A poesia de Marx e Engels: Epigramas e Paisagens

Poucos sabem que Marx e Engels, quando jovens, também escreveram versos

22/05/2018 13:53

Reprodução

Créditos da foto: Reprodução

 

Karl Marx e Friedrich Engels celebrizaram-se como filósofos que desenvolveram o materialismo histórico a partir da dialética hegeliana. Todos conhecem, pelo menos de título, o Manifesto Comunista, que os dois escreveram e publicaram em 1848. Poucos, porém, sabem que Marx e Engels, quando jovens, também escreveram versos.

Engels, como poeta, foi melhor do que Marx, e mais produtivo. Começou a escrever aos 16 anos. Publicou inúmeros de seus poemas em jornais, além de uma epopéia em quatro cantos, intitulada Der Triumph des Glaubens (O triunfo da fé), e uma tragicomédia.

Também traduziu do espanhol para o alemão o poema A la invención de la imprenta, de Manuel José de Quintana (Die Erfindung der Buchdruckerkunst), além de ter escrito alguns versos dentro de cartas e outros que não foram publicados. 

Marx escreveu os cadernos de poemas Ao pai (An den Vater), Livro do amor (Buch der Liebe), em duas partes, e Livro das canções (Buch der Lieder). Também traduziu a primeira elegia dos livros de poemas Libri tristium (Livros da tristeza), de Ovídio. 

O Livro do amor e o Livro das canções contêm 56 poemas, entre os quais 11 baladas, e alguns deles se encontram no caderno Ao pai, que compreende 39 poemas. 

Marx escreveu, entre outros poemas, quatro sonetos de amor dedicados à sua esposa, Jenny von Westphalen, mulher de extraordinária beleza, filha do Barão Ludwig von Westphalen, e pertencente à alta nobreza da Prússia.

Também escreveu inúmeros epigramas. Porém, não foi bom poeta. Muitos dos seus versos apresentam caráter de estudo e experimentação, como primeiro esboço, ao contrário dos poemas de Engels, que são bem melhores e mais bonitos. 
Ambos, Marx e Engels, usaram quase sempre formas clássicas com métrica e rima. 

Dos poemas de Engels, traduzimos Aos inimigos e Paisagens, este inserido em um artigo por ele publicado sobre diversas paisagens da Alemanha, Holanda e outros países, e sua conexão com a religião. No artigo, antes dos versos, Engels confessou que, ao sair da Holanda, se sentiu libertado de uma paisagem calvinista e monótona.

De Marx, publicamos alguns dos epigramas em que ele troça com a filosofia de Hegel, satiriza o próprio povo alemão e critica seu maior poeta clássico, Johann Wolfgang von Goethe, autor de Fausto.

Somente alguns desses poemas foram selecionados. Todos não caberiam no espaço de uma revista, a Continente, para a qual foram traduzidos em junho de 2014.

A tradução foi feita em versos livres, para evitar possível distorção de sentido, acarretada pela necessidade de métrica e rima. 



PAISAGENS

“Telegraph für Deutschland”, Nr. 122,

Julho de 1840

E agora esqueça os males

que te foram feitos,

e vá com coração inteiro

pelo grande caminho livre.

Curva-se o céu,

confunde-se com o mar –

e tu queres, outra vez rasgado,

andar no meio dessa situação?

Curva-se o céu,

abraça o mundo,

feliz pelas belas partes

que toca,

como se o mundo quisesse beijá-lo.

E assim saltou a onda,

e tu, rasgado,

queres completar teu caminho?

Vê como o deus do amor

mergulha no mundo,

e vê que o deus do amor permanece para o mundo

e, fazendo-se homem, como dádiva, a ele se entrega!

Tu não levas por tudo

o deus em teu seio?

Assim, deixe-o livremente mover-se

e ser digno de si próprio.

AOS INIMIGOS

“Der Bremer Stadtbote”, Nr. 4,

24 de fevereiro de 1839

Não podeis nunca deixar que séria e confiável ambição,

bem intencionada palavra,

ao seu modo se eleve

e sem ruído tenha conseqü.ncia?

