Leituras

A revolução social da Comuna de Paris

Durante dois meses, na França, a utopia de uma democracia proletária tomou o poder. Um álbum de quadrinhos com dois volumes, "O Grito do Povo - Os canhões de 18 de março" e "O testamento das ruínas", de Jean Vautrin e Jacques Tardi, resgatam a revolução dos operários parisienses com ares de romance policial.

08/06/2006 00:00

 

 
O recente manifesto estudantil, ocorrido em Paris, contra a lei do primeiro emprego –classificada pela maioria como reacionária – reafirma uma tradição francesa: a das insurgências populares de rua. Um dos primeiros registros dessa tendência, um episódio que ficou conhecido como a Comuna de Paris, acendeu no país, entre março e maio de 1871, as chamas da justiça social que semearia no povo ao longo da história daquele país o sentimento libertário e a sede revolucionária que ainda ousa sonhar com um país onde exista de fato liberdade, igualdade e fraternidade.

É louvável toda iniciativa de desfazer a cortina de fumaça que ainda encobre eventos como o da Comuna de Paris. Contrariando a lógica das modas e do mercado, chegou recentemente às livrarias um álbum de quadrinhos que merece aplausos. “O Grito do Povo - Os canhões de 18 de março” e “O testamento das ruínas”, de Jean Vautrin e Jacques Tardi (2 volumes – Editora Conrad), lançam luz sobre um dos capítulos mais importantes da história política moderna, esquecido, no entanto, pelos livros.

Em janeiro de 1871, a Alemanha desfilava seu exercito pela cidade rendida, após uma vergonhosa derrota do exercito de Napoleão III, em uma guerra movida por interesses escusos da elite francesa. Momento histórico em que o povo parisiense enfurecido - não os bacanas, mas as lavadeiras, as prostitutas, os operários - decide lutar contra a invasão alemã e tomar o poder da cidade. “Com suas utopias generosas, a Comuna de Paris, durante dois meses e meio, iluminou o mundo conservador”, afirma Jean Vautrin, na introdução que abre o livro.

VIVA LA COMMUNE
Uma acentuada cisão social se fazia notar na Paris de 1870, conhecida então como a Cidade da Luz. Para que os suntuosos palácios fossem construídos (referência mundial de elegância), a classe pobre, despejada do centro da cidade, era obrigada a viver em favelas na periferia. Naquele período, de desespero para muitos, a derrubada do governo, embora parecesse uma tolice, era um desejo constante do povo que sonhava com uma nova sociedade. O crescente desenvolvimento da indústria local gerava uma massa cada vez maior de trabalhadores urbanos que, por sua vez, organizavam-se em associações e sindicatos, criando as condições que levariam logo mais à explosão do primeiro levante operário da historia.

Na França, o cenário da luta pela auto-emancipação dos trabalhadores no século XIX começou a ficar mais favorável a partir da queda de Napoleão III. Entre o proletariado aumentava a simpatia com as idéias socialistas desencadeando uma brutal perseguição principalmente contra o operariado. A Alemanha começava a expandir seu império e a aristocracia francesa passou a sentir-se ameaçada internamente. Pouco se importando com uma avaliação exata da correlação de forças e confiante de seu poder, Napoleão III, apoiado pela elite francesa, lança o país em uma guerra movida por motivos tolos na qual sofre uma derrota vergonhosa contra os alemães. O que seria, segundo a imprensa local da época, uma guerrinha rápida em que os alemães não levariam a menor chance, evidenciou-se como um lamentável equívoco, que levou o país, em janeiro de 1871, àdeclaração de um armistício, negociado pelo novo governo, de Adolphe Thiers, assumindo praticamente a rendição.

Em março de 1871, revoltado com os canhões alemães que invadiam as ruas de Paris e a inércia submissa de uma elite anteriormente arrogante, o povo decide lançar-se em defesa da cidade. Durante dois meses, a classe operária parisiense alcançou um intento insólito: destituiu o poder político da elite burguesa local, tomou o poder e colocou em prática a utopia de uma democracia proletária, que ficou conhecida como a Comuna de Paris. “Foi uma organização heróica que, além de enfrentar a aristocracia rendida, revelou lideranças legítimas que não se afastaram do povo”, observa Rui Magrini, doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo.


AUTOGESTÃO OPERÁRIA
O movimento revolucionário empreendido pela classe trabalhadora parisiense, entre abril e maio de 1871, concebeu e colocou em marcha uma série de ações com o objetivo de destituir o Estado burguês e, em seu lugar, instalar uma sociedade socialista autogestionária e a democracia direta. “Pela primeira vez o proletariado teve nas mãos o poder”, lembra Cláudio Nascimento, coordenador de formação da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho. Para ele, o significado político da Comuna de Paris ainda é imenso, “por meio da tomada do Estado, cidade e fábricas passaram para o controle dos trabalhadores, dando lugar a uma nova política, popular e operária, com base na autogestão”, analisa ele.

Durante aqueles dias turbulentos da insurgência popular em Paris, um grande número de fábricas foram abandonadas por seus patrões, deixando às moscas até mesmo serviços essenciais à comunidade. Com isso, as idéias revolucionárias da Comuna puderam ser colocadas em prática pelos trabalhadores. “Toda a organização anterior, exploratória, foi demolida pelos operários da Comuna”, conta Nascimento, que adaptou o programa da Comuna para atividades de formação política na Central Única dos Trabalhadores (CUT). No novo modelo de administração, segundo ele, “os operários nomeavam os seus diretores, chefes de equipe, etc. Tinham também o direito de revogá-los e poder de decisão sobre seus salários, horários e condições de trabalho”.

