Leituras

A hora e a vez de Frantz Fanon

É oportuno (re)visitar a leitura dos 'Escritos políticos', volume recém lançado do destacado pensador da periferia do mundo nos anos 50-60 do século passado

09/06/2021 15:25

 

 
Colonialismo, capitalismo, racismo. São os três eixos interdependentes em que se construiu a obra do médico psiquiatra, militante inteiramente dedicado à causa da independência da Argélia e pensador da mais luminosa esquerda política, o martinicano Frantz Fanon (1925-1061). O autor de clássicos que mobilizaram boa parte de grupos da contracultura profunda dos anos 50/60 vem sendo agora revisitado e mais do que nunca é leitura necessária neste momento de encruzilhada da nossa contemporaneidade e do belo movimento de articulação organizada pelos diversos grupos antirracistas deste país.

O lançamento do momento é o volume de Fanon, Escritos políticos, pela Editora Boitempo, uma seleção de textos jornalísticos históricos de autoria do pensador e produzidos entre 1957 e 1960 para o jornal El Moudjahid, o arauto da Frente de Libertação Nacional da Argélia da qual ele foi destacado lutador.

Num estilo corajoso e sem academicismos, às vezes poético, e sempre franco e aberto, esses textos de Fanon seguem o cotidiano do colonialismo francês na Argélia, o desenvolvimento da luta de libertação nacional do povo argelino e a formação de um movimento internacional dos países colonizados e do terceiro mundo em meados do século XX.

Mostram como é indispensável o autêntico trabalho de agitação política e as estratégias de agitprop direcionadas para conflitos de grande escala - como os de rua envolvendo multidões, e a revolução.

Extremamente bem produzido, no volume estão presentes três das lideranças mais brilhantes dos movimentos antirracistas brasileiros. A deputada Talíria Petrone escreve na orelha do livro: "É inspirador ler sobre um povo tomando para si a própria história''.

O professor Deivison Mendes Faustino, autor do prefácio, anota em boa hora: ''Alguns fantasmas enfrentados por Fanon, no entanto, ainda hoje nos assombram: a dificuldade das esquerdas - revolucionárias ou institucionais - para entender a relação entre capitalismo, colonialismo e racismo; as permanências e atualizações do (neo)colonialismo e suas diversas manifestações de colonialidade do ser, do saber e do poder (...)''.

E o historiador Jones Manoel da Silva, também professor, escritor e comunicador popular no YouTube, apresenta, sucinto, em um texto irretocável, a breve e empolgante trajetória do autor nascido na Martinica: ''(...) Fanon compreendia que só a praxis revolucionária pode construir o homem novo e destruir o colonialismo (...)''.

Relembrando a breve vida de Fanon, que morreu aos 36 anos, num hospital, vítima de leucemia, meses antes da libertação da Argélia, Jones Manoel percorre a trilha iniciada pelo jovem estudante do liceu particular onde ele estudou, em Fort-de-France, como filho que era de família de classe média abastada da Martinica.

Quando muito jovem lutou na resistência francesa contra a ocupação e contra o governo francês de Vichy e ao terminar a guerra estudou Medicina e Psiquiatria em Paris. Dedicou sua vida à luta pela independência da Argélia, na corajosa Frente Nacional de Libertação.

O primeiro livro de Fanton publicado foi o conhecido Pele negra, máscaras brancas, obra de conclusão do seu curso. É um estudo crítico do racismo, tendo sido rejeitado, na ocasião, pela banca que o examinou. Mas foi o fascinante Os condenados da terra que consolidou sua posição como ''um dos 'principais pensadores do terceiro-mundismo, do pan-africanismo, do anticolonialismo e do marxismo periférico'', registra Jones Manoel.

O prefácio de Les damnés de la terre é de Jean-Paul Sartre, que conheceu Fanon em Paris - quando se conheceram os dois passaram quase um dia inteiro conversando. O livro é um autêntico roteiro precioso sobre a revolução iraniana, a resistência dos negros nos Estados Unidos, as guerrilhas comunistas na Índia e as lutas revolucionárias em todos os lugares distantes dos grandes ''blocos políticos''. Foi essa obra que catapultou o autor para a linha de frente dos movimentos de esquerda, da ''periferia do sistema''.

Como escreve Jonas Manoel concluindo seu texto, no final de Escritos políticos: ''Mais recentemente, com a falência da promessa neoliberal e a intensificação das lutas na periferia do sistema capitalista, ocorre uma ' redescoberta' da obra fanoniana (...)''

E as palavras de Sartre, no seu célebre prefácio de Os condenados da terra completa o pensamento de Manoel e parecem escritas nos dias de hoje: '' Servir-nos-á bem a leitura de Fanon; essa violência irreprimível, demonstra-o plenamente, não é uma absurda tempestade nem a ressurreição de instintos selvagens, nem sequer um efeito do ressentimento: é o próprio homem que se reintegra''. E para quem tenta comprar a boa consciência, Sartre adverte: ''As nossas belas almas são racistas''.

É oportuno portanto, neste momento, revisitar a obra de Frantz Fanon e refletir na sua advertência que vem bem a propósito para o que se vive atualmente no Brasil: ''Uma sociedade que encurrala os seus membros em soluções desesperadas é uma sociedade inviável; é uma sociedade a ser substituída''.

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Para a degustação do leitor, um trecho de um dos textos de Escritos políticos: ''Por sua própria natureza, a revolução argelina não pode deixar de brilhar e suscitar ajuda e simpatia no exterior. Foram-se os tempos sombrios em que a mártir Argélia gemia como numa imensa masmorra. Quebrando as correntes e as grades, o povo argelino retomou o contato com os povos irmãos. A revolução argelina, segura do apoio de todas as forças de liberdade, já é vencedora. Todas as estratégias colonialistas estão fadadas ao fracasso. Não está longe o dia em que toda a Argélia estará interditada para o Exército francês''.



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