Leituras

A peste e os empesteados

Dois comentários sobre o clássico romance de Albert Camus, ''A peste'', e um excerto do livro que aborda, do ponto de vista existencialista, o que se passa durante a quarentena da cidade de Oran, na Argélia

24/04/2020 13:50

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Em janeiro passado, há sessenta anos, o escritor, filósofo e poeta Albert Camus morria instantaneamente, a cem quilômetros de Paris, em violenta batida do carro em que se encontrava, numa árvore de beira de estrada. Vinha do sul da França como carona do seu editor, Michel Gallimard, que dirigia o automóvel e também pereceu dias depois. Camus era moço. Tinha apenas 46 anos, mas já havia ganho o Nobel de Literatura e sua obra era festejada mundo afora em especial pela trilogia do absurdo - o romance O estrangeiro, o belo ensaio O mito de Sísifo e uma peça de teatro, Calígula, nos quais são encontrados os aspectos básicos da sua filosofia: o absurdo que é a existência humana.

Mas o escritor pied noir nascido na Argélia e um dos pais do existencialismo no pós guerra, junto com Jean-Paul Sartre - com quem sempre manteve uma relação de afeto e de animosidade - quando morreu já escrevera também A peste, lançada em 1947, considerada a sua obra maior e onde narra a história de homens que descobrem o que é a solidariedade em meio a uma peste que assola a cidade argelina de Oran; uma metáfora dos horrores da Segunda Guerra Mundial e onde são apresentados os efeitos que o flagelo de uma peste pode causar numa sociedade.

Para muitos, A peste de Camus é uma alegoria do período da ocupação dos alemães na França, época vivida intensamente por ele próprio como o maquis Camus. Num outro nível, Camus fala sobre a natureza do destino e sobre a condição humana nessa perspectiva de experiência limite.

Agora, mais de meio século depois, este que se encontra entre os seus mais célebres romances volta à cabeceira dos grandes leitores da sua poderosa obra, que o leram apaixonadamente quando jovens, e dos mais moços hoje que ainda não o conhecem - ou conheciam. A venda do volume esgotou em poucos dias, nas diversas livrarias das grandes cidades brasileiras pouco antes do começo do confinamento decretado no Brasil, depois do surgimento da covid-19 em Wuhan e da quarentena que já se iniciava em algumas partes da Europa.

A peste de Camus apresenta o ser humano diante de uma epidemia e a releitura, no caso, é a da atual pandemia que mantém o mundo paralisado, com a respiração em suspenso, tal a extensão do desastre sanitário e da hecatombe econômica que traz no seu bojo. O futuro, ninguém de bom senso se arrisca a dizer o que poderá vir a ser.

Os empesteados, as populações atingidas impiedosamente e reagindo ao sabor do medo, à beira do pânico, estão lá, em Camus. Os mais ''vulneráveis' -, eufemismo usado hoje para nomear pobres, negros, indígenas, idosos, sem teto, os trabalhadores (outro eufemismo) ''informais' se encontram lá e aqui.

A obra é uma das reflexões literárias que mais se identificam com a situação planetária vivida neste momento. Outras, também contundentes e vastamente conhecidas, são o Saramago de Ensaio da Cegueira, e o Gabriel Garcia Márquez de O Amor nos tempos do cólera.

Recolhemos duas reflexões sobre o livro e um excerto do texto do autor publicados recentemente. Como base geral, Camus fala de uma cidade isolada do mundo por uma pestilência e dos seus habitantes que permanecem alheios a ela porque "trabalham duro, mas apenas com o objetivo de enriquecer".

Entediados por seus hábitos, drogando-se pesadamente com a bebida e assistindo a muitos filmes para se distraírem, eles não conseguem entender o significado da morte. De ''como grita um corpo ainda quente e dos ratos que sofrem de peste e emergem de seu submundo para morrer nas ruas''.

''Para os moradores de Oran, a praga é 'impensável', é uma abstração. Até que todas as suas negações vão desaparecendo à medida que os vizinhos e famílias seguem morrendo da doença. 'A estupidez tem sempre um jeito de conseguir o que quer,' diz o narrador, o Dr. Rieux. Sempre somos tão egoistas que ''pestes e guerras pegam as pessoas igualmente de surpresa.''

Quem recentemente lembrou, como acima, desses e de outros trechos do livro e escreveu sobre A peste relacionando a praga de Camus à realidade atual dos Estados Unidos de Donald Trump foi o escritor americano Edward Curtin, professor de sociologia no Massachusetts College of Liberal Arts.

Ele anota: ''Pois vivemos em tempos de praga, e a praga vive em nós. Como os habitantes da cidade franco-argelina de Oran, os Estados Unidos por exemplo são "povoados por sonâmbulos", pseudo-inocentes, que estão principalmente conscientes de tudo que perturba o teor normal de suas vidas ou afeta seus interesses".

''O próprio governo, não importa qual partido político esteja no poder (ambos os partidos trabalhando para os interesses da elite do ''estado profundo'' e liderados por criminosos muito bem organizados da CIA), é o disseminador de uma praga mundial de extrema violência; e esse fato deve ser negado e divorciado da realidade de consenso.''

