotores do neoliberalismo escolar: consiste em mudar o funcionamento do sistema educacional por meio de medidas isoladas, que atingem zonas específicas do sistema, de modo que só adquirem sentido quando são relacionadas umas com as outras. Se A escola não é uma empresa pôde servir de alerta e contribuir com certo peso na luta em defesa da escola pública e democrática na França, foi porque ousou fazer um diagnóstico de conjunto a partir de medidas e mudanças que até aquele momento não haviam sido interligadas umas às outras''.

Título original: L’école n’est pas une entreprise
Tradução: Mariana Echalar

Disponível nas livrarias a partir de 4 de setembro

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