Leituras

América desregulada

'Ninguém regula a América - guerras híbridas e intervenções estadunidenses na América Latina', de Ana Penido e Miguel Enrique Stédile, está disponível para download gratuitamente

25/05/2021 14:16

(Reprodução/rosalux.org.br)

Créditos da foto: (Reprodução/rosalux.org.br)

 
O livro Ninguém regula a América - guerras híbridas e intervenções estadunidenses na América Latina, de Ana Penido, pesquisadora do Instituto Tricontinental e do GEDES/UNESP, e de Miguel Enrique Stédile historiador, doutorando em História pela UFRGS, coordenador do Instituto de Educação Josué de Castro e integrante do Front/ Instituto de Estudos Contemporâneos, integra a Coleção Emergências. É uma iniciativa da Fundação Rosa Luxemburgo e da Editora Expressão Popular*.

Na ampla pesquisa realizada, os autores buscam responder questões como estas: os EUA são um império em decadência ou uma força geopolítica reafirmando sua área de influência hegemônica? Estaríamos diante do ocaso final do império estadunidense ou essa seria somente mais uma fase na consolidação de seu poder?

Quando o século XX terminava, apenas 20 anos atrás, tudo indicava que os próximos anos seriam de supremacia política, econômica, cultural e militar dos EUA. Não à toa, o historiador estadunidense Francis Fukuyama celebrou o “fim da história” (Fukuyama, 1992). A União Soviética, pólo oposto na Guerra Fria, tinha sido dissolvida; o capital financeiro, sediado em Wall Street, era o centro dinâmico do capitalismo, e sua versão política, o neoliberalismo, era largamente adotado por países periféricos, em especial na América Latina.

Seguindo, em teoria, as orientações de organismos multilaterais, mas sob a direção de Washington – como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial –, empresas estatais e restrições à exploração da natureza foram transformadas em oportunidades de lucros para empresas do centro do capitalismo. Do ponto de vista cultural, o mundo almejava alcançar e replicar o american way of life.

Militarmente, a hegemonia em termos de equipamentos e tecnologia estadunidense era inconteste, e o país reformulava sua estratégia militar para lidar com o que ele mesmo rotulava de “novas ameaças”.

Frente à nova reorganização da geopolítica mundial está inserido o papel da China, que organizou sua economia para a inserção em âmbito global, e nos últimos anos tem procurado fortalecer sua posição diante da crise financeira internacional. E neste contexto, ela é acompanhada pelo ressurgimento político, econômico e militar da Rússia.

Deste modo, a obra ajuda a entender as mudanças na grande estratégia estadunidense, principalmente para a América Latina e, em especial, para o Brasil.

Segundo os autores, acuados em algumas esferas de disputa, como a econômica e a tecnológica, os EUA se voltaram novamente para a América Latina.

E mais: sendo necessário, o império estadunidense recorre ao uso de formas mais sofisticadas e modernas de intervenção na soberania dos países, utilizando, em especial, as transformações tecnológicas nas comunicações e métodos de guerras não convencionais, chamados por alguns autores de guerras híbridas.

Sobre o tema, Miguel Enrique Stedile procede a um retrospecto histórico em entrevista recente**: '' No início do século XXI, os EUA tiveram que lidar com duas ondas de oposição. Os governos progressistas na América Latina e a ascensão comercial da China. Com este quadro, toda a estratégia norte-americana foi tentar impedir um mundo multipolar que se desenhava''.

"A novidade'', diz ele, '' é que os EUA usam táticas da guerra assimétrica, táticas que identificaram que seriam usadas contra ele, de uma força menor contra um adversário maior: utilizar forças civis, disputar ideologicamente, usar a comunicação. É como se o Golias resolvesse atacar Davi com a funda. Isso e também desestruturar as fronteiras para manter o adversário permanentemente exaurido com um inimigo próximo. É o caso da Ucrânia com a Rússia, Hong Kong com a China e a Colômbia com a Venezuela''.

Sobre a possibilidade de decadência do chamado império americano, Stédile acrescenta: ''Os EUA são decadentes no sentido que não exercerão mais o poder solitariamente como no final do século XX ou mesmo da forma como ocorreu na Guerra Fria. A China atua de forma muito inteligente na diplomacia e o novo mundo multipolar não será de blocos estanques como era o mundo capitalista e o mundo comunista do século XX''.

E sobre o que o futuro reserva às relações América Latina/EUA: '' As disputas serão mais sutis e obscuras num mundo multipolar. Ao menos com os EUA sob direção dos Democratas, que se caracterizam MAIS pelo soft power do que a diplomacia tosca de Trump que só surtia efeito com os Bolsonaros e Ernesto Araújo. E são disputas por áreas de influência, desde quem extrai minério, quem garante a rede de 5Gs, quem vende a vacina, quem reconstruirá a economia mundial... e obviamente por estes critérios, a China leva vantagem''.

E, importante: ''Embora as guerras híbridas ocorram sempre de um Estado contra o outro, a diferença na América Latina é a de que aqui os EUA contam com as instituições do Estado para derrubar o próprio governo. Daí o lawfare pelo Judiciário e os golpes parlamentares no Paraguai e Brasil.

*Com informações da Editora Expressão Popular.

**Trechos da entrevista ao site Brasil de Fato.

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