Curtin continua: '' Essas mortes causadas por pragas que atingem milhões de pessoas em todo o mundo - por Clinton, pelos Bush, por Obama e potencialmente por Trump - são negadas. Discussões de políticas partidárias que provocam indignação desviam a atenção delas e as impedem de enxergar a verdadeira praga, a base de uma nação que está em contínua luta contra o mundo; isto é evitado.''

''Hoje, são os liberais que estão "chocados" com Trump eleito presidente. São as mesmas pessoas que silenciaram nos últimos oito anos quando Obama devastou o mundo e mentiu sobre suas crueis políticas. O choque deles a respeito da vitória de Trump cheira a má-fé.''

''Outros "choques" vão ocorrer quando Trump deixar o cargo e o último avatar neoliberal o suceder; os conservadores retomarão suas discussões e protestos exatamente como fizeram durante o reinado de Obama. Os dois partidos sempre em guerra trocarão insultos quando seus seguidores se sentirem ultrajados e o Império Americano, construído sobre a doença da violência, seguirá adiante.''

''A praga continuará. Todos precisam dormir bem à noite”, diz o personagem Tarrou, no romance de Camus. É um homem que perdeu a sua capacidade de "dormir bem" desde que testemunhou a execução de um homem e as "balas que fazem um buraco no qual você pode enfiar o punho".

Ele perde toda a paz que tinha e promete a si mesmo resistir à praga de todas as maneiras possíveis. "Por muitos anos eu tenho vergonha", diz, "mortalmente envergonhado, de ter sido um assassino, mesmo com as melhores intenções, mesmo em muitos momentos".

''Os ratos estão morrendo nas ruas. Eles são nossos ratos, doentes por nós. Eles emergiram do submundo de uma nação atormentada por sua negação. O mal inconsciente borbulha. Nós somos um povo infectado. Preocupação e irritação não são sentimentos com os quais enfrentamos a praga".

''Mas não parecemos ter vergonha de nossa cumplicidade nos crimes de nosso governo em todo o mundo.''

Camus sabia. Ele nos alertou: "É exaustivo ser atingido por uma praga. Mas é ainda mais cansativo recusar combater a exaustão. É por isso que todos, no mundo, parecem tão cansados; todos estão mais ou menos cansados da peste. Mas é por isso que alguns de nós, aqueles que querem eliminar a praga de seus sistemas, sentem um cansaço desesperado.”

''Camus deixou uma lição viva de integridade diante da violência. Recuse sempre. Caso contrário, você será destruído por sua própria cumplicidade no mal.''

A segunda reflexão, abaixo, do professor livre-docente Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy pela faculdade de Direito da USP e doutor pela PUC/São Paulo caminha em outra direção. Diz ele:

''A peste é uma versão romanceada da filosofia existencialista. O livro trata da solidariedade que a todos devemos, da liberdade de escolha e da responsabilidade sobre nossas escolhas. Os tristes e preocupantes fatos dos últimos dias reposicionaram esse livro no centro das atenções de quem a respostas frívolas e não pensadas prefere uma reflexão mais séria sobre as contingências da vida. ''

''Em uma cidade do norte da Argélia (Oran é o nome), em 1940, um médico encontrou um rato morto ao deixar seu consultório. Noticiou o fato ao responsável pela limpeza do prédio, que se mostrou incrédulo. No dia seguinte, outro rato foi encontrado, morto, e no mesmo lugar. A esposa do médico tinha tuberculose e foi levada para um sanatório. O médico recebeu um jornalista francês que pretendia entrevistá-lo sobre as condições de vida dos árabes da cidade.''

''A quantidade de ratos parecia aumentar exponencialmente. Os ratos começaram a ser queimados. Em um único dia, oito mil ratos foram coletados e encaminhados para cremação. A cidade entrou em pânico. As pessoas sofriam com muita febre, e as mortes se multiplicavam. Decretou-se um “estado de praga”. Os muros da cidade foram fechados. Iniciou-se a quarentena. Famílias foram separadas. Os mais doentes foram conduzidos para outros pontos da cidade. O padre local fez um inflamado sermão dizendo tratar-se de um castigo divino e que a cidade o merecia. Estavam sofrendo. Mas mereciam, dizia o padre. Prisioneiros eram usados para movimentar e enterrar cadáveres. Os corpos se amontoavam nas ruas. Crianças morriam. O padre ainda achava que tudo decorria dos planos divinos. Afirmava que os cristãos deveriam aceitar o destino. O padre morreu.''

''Camus era um anticlerical. Mas era realista.''

''Em determinado momento, as mortes começaram a diminuir. Fechou-se um ciclo. As portas da cidade se abriram. As famílias, então separadas, começavam a se reunir. Acabou. A praga durou dez meses.''

''Esse livro estonteante é uma clara e direta crítica ao nazismo e à ocupação militar alemã, que humilhou e subjugou os franceses. Camus participou da Resistência, grupo que se insurgia contra os alemães que ocupavam Paris. Escrito ao longo da guerra, com a expectativa que de que a aflição passasse um dia, A peste é uma lembrança de que o pior sofrimento um dia se acaba.''

