Leituras

A história através dos 'Diários Intermitentes' de Celso Furtado

 

20/11/2019 17:51

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FURTADO, Celso. Diários Intermitentes: 1937-2002. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 448p.

Os Diários Intermitentes: 1937-2002constituem uma belíssima obra do autor que segundo Francisco Iglésias foi o maior intelectual brasileiro da segunda metade do século XX. É sem dúvida a sua obra mais pessoal – muito mais que os três volumes da sua autobiografia[1]. Como bem nos conta João Antônio de Paula em seu prefácio de grande erudição, essa publicação é uma obra de literatura pessoal[2]. Segundo ele a sua rica qualidade memorial, permite alçar essa obra entre os celebres memorialistas brasileiros, isto é, entre as importantes memórias de Gilberto Amado, Pedro Nava, Murilo Mendes, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade. E a nosso ver não há aí um exagero, pois, ao expor-se intimamente, percebemos fluir a riqueza dos momentos-chave da história política brasileira nos quais Furtado participou – que vão do final do primeiro governo Vargas até o governo Fernando Henrique Cardoso, passando é claro, por Juscelino, Jânio, Jango, a ditadura civil-militar e Sarney –, expressando a sua relevância como intelectual público.

Tais relatos expõem as alegrias, as frustrações, as esperanças, as tristezas que a vida de um intelectual público, que tinha como missão – algo que podemos ver se aclarando para a figura do jovem Furtado – entender o Brasil, transformar o país a partir da superação dos seus impasses, e construir um desenvolvimento que permitisse a melhora das condições de vida da população, que integrasse desenvolvimento, democracia e liberdade, garantindo o pleno desenvolvimento das capacidades humanas. Daí entendemos a sua participação na direção da Sudene, seu papel no processo de redemocratização e sua oposição crítica à esquerda brasileira em muitos momentos.

Essa obra traz uma faceta interessante do memorialista Celso Furtado, que são as análises de algumas figuras públicas de relevo nacional a partir de sua impressão pessoal. São análises que revelam as facetas pessoais, os limites e qualidades de figuras como Juscelino Kubitschek, Brizola, Josué de Castro, Tancredo Neves, José Serra, Mario Covas, Raúl Prebisch, Ulysses Guimarães, Roberto Campos, Waldir Pires, Villa Lobos, Don Helder Câmara, dentre outros.

Os Diários cobrem um período de 65 anos, que se estendem dos 17 aos 82 anos de Celso Furtado. Como o próprio título indica, existem lacunas e períodos não retratados nos diários; todavia, por outro lado, encontramos uma grande riqueza de relatos que informam sobre a história da cultura política brasileira dos anos 1930 até os anos 2000. E aí está o seu valor! Para além de um intelectual público que integra o quadro do Pensamento Político Brasileiro como um economista, esta publicação deixa ainda mais latente para o pensamento de Celso Furtado a centralidade da política como elemento estruturante do poder. As páginas dos Diários Intermitentes estão permeadas de uma concepção furtadiana já presente na década de 1960, quando o quadro econômico e social se dramatizava e a situação política era de instabilidade: “[...] política econômica é política antes de ser economia.”[3]Talvez seja essa a importância dessa nova publicação de Celso Furtado, por luz à centralidade “do político” para a construção do desenvolvimento.

Após esta breve apresentação da obra, passemos então aos dez capítulos que integram os Diários Intermitentes.

O capítulo inicial, “João Pessoa e Recife, 1937-1939”, conta os anos do fim dos estudos no Liceu Paraibano em João Pessoa, a preparação para a concessão do certificado de reservista do exército e sua estadia em Recife para cursar o pré-jurídico no Ginásio Pernambucano. Em seu retorno a João Pessoa estudou no período noturno no Instituto de Educação. Esta seção traz uma passagem premonitória na qual Furtado em 20 de agosto de 1938 registra a ideia de escrever uma história da civilização brasileira.

