Leituras

A luta implacável de frei Tito

 

23/05/2021 14:50

 

 
Como observa o filósofo brasileiro Vladimir Safatle em seu prefácio, este livro é importante. Não somente porque ao contar a história de Tito de Alencar (1945-1974), sequestrado e torturado pela ditadura antes de seu exílio na França e seu suicídio, Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles nos ajudam a entender melhor a história contemporânea do Brasil e América Latina; mas também, e sobretudo, porque, no contexto brasileiro de esquecimento forçado, “o uso da memória é um ato político importante”. Esta é também a opinião do frei Xavier Plassat, amigo de Tito durante seus últimos anos de vida, para quem esta obra é um "ato de memória insurgente", capaz de despertar em seus leitores "a capacidade de indignação".

O que contam Leneide Duarte-Plon - autora de um outro livro memorável, sobre a tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil (não traduzido para o francês) - e Clarisse Meireles é a trágica história desse jovem dominicano brasileiro, Tito de Alencar, que pagou com a vida por seu envolvimento em ações contra a ditadura brasileira (1964-1985). Ativista da Juventude Estudantil Cristã (JEC), que ingressou na ordem dominicana em 1966, Tito compartilhou com seus irmãos do Convento das Perdizes, em São Paulo, a mesma admiração por Che Guevara e Camilo Torres, e o desejo de associar Cristo e Marx na luta pela libertação do povo brasileiro.

Essa radicalização da juventude cristã é anterior ao Concílio Vaticano II: em 1962, os ativistas da JEC, leitores de Emmanuel Mounier e do Padre Lebret, fundaram um movimento socialista humanista, a Ação Popular. Tito se aproximou dessa corrente, que era hegemônica no movimento estudantil, e contribuiu para a organização clandestina, em 1968, do congresso da União Nacional dos Estudantes na cidade de Ibiúna. Como todos os delegados do congresso, ele será preso pela polícia nessa ocasião, mas logo será libertado.

Legenda da foto: Tito de Alencar nos Alpes franceses, fotografado por seu amigo Daniel Béghin (verão 1974) © Arquivo pessoal Magno Vilela

Após o endurecimento da ditadura militar em 1968 e a impossibilidade de qualquer protesto legal, a ala mais radical da oposição à ditadura adotará a luta armada. A principal organização dessa luta contra o regime será a Ação Libertadora Nacional (ALN), fundada por um líder comunista dissidente, Carlos Marighella. Um grupo de jovens dominicanos - Frei Betto, Yvo Lesbaupin e outros – se engajará na ALN, sem pegar em armas, mas fornecendo apoio logístico; sem estar entre aqueles que colaboram diretamente com Marighella e seus companheiros, Tito de Alencar é solidário com o engajamento deles. Como eles, ele acredita que o Evangelho contém uma crítica radical da sociedade capitalista; e, como eles, acredita na necessidade de uma revolução. Ele escreverá mais tarde, “a revolução é a luta por um novo mundo, uma forma de messianismo terreno, no qual existe uma possibilidade de encontro entre cristãos e marxistas”.

Em 4 de novembro de 1969, durante a noite, o delegado Fleury e seus homens invadem o convento de Perdizes e prendem vários dominicanos, inclusive frei Tito. A maioria será torturada e suas confissões permitirão à polícia arquitetar uma emboscada para Carlos Marighella e o assassinar. Tito não tinha as coordenadas da ALN e respondeu negativamente a todas as perguntas. Foi torturado duas vezes, no final de 1969 e início de 1970, primeiro por Fleury, depois nas dependências do serviço de inteligência do Exército brasileiro - referido pelos próprios militares como "a sucursal do inferno".

Ele foi pendurado em Pau de Arara – tortura em que os punhos presos aos pés e o corpo do torturado é suspenso por uma barra de ferro sob o joelho -, foi espancado, submetido a choques elétricos por todo o corpo, inclusive na boca, preso à “Cadeira do Dragão”, uma instalação de ferro ligada à eletricidade. Para escapar de seus algozes, Tito tenta se matar com uma lâmina de barbear. Internado no hospital militar, recebe a visita do cardeal de São Paulo, Agnelo Rossi, triste figura solidária aos militares e que se recusa a denunciar as torturas infligidas aos dominicanos.

