Conquistas feministas anuladas em nome da obra de deus

Lançado neste dia 16 em São Paulo livro que revela a opinião e os relatos de ex-membros, esposas de ex-membros ou ainda irmãs ou mães de membros ativos do Opus Dei.

15/11/2006 00:00

 

Acontece, neste dia 16 de novembro, quinta-feira, às 19 horas, na Livraria Cultura - Shopping Villa Lobos (Av. Nações Unidas - 4777 - Pinheiros - São Paulo - SP) o lançamento do livro O Opus Dei e as Mulheres. Na ocasião, além da noite de autógrafos, haverá uma palestra com as autoras Viviane Lovatti Ferreira (organizadora), Betty Silberstein, Clara Assis, Leticia Meireles, Maria Nazareth Rezende, Marilia Gouvêa, Rosidalva Julião, Sonia Maria de Menezes.

O Opus Dei (“Obra de Deus” em latim) é uma instituição da Igreja Católica, fundada em 1928, pelo sacerdote espanhol Josemaría Escrivá. Essa instituição nasceu com um caráter eminentemente masculino. Inicialmente, Escrivá pensou em trabalhar com jovens (apenas rapazes), que se dedicassem integralmente a Deus e abraçassem o celibato. Ele achava que nunca haveria mulheres – nem brincando – no Opus Dei. Mas em 1930 decidiu que elas eram necessárias para determinadas tarefas, como os trabalhos domésticos.

Para se entender melhor o Opus Dei, é preciso ir além das análises estruturais e conhecer as pessoas que vivem a realidade concreta. Com esse objetivo, a autora Viviane Lovatti recolheu depoimentos surpreendentes e reveladores de sete mulheres que têm ou tiveram relação com o Opus Dei. O resultado é o livro O Opus Dei e as mulheres, lançamento da Panda Books. Sete mulheres muito diferentes conversam pela primeira vez sobre sua relação com o Opus Dei, a instituição católica mais radical e controvertida do mundo.

“Embora o Opus Dei insista em se dizer uma instituição perfeita, divina, sem possibilidade de mácula, não temos que acreditar nessa imagem, construída à base de muito silêncio e repressão às opiniões contrárias”, diz Viviane. “Todas essas mulheres têm para contar coisas que o Opus Dei esconde e gostaria de que ninguém jamais soubesse. É uma grande satisfação para mim possibilitar a essas fantásticas mulheres a oportunidade de falarem e contarem suas histórias de resistência e luta contra o Opus Dei”.

Nos diálogos que vão travando ao longo do livro, as mulheres falam de temas até então proibidos dentro da “Obra”: homossexualidade, preconceito, saúde da mulher, abuso de poder, vaidade, celibato, casamento, filhos. O Opus Dei e as mulheres é o mais perturbador exemplar de uma safra de obras que se dedicam a contar a verdade e os bastidores dessa poderosa organização da Igreja Católica.

Prefácio
"Como as artesãs de outrora, sete mulheres reúnem-se sob a coordenação de uma oitava mulher para fazer um tecido. Entretanto, os fios da trama e
da urdidura não são de algodão ou lã. São os fios de seda da memória.

Aos poucos, o trabalho toma forma, um desenho aparece: preconceito
racial e de classe, trabalho escravo, repressão da sexualidade e
homossexualismo, celibato e casamento, saúde da mulher, autoritarismo,
abuso de poder e doutrinação, destruição do eu, filhos e proselitismo.

Esse é o quadro que aparece no tecido a partir da lembrança dessas
mulheres que, em suas vidas, mantiveram, ou ainda mantém, alguma forma
de contato com o Opus Dei. O que qualifica o seu depoimento é o fato
delas serem ex-membros, esposas de ex-membros ou ainda irmãs ou mães de membros ativos do Opus Dei. O livro O Opus Dei e as Mulheres é o mais novo exemplar de uma safra de obras brasileiras que se dedicam a
desmascarar essa poderosa organização da Igreja Católica que, sob a
rubrica de "prelazia pessoal", responde por seus atos diretamente ao
Papa, por meio de relatórios pasteurizados onde só aparece aquilo que
interessa mostrar.

Em pleno ano de 2006, e cinqüenta e sete anos após a
publicação do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir (primeira edição
francesa de 1949), Viviane Lovatti Ferreira e suas companheiras lançam
luz sobre o modo de pensar e de agir de uma organização que submete as
mulheres à discrição, ao cumprimento de tarefas domésticas, à criação e
educação de filhos, entendendo, enfim, que metade da humanidade deva
exercer um papel secundário, onde a inteligência não seja exigida.

Portanto, um meio social artificial onde todos os avanços alcançados
pelo movimento feminista são solenemente ignorados. Sob a forma de
entrevista e com a linguagem leve de uma conversa entre amigas que
tecem, o livro introduz o leitor em um mundo sombrio onde o corpo de
homens e mulheres deve ser mortificado por meio de banhos frios,
autoflagelação e uso do cilício, mas que, no caso delas, adiciona-se
mais um martírio: dormir sobre tábuas. Como não ver nessa prática o
sintoma de uma mentalidade arcaica que ainda considera a mulher mais
sensual e mais fraca em relação aos instintos do que o homem? A resposta
oficial do Opus Dei é que dormir em tábuas faz bem para a coluna. Mas a
pergunta que surge então é a seguinte: só faz bem para a coluna
feminina?

Ao lançar um olhar feminino sobre essa máquina infernal de destruição da psique humana, o livro O Opus Dei e as Mulheres a um só tempo desmascara a face angelical que se quer transmitir por meio da missão de "santificar o mundo" e completa outros testemunhos já publicados, uma vez que esses foram feitos por homens que, por imposição das normas dessa organização misógina, devem ficar a léguas de distância das mulheres".

(*) Prefácio do livro O Opus Dei e as Mulheres , escrito por Maria Amalia Longo Tsuruda, doutoranda em história e historiografia pela FE-USP)




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