Armando Boito Junior, professor do departamento de ciência política da Unicamp e organizador da coletânea “A Comuna de Paris na História” ( Editora Xamã, 2001) vê a Comuna como um dos mais importantes capítulos da historia dos trabalhadores: “Ocorreu uma socialização do poder político, que poderia ter sido ainda mais completa com a socialização da economia e a transferência dos meios de produção para os trabalhadores organizados”. Vale lembrar, porém, que isso não ocorreu.

UTOPIA, SANGUE E ESQUECIMENTO
As medidas elaboradas pela Comuna para construção de um mundo mais igualitário foram divulgadas no dia 28 de março em uma carta que chamava a população para a construção de uma federação de comunas livres e independentes, chamada Proclamação da Comuna ao Povo de Paris. Entre os objetivos, destacavam-se o combate às burocracias das estatais, fim do exército e sua substituição por milícias populares, formação de conselhos operários nas fábricas, redução da jornada de trabalho e reforma do ensino. No cerne dessas idéias estavam presentes muitas correntes revolucionárias, como o anarquismo de Bakunin, para quem, “a Comuna foi uma negação audaciosa do Estado e a exaltação da ação popular”.

O sucesso da comuna, porém, durou muito pouco, apenas dois meses, até que o tratado de paz entre a França e Alemanha fosse assinado. Logo em seguida as tropas de Thiers invadiram Paris e executaram, sem julgamento, cerca de 20 mil pessoas em uma batalha cruel que ficou conhecida pelos historiadores como semana sangrenta, finda no dia 28 de maio de 1871, quando caiu a ultima barricada da Comuna.

Apesar da importância histórica e política da Comuna de Paris, ela é até hoje pouco lembrada. Para Armando Boito, da Unicamp, um exemplo desse esquecimento é o desinteresse da grande imprensa pela Comuna, algo que, porém, em sua opinião é também óbvio e previsível. “Para os defensores do capitalismo é interessante ocultar a capacidade de luta e de organização demonstrada pelos trabalhadores”. Até mesmo na França, o episódio passa despercebido, a despeito de sua incisiva relevância política. “Aquele momento foi um importante marco por mostrar a insatisfação do povo contra o regime Bonapartista, que fazia crescer a opulência da burguesia às custas da miséria de grande parte da população”, analisa o sociólogo Magrini. Ele conta que durante uma viagem a Paris descobriu que o tema sequer aparece nos currículos escolares. A paixão pelo assunto e o desconhecimento geral que ele percebeu o inspirou a escrever o romance “Paris 1870” (Gass Editora/2005), no qual conta a história daqueles dias utópicos em linguagem de roteiro de cinema.

A amnésia, felizmente, não é geral, ainda hoje, os efeitos da Comuna de Paris são sentidos, incluindo, aliás, o Brasil. Desde a década de 60 – por aqui, a partir da segunda metade dos anos 90, diversos países assistiram uma retomada das experiências baseadas na autogestão inventada na remota Paris de 1870. “Essas experiências ganharam o nome de economia popular e solidária”, explica Cláudio Nascimento, do Ministério do Trabalho. “Em resumo, são empresas de vários ramos comerciais, que, após a falência, são geridas pelos trabalhadores”, conta ele.

No campo das experiências de empresas de autogestão no Brasil, Nascimento destaca como base fundamental a gestão democrática e a prática da democracia direta: “São imprescindíveis a realização de assembléias, rotatividade nos postos de trabalho e uma visão de propriedade social dos meios de produção”. Segundo ele, no Fórum Social deste ano, realizado em Caracas, na Venezuela, essas experiências foram destaques em várias atividades. “O governo Chaves criou em seu país o Ministério da Economia Solidária articulada a uma proposta estratégica de Política Nacional”, conclui Nascimento.

QUADRINHOS RESGATA REVOLUÇÃO ESQUECIDA PELOS LIVROS
Por meio dos quadrinhos um esforço notável tenta trazer do limbo do esquecimento o episódio da Comuna de Paris. Em “O Grito do Povo - Os canhões de 18 de março” e “O testamento das ruínas”, de Jean Vautrin e Jacques Tardi (Editora Conrad), lançado recentemente, há um recuo da grande história para que outros contornos ganhem definição: o de seus personagens. Dentro do emaranhado de fatos da história do movimento operário, surge um cotidiano repleto de amores e vinganças. Na narrativa, idealizada pelo cineasta Jean Vautrin, membro da Academia Francesa de Letras, a revolução dos operários parisienses ganha ares de romance policial. Ele conta, no texto que abre a edição do primeiro volume, que sua intenção era mostrar as alegrias, os amores e os excessos de um povo, sufocado e explorado ao extremo, cujo entusiasmo renasceu repentinamente durante a Comuna: “Quis narrar o nascimento de uma fantástica esperança de justiça social”.

As imagens de “O Grito do Povo” são assinadas por Jaques Tardi, artista famoso pelo cartaz do filme “E La Nave Va” de Federico Felini. Com seu estilo fiel e cuidadoso, ele redescobriu nome de ruas, reconstituiu a arquitetura, o modo de vida, a topografia e o vocabulário daquela época. Considerado um dos maiores quadrinistas franceses, Tardi deu rosto aos personagens da velha Comuna e também aos bandidos, militares e personagens históricos que viveram aquele período, como o odiado Thiers e a percussora do movimento feminista, Louise Michel. Com seu estilo expressionista, ressaltou o drama e a paixão daqueles dias explosivos. Como declara Vautrin em seu texto de abertura, “momento de uma grandeza revolucionária que sempre fará eco ao lamento dos oprimidos”.





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