Decerto, quem quer, pode torcer

toda palavra sem qualquer esforço.

Oh! Vós podeis ver o mal no bem,

mas nunca podeis tornar o bem em mal!

Pensais que tereis vantagem,

quando degradais a obra e palavra de outros?

Não! A honra fugirá de vós

Se não a sustentais com a própria força!

Se quereis subir, deveis então agir por vós mesmos,

produzir com vosso próprio espírito;

não vos dará vantagem

ir pelos caminhos que outros caminharam, depreciá-los!

para o qual maliciosamente pondes armadilhas?

Deixai-o então andar no seu caminho,

quando ele traz suas mensagens por toda a parte!

Pois, se ele traz a verdade, a verdade permanece verdade,

e, erguendo-se por cima da astúcia e da fraude,

um antigo provérbio no coração dele penetra:

“Honrada ambição é auto-suficiente!”

EPIGRAMAS

Em sua poltrona, confortavelmente estúpido,

está sentado, mudo, o povo alemão.

Brama a tempestade para cá, para lá,

fica nublado o céu, escuro e ainda mais coberto,

sibilam os raios, serpenteando,

e nada importa ao seu espírito.

Porém, quando o sol desponta,

os ventos sussurram, a tempestade acalma-se,

o povo então se levanta, grita

e escreve um livro: "o barulho passou".

Começa a fantasiar sobre isso,

quer sentir o elemento da coisa,

pensa que não é a maneira certa,

diz que o céu também brincava bastante esquisito,

que deve fazer tudo mais sistematicamente,

esfregar primeiro a cabeça, depois os pés.

Porta-se até como criança,

procura coisas, que apodreceram,

teria, ao mesmo tempo, de compreender a atualidade,

deixar o correrem céu e a terra,

que apenas seguiam seu curso normal,

enquanto a onda estoura tranqüilamente sobre as pedras.

II.

EPIGRAMAS HEGELIANOS

1.

Porque descobri o mais alto e encontrei a profundeza, refletindo,

sou rude, como um deus, cubro-me de escuro, como ele.

Por muito tempo investiguei e boiei nas ondas do pensamento,

e então achei a palavra, e não a solto.

2.

Ensino palavras, misturadas em movimento diabolicamente

perturbado,

e então que todos pensem o que quiserem pensar.

Pelo menos, o poeta não é mais limitado pelas barreiras, que o

encadeiam,

inventa as palavras e pensamentos das pessoas amadas,

como se fossem águas bramindo, caindo da rocha,

e o que pensa e reconhece, e o que sente, cria.

Toda pessoa pode sugar o refrescante néctar da sabedoria,

e tudo eu sugo de vós, porque eu, um ninguém, vos disse!

3

Kant e Fichte vão com prazer ao espaço,

procuraram lá um país distante,

porém, eu só tentei entender bem,

o que achei – na rua!

4.

Perdoai a nós, que fazemos epigramas,

quando cantamos fatais melodias.

Temos estudado Hegel,

e ainda não purgamos sua estética.

III

Os alemães uma vez partiram,

até alcançaram a vitória sobre os povos.

E, quando isso aconteceu,

podia-se ler em todos os cantos:

“Aconteceram coisas estranhas,

ir-se-á logo em três pernas.”

Todos então enormemente se afligiram,

começaram a ter vergonha deles próprios,

“É que coisas demais aconteceram de uma vez,

tem-se que andar bem calmo outra vez

e o resto poderia ser encadernado em livros.

Fregueses decerto seriam facilmente achados.”

IV

Tirai deles as estrelas por vós próprios,

logo palidamente ardem, depois vivamente demais;

o sol logo queima os olhos,

e logo está por demais longe.

V

Assim criticaram Schiller,

que não pode deleitar bastante humanamente,

que também leva as coisas alto demais,

e não trabalha como devido nos dias úteis.