Finalmente enviado para uma prisão “comum”, Tito escreve um relato de seus sofrimentos que será publicado pela revista norte-americana Look e distribuído no Brasil por ativistas da resistência, com considerável repercussão. O Papa Paulo VI acaba por condenar "um grande país que aplica métodos de interrogatório desumanos" e substitui Agnelo Rossi por Paulo Evaristo Arns, novo cardeal de São Paulo, conhecido por seu compromisso com a defesa dos direitos humanos e contra a tortura.

Legenda da foto: Igreja da Candelária, noite de 4 de abril de 1968: missa em memória do estudante Edson Luis, assassinado pela polícia brasileira em 28 de março. Os padres protegem os fiéis dos policiais a cavalo. Por Folhapress

Alguns meses depois, os revolucionários sequestram o embaixador suíço e o trocam pela libertação de setenta presos políticos, entre os quais Tito de Alencar. O jovem dominicano reluta em aceitar, pois mesmo a ideia de deixar seu país lhe é estranha. Os 70 serão banidos do país e proibidos de retornar. Depois de uma breve estada no Chile, Frei Tito se estabelece entre os dominicanos no Convento de Saint Jacques em Paris.

O exílio é um grande sofrimento para ele: “é muito difícil viver longe de sua pátria e da luta revolucionária. É necessário suportar o exílio como se suporta a tortura.” Ele participa de campanhas de denúncia dos crimes da ditadura e passa a estudar teologia e clássicos do marxismo: “eu aceito a análise marxista da luta de classes. Para quem quer mudar as estruturas da sociedade, Marx é essencial. Mas a visão de mundo que tenho como cristão é diferente da visão de mundo marxista.” O dominicano francês Paul Blanquart, conhecido pelas suas opções “à esquerda de Cristo”, o descreve como “o mais empenhado e o mais revolucionário dos dominicanos”.

Entretanto, com o passar do tempo, Tito mostra sinais cada vez mais preocupantes de desequilíbrio mental. Ele acredita que está sendo seguido e perseguido por seu torturador, o delegado Fleury. Em 1973, foi-lhe oferecido um local mais tranquilo: o convento dominicano de L’Arbresle, no Rhône. Ele se torna amigo do frei dominicano Xavier Plassat, que tenta ajudá-lo, e submete-se a tratamento psiquiátrico com o médico Jean-Claude Rolland. Em vão. Depois do golpe de Estado no Chile, em setembro de 1973, ele se torna cada vez mais angustiado, convencido de que Fleury ainda o persegue e que os dominicanos, ou as enfermeiras do hospital psiquiátrico, são acólitos do delegado. Finalmente, ao fim de suas forças, desesperado, em 8 de agosto de 1974, opta pelo suicídio por enforcamento.

Ignorando o direito canônico (que excomunga os suicidas), os dominicanos o enterram em seu convento. Vários anos depois, em 1983, Xavier Plassat faz com que seus restos mortais sejam transportados para Fortaleza, no Brasil, onde mora sua família e onde ele repousará definitivamente. Durante o funeral, vê-se em Fortaleza, próximo ao palácio episcopal, uma enorme faixa: “Tito, a luta continua!” A partir desta data, o frei Xavier Plassat irá se estabelecer no Brasil, onde se tornará o organizador da campanha contra o trabalho escravo da Comissão Pastoral da Terra: “meu trabalho aqui é uma herança deixada por Tito”.

Livro em francês

Autoras: Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles
Título : Tito de Alencar. Un dominicain brésilien martyr de la dictature
Prefácio de Vladimir Safatle
Prólogo de Xavier Plassat.
Tradução do português por Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles
Editora Karthala, coleção “Signes des Temps”, 308 p., 29 €

Livro em português

Autoras: Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles
Título : Um homem torturado – Nos passos de frei Tito de Alencar
Editora: Civilização Brasileira, 2014, 420 p.

*Publicado originalmente por En attendant Nadeau | traduzido por Caio Cursini

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