''Noites são escuras. Mas não são eternas. A peste é também discurso contra qualquer forma de opressão humana, da qual o nazismo revelava-se como a mais opressiva de todas. A peste é ainda atitude de incredulidade para com o absurdo, contra o qual conduz revolta necessária e libertadora.''

''Camus concluiu esse desesperado livro lembrando que o bacilo da peste não morre e não desaparece. Avisou-nos que o bacilo da peste fica “dezenas de anos a dormir nos móveis e nas roupas”. Ainda advertiu que a peste “espera com paciência nos quartos, nos porões, nas malas, nos papeis, nos lenços”. E quando volta, “para nossa desgraça, manda os ratos morrerem numa cidade feliz”. Trocando-se ratos e bacilos por outros vírus e pragas tem-se o quadro aflitivo que eu e o leitor vivemos. E os mais fragilizados mais ainda.''

''Tudo o que sustento é que nesta terra existem pestilências e vítimas, e cabe a nós, na medida do possível, não unir forças com as pestilências. Isso pode parecer simples a ponto de ser infantil. Não posso julgar se é simples, mas sei que é verdade. Muita clareza, pois essa era a única maneira de me colocar no caminho certo. ”

''Camus, embora sua vida e obra tenham sido interrompidas por um acidente automobilístico absurdo com uma passagem de trem não utilizada no bolso*, ficou com as vítimas. Ele estava no caminho certo. Ele nos deixou uma lição viva de integridade diante da violência.''

''Recuse sempre. Caso contrário, você será destruído por sua própria cumplicidade no mal. Você será atormentado por sua própria mão, foi a sua mensagem para nós.''

Para voltar ao texto original desta leitura tão necessária neste momento, rememoramos excertos do livro destacados pelo site The Intercept, no mês passado.

Completa e conclui o recado contido na herança inigualável do histórico autor franco-argelino.

Camus:

''A grande cidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços e inertes entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos, com seus falsos rostos de pedra ou de bronze, evocar uma imagem degradada do que fora o homem.

Esses e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes. Ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole.

Mas a noite também estava em todos os corações, e as verdades, como as lendas que se contavam sobre os enterros, não eram feitas para tranquilizar nossos concidadãos.

(...)

Não é que ele goste desse tipo de cerimônias, preferindo, pelo contrário, a sociedade dos vivos, e, para dar um exemplo, os banhos de mar. Mas, afinal, os banhos de mar tinham sido suprimidos, e a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar à sociedade dos mortos. Era a evidência. Na verdade, era sempre possível esforçar-se por não vê-la, fechar os olhos e recusá-la, mas a evidência tem uma força terrível que acaba sempre vencendo.

Qual o meio, por exemplo, de recusar os enterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados? Pois bem, o que caracterizava no início nossas cerimônias era a rapidez. Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa fúnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da família e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podia deslocar-se por estar de quarentena, caso tivesse vivido perto do doente. No caso de a família não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada da partida para o cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão.

(...)

Num extremo do cemitério, num local coberto de árvores, tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. Sob esse aspecto, as autoridades respeitavam as conveniências, e foi só muito mais tarde que, pela força das circunstâncias, este último pudor desapareceu e se enterraram de qualquer maneira, uns sobre os outros, sem preocupações de decência, os homens e as mulheres.

Para todas essas operações era preciso pessoal e este estava sempre prestes a faltar. Muitos desses enfermeiros e coveiros, primeiros oficiais, depois improvisados, morreram de peste. Por mais precauções que se tomassem, o contágio acabava por se fazer um dia. No entanto, quando se pensa bem, o mais extraordinário é que nunca faltaram homens para exercer essa profissão durante todo o tempo da epidemia.

(...)

Mas, a partir do momento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade, então seu próprio excesso provocou consequências bastante cômodas, pois ela desorganizou a vida econômica e suscitou assim um número considerável de desempregados.

(...)

Sabia também que, se as estatísticas continuassem a subir, nenhuma organização, por melhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas praças públicas, os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de ódio legítimo e de estúpida esperança.”

Para o leitor e aficionado de Camus, uma informação sobre o seu outro romance também célebre, O estrangeiro: o filme nele baseado foi lançado em 1967 e dirigido por Luchino Visconti. Foi exibido nos cinemas brasileiros. O estrangeiro também inspirou o excelente filme dos Irmãos Coen, The Man Who Wasn't There (O homem que não estava lá). Está no youtube.

Na música popular, O estrangeiro inspirou a canção do The Cure Killing an Arab. Influenciou a canção A Revolta dos Dândis da banda Engenheiros do Hawaii e é citado por Chico Buarque em sua música As Caravanas. O refrão contém a frase "a culpa deve ser do Sol", dita por Meursault, o emblemático personagem (cujo prenome não é revelado em toda a narrativa) que mata um árabe na praia, durante o seu julgamento. O filme pode ser visto no youtube em cópia instável.

*Albert Camus tinha um bilhete de trem no seu bolso para retornar a Paris. Não usou-o por insistência do amigo Gallimard.

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