Diz-se que decerto brinca com relâmpago e trovão,

mas a ele falta completamente a graça das ruas.

VI

Porém, Goethe é excessivamente belo,

prefere ver Vênus a ver farrapos,

e, apesar de que comece em nível baixo

tem-se obrigatoriamente que se elevar à altura;

dá às coisas uma forma sublime,

e por isso falta toda a consistência da alma.

Pois Schiller fora melhor,

o público podia ler as idéia em letras

e dizer que foram impressas,

mesmo que não encontrasse a profundeza.

VII

NUMA CERTA CARECA

Pallas Athene, sublime no impulso da vitória,

saltou da testa de Zeus, cheia de pensamentos,

como um raio nascido do relâmpago,

e faísca, da distante sede das estrelas.

E ela, penetrada de desejo,

pulou em sua cabeça,

E se Zeus, não venceu na profundeza,

sabe com certeza, que por cima dele se encontra Pallas Athene.

NADA DISSO!

(Aos falsos anos de peregrinação)

1

Schiller, pensa ele, fora razoável,

se só tivesse lido mais na bíblia;

seu Glocke seria até um excelente poema,

se ainda só contivesse a história da ressurreição,

e de como Cristo entrou na cidade

montado num burrinho.

Também deveria ainda acrescentar ao Wallenstein

a vitória de David e as marchas dos Filistinos.

2

Goethe é um horror para mulheres,

pois não combina direito com as velhas;

ele só agarrou a natureza

e não a poliu com a moral.

Deveria ter estudado o catecismo de Lutero,

e daí então fabricar versos.

Embora tenha às vezes percebido o belo

esqueceu de dizer: “Deus o fez.”

3

Estranho o interesse

de estimar tanto Goethe.

Ignóbil foi mesmo sua grande aspiração.

Já deu ele sentido aos sermões?

Apresentam-se nele firmes núcleos,

com os quais o camponês e o sapateiro podem aprender,

mas Goethe não tem o cunho divino dos gênios,

nem resolveu um problema de aritmética.

4

Ouvi agora como tudo do Fausto se evadiu

e o poeta erroneamente o cantou.

Fausto tinha demais dividas,

foi desmazelado, dedicava-se ao jogo de azar,

e quando não viu qualquer ajuda dos céus,

quis vergonhosamente perecer,

e por isso ficou com medo

do inferno e da tristeza do desespero.

Então pensou sobre a vida e a morte,

A sabedoria, a ação e a perdição,

e até falou muito

no sentido obscuro e místico.

Se o poeta não o podia ornar,

não podia contar como dividas levam ao diabo,

e como aquele, que perde o crédito,

vende facilmente sua salvação!

5

Fausto ousa pensar, no dia de Páscoa.

Assim, não necessita ele se dar como dádiva ao diabo!

Quem ousa pensar em dias como esse

é pelo próprio inferno recusado.

6

Também a probabilidade foi golpeada.

Poderia a policia senão o tolerar?

Não o teria posto na prisão?

Ele viajou e não paga as dividas!

7

Só o vício pode elevar Fausto,

porque ele só quer viver para si mesmo.

Ousou duvidar de Deus e do mundo

e esqueceu que Moisés bem o segura.

A estúpida Grete tinha de amá-lo,

ao invés de apelar diretamente para a sua consciência,

quando ele caiu à mercê do diabo

e o dia do Juízo logo chegasse.

8

Ainda poderia ser usada a “bonita alma”,

mas ainda tem de ser apoiada com óculos e barrete de freira.

“O que deus faz, faz bem!”

Assim começa o verdadeiro poeta.

EPIGRAMA FINAL AO MESTRE QUE SOPRA

Faz assim teus bolos,

mas, ainda, continuarás padeiro.

Quem também queria exigir de ti

que tu devias estar afeiçoado a Goethe?

Ele mesmo não conhecia seu oficio,

e como poderia chegar a gênio e inteligência?

Conteúdo Relacionado