            O segundo capítulo, “Rio de Janeiro, 1940-1946”, em função da organização editorial, exclui o período no qual Celso Furtado, em serviço militar, como oficial do Exército Brasileiro, participa da 2ª Guerra Mundial. Não obstante, o período de descobertas e aventuras de Furtado, marcam sua chegada à capital do Brasil. Trata-se do período em que cursa direito na Faculdade Nacional de Direito, trabalha como jornalista na redação da Revista da Semana e como assistente de revisor no Correio da Manhã, é aprovado em concurso e passa a trabalhar no DASP, bem como, diz respeito aos três anos de serviço militar – que inicia-se com o CPOR e termina com um ano na guerra. É um momento de descobertas culturais – artísticas, musicais e patrimoniais[4] – riquíssimas, mas também um período muito atarefado e extenuante para o jovem Furtado. É relevante destacar que comparece pela primeira vez as primeiras linhas sobre política, Furtado critica a atuação dos parlamentares na Assembleia – “[...] estão desinteressados ou divorciados da realidade brasileira.” (p. 72) –, aponta para a reforma agrária, para a questão econômica do país e o orçamento do Ministério da Fazenda.

            O terceiro capítulo, “A guerra na Itália, 1945”, remete ao período que Furtado serve como oficial do Exército na 2ª Guerra Mundial. Para além de um relato pessoal da sua trajetória na Itália junto a FEB e o 5º Exército Americano, é um momento no qual Celso Furtado reflete sobre a sua existência e repensa seu plano de vida. O autor revela seu desejo – e vocação pessoal – para escrever sobre “política, administração, ciências sociais.” (p. 88). O ponto alto dessa seção é a sua reflexão sobre como o fascismo corrompeu a moralidade de uma Nação, fragmentando-a de tal modo, que a mesma perde o seu sentido coletivo.

            O quarto capítulo, “Paris, 1947-1948”, é sem dúvida uma bela seção. Traz um balanço do trabalho de recuperação da economia inglesa, bem como da vida em Londres. Do mesmo modo, traz um relato da vida política e cotidiana na capital da França no pós-guerra – momento lido por ele como “[...] mais agudo de sua grande crise social.” (p. 98). Revela também o grande interesse de Furtado por Marx e Engels, pelo marxismo e pela crítica ao marxismo. Nesse período, Celso Furtado visita Londres – indo a London School of Economics –,a Tchecoslováquia e a Bósnia. Trata-se de um momento de formação na Sorbonne, estudando um semestre no Institut d’Études Politiques, cursando as disciplinas: História do Socialismo; Marxismo; História dos Fatos Econômicos; e, Princípios Econômicos e Políticos. No semestre seguinte cursa o doutorado em economia na Faculté de Droit et Sciences Economiques, na Universidade de Paris. Além de trazer o aflorar do caráter humanista do autor, este capítulo também apresenta duas passagens a nosso ver reveladoras: primeiro, uma crítica à carência de uma imprensa no Brasil que defenda a democracia; e, segundo, em 07 de maio de 1948, escreve sobre a desigualdade no Brasil, numa crítica a distribuição desigual da renda e da riqueza, origem – segundo ele – da miséria do povo brasileiro.

            O quinto capítulo, “América Latina, 1951-1958”, perpassa o período cepalino (ao todo foram 9 anos), bem como a sua presidência no Grupo Misto Cepal-BNDE[5], e ainda, seu período na King’s College da Universidade de Cambridge entre 1957-1958 – onde foi escrito Formação Econômica do Brasil. O capítulo retrata as viagens a Costa Rica, Bolívia, Panamá, França, México, Equador, Turquia, U.K. e Brasil. Há um importante relato de um encontro entre Vargas e Prebisch, no qual foi discutida a importância da Cepal para o desenvolvimento latino-americano. A seção ainda traz dois traços relevantes do caráter de Celso Furtado: a defesa da iniciativa e participação do Estado como indutor em certos setores da economia; e a defesa da soberania nacional, compreendida a partir do princípio ideal da cooperação internacional, tendo em vista em nosso caso, a integração econômica latino-americana. A título de curiosidade, comparece também um interessante esboço de plano de escrita de um romance histórico.

