Leituras

A política sequestrada pela internet

A relevância da política vai sendo substituída pela importância do conceito de ''opinião pública'', dizem os super hackers, marqueteiros do século 21

08/09/2020 11:00

Giuliano Da Empoli (Foto de Brigitte Baudesson) e a sua obra (Divulgação/Amazon)

Créditos da foto: Giuliano Da Empoli (Foto de Brigitte Baudesson) e a sua obra (Divulgação/Amazon)

 
Há quem diga ser um livro ''simplista'' e que há outros ''melhores'' sobre o assunto. Talvez pela inveja de ver a primeira edição em português de Os engenheiros do caos, de 190 páginas (Ed.Vestígio), esgotando rapidamente nas livrarias, os acessos ao seu PDF viralizando e as vendas do Kindle nas alturas.

O livro do cientista político ítalo-suíço Giuliano Da Empoli foi lançado em dezembro passado e de dois meses para cá se transformou numa leitura da moda; obrigatória. Seu sucesso, explica-se: o tema do livro - as novas formas de se fazer política - é atraente, é necessário, mostra e explica ao grande público o ambiente de desinformação em que estamos imersos - em vários países -, e é escrito em linguagem fácil que vai além dos academicismos e da leitura para bolhas específicas de grupos.

À moda italiana, o estilo fortemente irônico de Da Empoli ancora os fatos e nos apresenta atores que decidem o destino social, econômico e político de milhões de indivíduos porque trabalham nos bastidores das redes e do mundo dos algoritmos.

A manipulação dos internautas transformados de eleitores em consumidores, um jogo perigoso dos super hackers - inclusive no Brasil - é o tema da excelente tradução da edição francesa Les ingénieurs du chaos. Leitura para os que se confessam consternados com as vertiginosas e radicais mudanças que vêm ocorrendo na prática da política, como escreve Da Empoli, que foi ''visìvelmente sequestrada pela internet.''

No entender dos gurus populistas/nacionalistas/neofascistas digitais, política não interessa mais. Interessa é a manifestação da opinião pública.

O leitor que precisa entender o movimento de reação das populações bombardeadas com notícias falsas (fake news) esforça-se para se defender dos trolls e é pressionado a entrar no universo das plataformas. Quer participar da contemporaneidade e deseja poder continuar conversando com os filhos e netos pertencentes às gerações on-line.

Para ele, a percepção de que o mundo da mídia impressa e da TV está sendo substituída por um conjunto de sites, blogs, senhas, códigos, logins e aplicativos. E com o advento da pandemia um universo desenhado por laives, palestras e debates on-line e em zoom.

''(Os engenheiros do caos) descobriram que a democracia da era do narcisismo de massa e das redes sociais oferece possibilidades inesperadas de mobilização eleitoral”. Com esta precisa observação o jornal Le Monde aplaudiu o lançamento do livro na França, ano passado.

Da Empoli, um aluno egresso da Sapienza de Roma e da Sciences Po, de Paris, foi secretário de Cultura da cidade de Florença e conselheiro político do ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. É autor de dezenas de livros sobre política, sociedade e comunicação. Entre eles, o volume Overdose: a sociedade da informação excessiva.

Ele organizou seu livro atual em seis capítulos. Nos iníciais, a história da política/algoritmo contada em O Vale do Silício do Populismo e em A Netflix da Política onde destrincha a atuação de gurus populistas especializados em Big Data.

O americano Steve Bannon é um dos mais conhecidos. Foi expulso da Casa Branca por Trump depois de ter sido artífice decisivo da vitória do atual presidente. Mas caiu em desgraça quando ousou competir com o patrão, começou a ganhar popularidade e a dar entrevistas; uma espécie de ex-juiz Moro.

Outro é Andrew Breitbart, mestre de Bannon e fundador do célebre e temido site de contra-informação, o Breitbart.

George Soros é o bilionário húngaro e financista da Open Society e de movimentos de direita (inclusive no Brasil). Hoje é um fora-da-lei na sua terra de nascimento por ordem do ditador daquele país. "Maléfico mas brilhante,'' admite Bannon, no livro, sobre o ex-amigo Soros.

Dominic Cummings foi o diretor da vitoriosa campanha do Brexit na Grã-Bretanha. na sua opinião, os especialistas e comunicadores políticos se tornaram anacrônicos. ''É melhor utilizar os físicos,'' ele diz. Ou seja, os cientistas de dados.

O americano Arthur Finkelstein, de Nova Iorque, foi contratado como conselheiro do neofascista húngaro Viktor Orban e o blogueiro inglês Milo Yiannoupoulos trabalha como especialista em ''quebrar códigos da esquerda e do polìticamente correto'', como escreve o autor.

Da Empoli os apresenta em detalhes. São o fruto de uma investigação exaustiva que vai além do escândalo da Cambridge Analytica e remonta ao início dos anos 2000, quando o movimento populista global, hoje em pleno curso, dava os primeiros passos na Itália.

Ele se detém na incrível história da criação e ascensão do partido digital Movimento 5 estrelas fundado por Davide Casaleggio, de Milão, e seu filho, e na criação de um 'avatar'' físico para a agremiação: o ultra popular comediante, na época, Beppe Grillo. Os Casaleggio chegaram a eleger senador o agressivo Matteo Salvini que até dois anos atrás foi o Ministro do Interior da Itália e perigoso homem forte do governo Giuseppe Conte.

''No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo,'' observa o escritor. E esses eventos espetaculosos se sucedem numa ''espiral infinita que satura a cena''.

Nós, no Brasil, conhecemos bem essa cena e esse palco. Sabemos que o quarteto Trump-Johnson-Salvini-Bolsonaro mantém multidões entretidas e fascina milhares de espectadores/eleitores com espasmos, mentiras, grosserias, distorções, transgressões graves e falsificação da verdade. Oferece-lhes uma novela barata que custa alto preço à democracia, à paz, ao desenvolvimento e à soberania de um país.

Alguns ainda hoje ignoram que os líderes da ultra direita não teriam chegado ao poder sem o trabalho científico dos personagens desse livro e das suas equipes tecnológicas. Eles vivem distantes dos holofotes (exceção do Narciso de Bannon que não resistiu à vaidade) , e a maioria deles são desconhecidos do grande público. No entanto, são eles quem estão mudando as regras do jogo político, o modo das pessoas se relacionarem e a face das nossas sociedades.

"Este livro conta a sua história,'' avisa Da Empoli. Conta como esses marqueteiros do século 21 sabem transformar a incompetência dos líderes reacionários em garantia de ''autenticidade''; e as suas deficiências em qualidades.

Para o francês François Dubet, autor de O tempo das paixões tristes, outro livro de leitura conexa a Os engenheiros do caos, a raiva individual que não encontra expressão política alimenta os movimentos populistas.” E ''para compreender a raiva contemporânea é preciso sair da perspectiva política e entrar numa lógica diferente'', diz Da Empoli, que acrescenta: '' E as fake news, marca inequívoca de sua propaganda (dos governantes), evidenciam a sua ''liberdade de pensamento''.

Infelizmente, tão familiar.



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