Dowbor analisa ''The March of Folly'' de Barbara Tuchman

A minha idade e a minha confiança na racionalidade do ser humano têm evoluído em sentidos inversos. Como somos animais sofisticados, quanto mais absurdo o que defendemos, mais argumentos racionais inventamos...

11/10/2018 17:53

 

 

A minha idade e a minha confiança na racionalidade do ser humano têm evoluído em sentidos inversos. Como somos animais sofisticados, quanto mais absurdo o que defendemos, mais argumentos racionais inventamos. E, sobretudo, uma vez que já nos identificaram com uma posição ou atitude política completamente absurda, apenas conseguimos nos aprofundar na burrice. Segundo as sábias palavras de Barbara Tuchman, em The March of Folly (A marcha da insensatez), a propósito de como os americanos foram se afundando no Vietnã, ao custo de imenso sofrimento daquele povo, e desgaste político de quatro sucessivos presidentes, “uma vez que uma política foi adotada e implementada, toda atividade subsequente se transforma num esforço para justificá-la” (p. 263). Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás, mesmo depois de 4 anos de desastre, não é evidentemente uma coincidência, é a regra. No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais.

Não perceber a nossa irracionalidade é simplesmente perigoso. E obviamente pouco inteligente. Nada como a história para substituir o conceito de homo sapiens pelo de homo demens. Já pensaram que em nenhum momento da história registrada da humanidade deixamos de nos massacrar uns aos outros? Em cada guerra ou massacre que estudamos, buscamos definir quem eram os bons e quem eram os maus. E se a própria incapacidade de vivermos em paz e colaboração, o que sem dúvida seria mais proveitoso para todos, fosse objeto da nossa análise? Eu gosto muito do texto de Frans de Waal, Our Inner Ape (o primata dentro de nós), em que surge com toda clareza o quanto nos comportamos, quanto à defesa dos nossos territórios, como os nossos parentes mais próximos, os chimpanzés. Guerras tribais, guerras nacionais, guerras mundiais, alguma delas têm algum sentido?

Um outro belíssimo texto, The Righteous Mind (a mente moralista), Jonathan Haidt analisa as nossas motivações, e em particular como as conseguimos embelezar. O Ku-Klux-Klan massacrava para proteger as virgens brancas e queimava casas para civilizar os negros, os nazistas estavam limpando a raça, as guerras das religiões mataram e torturam em toda parte segundo as ordens expressas dos respectivos deuses, a inquisição torturava mulheres, de preferência nuas, para extirpar o demônio que se apossara das suas almas. No Vietnã mataram dois milhões, na Argélia um milhão, na II Guerra Mundial 60 milhões, o Oriente Médio está aumentando a conta a cada dia. Tudo em nome dos mais elevados ideais. O que Haidt deixa claro é como é agradável, profundamente satisfatório, dar livre vazão ao que há de mais podre dentro de nós, em nome dos mais elevados ideais. É o orgasmo supremo. O ódio justificado gera um gozo irreprimível. É ignorância? Sem dúvida, mas não falta de diplomas. Metade dos médicos da Alemanha aderiu ao partido nazista.

Barbara Tuchman escreve muito bem, e isso não é secundário. Mas em particular faz uma análise maravilhosa da burrice no poder, da imensa capacidade de coletivos humanos de gente bem informada, e com poder de decisão, se enterrarem em políticas que não só representam interesses egoístas, mas que ao fim e ao cabo prejudicam os próprios agentes que as implementam. É o que ela chama de folly, insensatez: “a implementação de políticas contrárias ao próprio interesse da instituição ou do Estado envolvido. Auto interesse é qualquer política que conduz ao bem-estar ou vantagem do grupo sendo governado: insensatez é uma política que nestes termos é contra produtiva.” (6) A exploração colonial por parte da Grã-Bretanha era uma violência inadmissível, mas pelo menos compreensível pelas vantagens. A extorsão que tentaram impor à sua colônia americana foi tão burra que conseguiram obter o impensável: a unificação indignada dos tão diversos segmentos do que hoje são os Estados Unidos, e uma guerra fadada ao desastre. É o que resumimos no Brasil com a expressão “dar um tiro no próprio pé.” Haja tiro, haja burrice.