            O sexto capítulo, “Brasil, 1958-1964”, certamente o mais rico, traz talvez o que de mais importante e singular encontramos nos Diários, a vida e atuação política antes do golpe civil-militar de 1964. Esta seção traz o trabalho político de convencimento realizado por Furtado em prol da Sudene, a articulação política para a criação e aprovação da Sudene, bem como o jogo político articulado pelos governadores do nordeste, pelos deputados e pela a presidência da república, e ainda, a sua repercussão na opinião pública. Temos também uma interessante análise política partidária do Brasil até o início dos anos 1960[6] – com a constatação que o jogo político esteve sempre à direita. Do mesmo modo, há um diagnóstico dos limites da “forças nacionalista” a partir da dissecação da figura de Roland Corbisier e das disputas internas no ISEB. Presentifica-se uma forte crítica à ideia ortodoxa da crença no automatismo do mercado e também à corrente monetarista. Essas páginas expressam uma categórica furtadiana: o subdesenvolvimento não é apenas econômico, o problema do subdesenvolvimento é político muito mais que econômico – afirmação que comparece em seus diários como também defendida por Arthur Lewis. Essa categórica fica clara quando Furtado descreve a estratégia do “approach indireto” que é aplicado pela Sudene em seu trabalho no Nordeste. Furtado deixa claro que o problema da região era político – ele questiona de forma argumentativa: quem faz a política? Como é feita? Para quem a política era feita no Nordeste? E é justamente a partir do redirecionamento do lócus do poder que Celso Furtado conduz as transformações nas estruturas socioeconômicas do Nordeste – a própria industrialização da região visava constituir “uma fonte autônoma de poder fora da agricultura.” De maneira triste, mas certo do papel importante que cumpriu a Sudene sob o seu comando, o capítulo se encerra com uma passagem que informa sobre o decreto de intervenção militar da Sudene em 27 de abril de 1964. Inicia-se então o seu exílio.

            O capítulo “Exílio, 1964-1983” é certamente o mais “pesado” do livro, no qual o sentimento de derrota e desilusão afloram fortemente no autor. Com destaque para a passagem que conta do seu retorno à França depois de seis meses lecionando na PUC de São Paulo, no qual relata que o Brasil se distanciara por demais do que fora pensado e tanto lutado por sua geração – tido por ele como retrato do “fracasso da sua geração”. Essa seção traz também um relato triste sobre o golpe ocorrido no Chile e um balanço da atuação da Sudene no Regime Militar. Já em 1976 Celso Furtado identifica uma série de contradições que levariam ao esgotamento do Regime Militar no Brasil. Em seus retornos ao Brasil a partir de 1974 – cada vez mais frequentes – Furtado reitera a centralidade do “político[7]” para o desenvolvimento, afirmando a necessidade de uma refundação do político para que houvesse uma mudança nos rumos do país.

            O capítulo “Redemocratização, 1984-1985” é riquíssimo, sobretudo, pois traz os bastidores do processo político em torno da construção do consenso para a eleição indireta sob a égide de Tancredo Neves, bem como os trabalhos da Comissão para o Plano de Ação do Governo – COPAG (que foi responsável por elaborar as ações para os primeiros 100 dias do governo Tancredo) e as disputas por cargos e posições-chave no governo federal e ainda as disputas eleitorais nos estados e nas capitais. Várias figuras que tiveram papel relevante nas discussões e rumos do país comparecem no convívio com Celso Furtado no período, dentre eles: entre os economistas, João Manuel Cardoso de Mello, Luiz Gonzaga Belluzzo, Luciano Coutinho, Maria da Conceição Tavares, Dércio Munhoz, José Serra, Carlos Lessa, e outros; entres os políticos, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Renato Archer, José Gregori, Waldir Pires, Severo Gomes, Pedro Simon, Euclides Scalco, Franco Montoro, Jarbas Vasconcellos, Miguel Arraes, Roberto Gusmão, Fernando Gasparian, Edgar Amorim, dentre outros. Celso Furtado nos apresenta uma crítica e lúcida análise do caráter da Aliança Democrática. E revela também uma campanha de intrigas – articulada dentro e fora do PMDB (partido no qual se filiara em agosto de 1981) – que visava inviabilizar o nome de Celso Furtado para qualquer cargo-chave no governo Tancredo.[8] Essa seção traz um relato íntimo de Celso Furtado, ao confirmar a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985, ele relata: “Senti-me recompensado dos esforços e lutas de 20 anos.” Era também uma vitória sua o processo de redemocratização do Brasil.

