As corporações destruirão o nosso planeta?

 

16/07/2018 17:26

 

 
Por Ladislau Dowbor
 
 
Não há maldade premeditada nas corporações, mas há sim interesses. É um pouco como o filme O Poderoso Chefão, um tentou matar o pai do outro, mas explica que não se trata de ódio, nem de maldade, just business (apenas negócios). Na pesquisa de Joris Luyendijk ( Swimming with Sharks ) sobre as barbáries e ilegalidades praticadas na City de Londres, equivalente britânico de Wall Street, os responsáveis entrevistados explicam que o que fazem não é nem moral, nem imoral. É amoral, ou seja, a dimensão ética está simplesmente abaixo do horizonte, fora do processo decisório. No conselho de administração vão naturalmente discutir os eventuais impactos negativos das fraudes praticadas sobre o nome da empresa, o branding, na medida em que podem prejudicar os negócios, mas não na medida em que afetam sentimentos de decência humana. Como já disse Milton Friedmann, as empresas, tal como as paredes, não têm sentimentos morais. O que não as impede, naturalmente, de se proclamarem profundamente movidas por preocupações éticas.

Em “Will big business destroy our planet”, Peter Duvergne, professor de Relações Internacionais na University of British Columbia, resume bem o problema. “As mesmas empresas transnacionais (ETN) que prometem ser sustentáveis e responsáveis escondem as provas dos prejuízos ambientais causados, negam a mudança climática e financiam think tanks anti-ambientalistas. Provocam vazamentos de petróleo, poluem os rios, geram montanhas de lixo plástico e eletrônico. Introduzem novos compostos químicos com pouca compreensão das consequências para a saúde dos ecossistemas e das pessoas. Abastecem-se por meio de longas e complexas cadeias de suprimento que permitem esconder os impactos ambientais, projetam longas sombras ecológicas sobre o mundo, e minimizam os custos laborais e responsabilidades locais. E criam empresas-laranja, evadindo impostos, e comprando políticos” (58). Segundo o autor, é assim que funciona no mundo real o que o mundo corporativo apresenta como Responsabilidade Social Corporativa (RSC). Nas reuniões, discutem quanto poderá custar a provável multa, e quanto poderá custar a campanha de relações públicas para apagar os impactos na imagem. Quando se programa a derrubada de um governo ou um assassinato político, estuda-se a plausibilidade de negar autoria: plausible deniability é o conceito utilizado. Just business.

No nível que hoje temos de informações sobre tudo o que ocorre no planeta, nenhuma instituição pode alegar desconhecimento da tragédia em curso, da chamada catástrofe em câmara lenta. Temos dados detalhados sobre as reservas e os ritmos do seu esgotamento. “Os sinais que indicam o sobre consumo incluem o declínio irreversível de recursos renováveis (tais como peixes, madeira, água e solo cultivável), a exaustão de recursos não-renováveis (tais como petróleo, ouro, diamantes, fosfatos e coltan), a perda de ecossistemas inteiros (tais como pradarias, bacias hidrográficas, salinas), e a poluição de sistemas naturais com carbono, lixo eletrônico, produtos químicos e plástico” (78). Em poucas palavras: aí está a dimensão do drama. Lembrando que somos 7,5 bilhões de habitantes, 80 milhões a mais a cada ano e todos com a ambição, generosamente estimulada pela mídia comercial – que vive disso –, de consumir mais. No programa jornalístico 60 Minutes¸ perguntada sobre como justificam a forma de empurrar refrigerantes nas escolas, a responsável de marketing da Coca-Cola responde que “nós não empurramos nada, permitimos que as crianças tomem decisões responsáveis”. É uma psicóloga. Os EUA têm quase 30% de obesos. Uma criança obesa é profundamente infeliz.

Dizer que nós é que somos responsáveis, navegar no nosso sentimento de culpa, faz parte de uma estratégia central das corporações. Quem manda as pessoas consumirem de maneira irresponsável? Claro, é da minha responsabilidade ler em cada caixinha no supermercado quanto o produto tem de carboidratos, de açúcar, de gorduras trans., de calorias. É da minha responsabilidade saber quantas florestas são destruídas na Indonésia para cada produto que compro e que contém óleo de palma. Eu deveria saber quanto trabalho escravo há no Ghana para cada barra de chocolate que compro, e quanto carbono e partículas emite o meu veículo e assim por diante. Isso, evidentemente, não funciona. Para isso temos a responsabilidade social e ambiental das empresas, e para isso temos agências reguladoras do Estado. As empresas, aliás, cooptam as agências reguladoras do Estado, inclusive os bancos centrais, desarticulando todo o sistema de regulação do que deveria ou não deveria ser financiado. Fizeram-nos acreditar, de maneira muito ativa, que o problema se resolverá por meio da autorregularão ou autocontrole pelas próprias empresas. Isso não funciona nem na publicidade, nem na indústria farmacêutica, nem nos bancos, nem na pesca oceânica, nem no agronegócio.

“O Big Business, deixado solto para a autorregularão, irá destruir grande parte do nosso mundo natural pelo fim deste século... Se quisermos algum dia recuperar o controle da crise ambiental que se expande, precisaremos confrontar o fato que em cadeia produtiva o big business promove um consumo excessivo, desigual e desperdiçador. Isso está elevando o consumo global muito acima da capacidade da natureza de regenerar ou de absorver o lixo e os produtos químicos. As campanhas de publicidade do big business estão reorientando culturas inteiras – desde a Europa à China, da Índia ao Brasil – para a maximização do consumo de marcas globais. Os mercados estão sendo inundados com produtos não-duráveis, e produtos plásticos, desde mobília até fraldas descartáveis. As cadeias de fast-food e de alimentos processados estão deslocando as preferências dos consumidores para dietas com elevado conteúdo de gordura, sal e açúcar, contribuindo para o crescimento das taxas mundiais de obesidade tanto entre ricos como entre os pobres. As grandes empresas de agricultura estão se apropriando das terras de pequenos agricultores para a produção em massa de grãos e de corte. As empresas de eletrônica e aparelhos domésticos estão desenhando os produtos para assegurar rápida obsolescência e impossibilidade de conserto.” (13)

Muitas empresas no mundo estão tentando mudar os rumos, inclusive por entender que o desastre não vai servir para ninguém, ou esperando que os clientes irão preferir as marcas que “se comportam”. Mas a realidade é que a regulação pela pressão do consumidor que permitiu, por exemplo, que na União Européia se tornasse ilegal o uso de agrotóxicos como o Roundup ou os neonicotinóides, continua extremamente fraca. Os gigantes hoje unidos como Monsanto e Bayer simplesmente se deslocam para outros países. Entre uma população incapaz de seguir os detalhes técnicos de tantas formas de contaminação, e uma regulação pelo setor público apropriada pelas próprias corporações, sobra muito pouco espaço para a racionalidade. A recente lei do veneno no Brasil é apenas uma manifestação do caos que se gera. O sistema gira solto, com tecnologias e escalas cada vez mais elevadas. 

Dauvergne não tem nada de histérico: mostra de capítulo em capítulo deste livrinho compacto quais são as dinâmicas dominantes, e as ameaças que representam. Particularmente interessantes são as dez páginas finais do livro, que apresentam uma lista de leituras complementares, com comentários sobre cada uma, permitindo constituir um prosseguimento de pesquisa pelo leitor. E são leituras muito atualizadas.
  
Peter Dauvergne – Will big business destroy our planet? – Polity, New York, 2018, 139p. ISBN 13: 978-1-5095-2400-6 – Politybooks.com


 



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