            O capítulo “Ministério da Cultura, Constituinte, 1986-1988”, o penúltimo dos Diários Intermitentes, revelam o incansável trabalho político partidário e ministerial realizado por Celso Furtado. É um período de grande articulação político-partidária – sobretudo, ao lado de Ulysses Guimarães – e de muitas concessões do autor no intuito de garantir a reconstitucionalização e democratização do país. Esse rico interregno relata as disputas internas no PMDB – e seu racha antes da votação do texto da Constituinte (no qual surge da dissidência o PSDB[9]) –, as dificuldades partidárias frente ao governo Sarney e frente o processo da Constituinte. Do mesmo modo, traz os bastidores do processo da Constituinte, acompanhadas em loco por Celso Furtado, com especial destaque para a discussão e o dissenso sobre as questões de tempo de mandato e sobre parlamentarismo ou presidencialismo. Esse período aponta inúmeras discussões, análises e conselhos sobre os desafios do Plano Cruzado, da dívida externa e da inflação. Celso Furtado era constantemente consultado pelo presidente Sarney e pelas várias figuras que ocuparam postos-chave na condução da política econômica no período. Esta seção ainda relata o trabalho de organização do Ministério da Cultura. Sua gestão cria a primeira legislação brasileira de incentivos fiscais à cultura, trabalhando em novas formas de descentralizar e democratizar a política cultural no país.[10]

O capítulo derradeiro, “Balanços, sínteses,1988-2002”, inicia com a autoconsciência da sua tarefa intelectual: produzir ideias que servissem à nova geração. No início dos anos 1990 Furtado faz a defesa do desenvolvimento ancorado no mercado interno brasileiro em oposição a uma política de abertura indiscriminada – que segundo Furtado resultaria na marginalização crescente de parcelas da população através do aumento considerável do desemprego e do subemprego. No contexto do referendo de 1993, Celso Furtado defende para o caso brasileiro a república e o parlamentarismo como matrizes,segundo ele, as opções institucionais mais adequadas. No mesmo período, há uma passagem importante que reflete uma posição do autor ao longo de toda a sua vida: a defesa de uma verdadeira “política econômica pública”. Furtado critica o processo de globalização, advogando a necessidade de uma ação do Estado de forma conjunta com a sociedade civil para anular, ou mesmo reduzir os danos do processo de exclusão social gerado pela globalização no Brasil. Esta última seção traz uma forte crítica ao governo de Fernando Henrique Cardoso bem como a sua atuação frente à crise do câmbio em 1999. Essa crítica leva o autor a defender a necessidade da luta por uma reestruturação do sistema financeiro internacional – algo que mesmo depois do crash de 2008 ainda não ocorreu. Os Diários trazem como último tema de reflexão a defesa da luta pela nossa “soberania nacional”, o que para Furtado é central para a garantia do nosso autogoverno e de nossa autonomia.

Este é um livro fundamental para conhecer a figura humana de Celso Furtado. Do mesmo modo, é uma obra que abre caminho para releituras e novas interpretações do longevo e potente pensamento furtadiano, tão necessário em tempos de carência democrática, de ataque as instituições da República e de crescente déficit de soberania nacional.

Rafael Pacheco Mourão é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais., elaborando tese sobre a república democrática de Celso Furtado. É membro do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras)

[1]FURTADO, Celso. Obra Autobiográfica. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 639p.
[2]A qual abarca confissões, diários, autobiografias, memórias e também correspondências.
[3]FURTADO, Celso. Subdesenvolvimento e Estado democrático. Recife: Comissão de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, 1962. p. 23.
[4] Celso Furtado compreendeu desde cedo o valor da cultura para a formação e a felicidade humana.
[5]Cujos trabalhos serviram de base para o Plano de Metas do Governo JK.
[6]Ao longo dos Diários percebemos que Furtado era um arguto analista de contextos e conjunturas.
[7]No sentido leffortiano do termo. Cf. LEFORT, Claude. Pensando o Político: ensaios sobre a democracia, revolução e liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
[8]Essas intrigas são frutos da sua ativa vida política no período, na elaboração de programas, campanhas eleitorais, conferências e debates. Sua postura firme sobre a questão da dívida externa, da inflação e em defesa da recuperação da soberania nacional no plano internacional, era vista de forma negativa pelos interesses financeiros, locais e internacionais constituídos.
[9]A seção traz inclusive uma conversa com Fernando Henrique Cardoso, que lhe confidencia a intenção dele e de alguns dissidentes em fundar um novo partido para fazer oposição.
[10]Como nos informa Rosa Furtado, logo no primeiro ano o Ministério da Cultura realizou 5 mil projetos culturais em todo o país e dobrou o orçamento dedicado a cultura.



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