As patéticas políticas da Grã-Bretanha frente aos Estados Unidos foram em grande parte devidas ao que podemos chamara de solidariedade da “patota”, que permite avançar gloriosamente até a evidente derrota. Tentando entender a marcha da insensatez dos britânicos, Tuchman lembra como era a composição dos ministérios: “Eles provêm de cerca de 200 famílias incluindo 174 nobres em 1760. Conheciam-se da escola e da universidade, eram relacionados por meio de cadeias de primos, alianças de casamentos, sogros e familiares de segundos e terceiros casamentos, casavam com as irmãs, filhas e viúvas uns dos outros, e regularmente trocavam amantes  (uma tal Senhora Armstead serviu neste papel ao lorde George Germain, ao seu sobrinho o duque de Dorset, ao lorde Derby, ao príncipe de Wales e a Charles James Fox, com quem viria a casar), nomeavam-se uns aos outros em posições de autoridade e asseguravam uns aos outros posições e aposentadorias” (p.145). Soa familiar? Com duques e lordes a menos, patotas semelhantes empurram o mundo para o desastre nas mais variadas circunstâncias.

Tuchman nos traz uma análise detalhada dos seis papas que conseguiram, entre 1470 e 1530, e sempre em nome dos mais sagrados ideais, se comportar de maneira tão corrupta e indecente, que liquidaram o imenso poder que a instituição representava, abriram portas escancaradas para a reforma protestante e para as sucessivas guerras das religiões. Não eram inconscientes. Mas tinham gerado uma dinâmica que não permitia a volta. Como se os grandes erros buscassem justificativas em erros ainda maiores. Voltar atrás significaria admitir demasiados erros para que fosse possível. Constitui-se um processo irreversível de autodestruição.

Particularmente interessante á a análise detalhada de como se montou e manteve durante décadas uma narrativa completamente surrealista que justificaria o aprofundamento do seu envolvimento na guerra do Vietnã. Com o fim da II Guerra Mundial, a França queria retomar o seu papel colonial neste país. Levaram uma surra homérica em Dien-Bien-Phu, apesar do apoio aéreo norte-americano. Mas tinha sentido os americanos se envolverem numa guerra pela manutenção de um poder colonial francês na Ásia? Como parlamentares bem informados fizeram discursos, em público, explicitando aos colegas e aos cidadãos que se o Vietnã ganhasse a guerra, os Estados Unidos se veriam “irremediavelmente cercados”!! Quando os franceses, depois da surra, tornaram-se mais sábios e voltaram para a França, repassaram a bola para os americanos, que nunca conseguiram se desvencilhar da herança – até que levassem eles também uma surra, décadas e milhões de mortos depois.

As grandes burradas exigem grandes narrativas, que de tanto repetidas acabam sendo aceitas até por quem as inventa. É tão agradável poder se justificar de forma simples e compreensível para si e para os outros. Imaginar que países asiáticos como Vietnã, Laos, Cambodja, Tailândia e outros fossem pedras de dominó, “caindo uma cairiam as outras”, aparece hoje como ridículo. No entanto, tantos acreditaram e em particular os americanos. “Confundir vários países da Ásia do Leste como se não tivessem individualidade, nem história, nem diferenças ou circunstâncias próprias foi o pensamento, desinformado ou superficial ou ainda conscientemente falso, que criou a teoria do dominó, permitindo que isso se tornasse dogma. Porque os orientais no conjunto pareciam tão semelhantes aos olhos dos ocidentais, esperava-se que agissem de forma idêntica e atuassem com a uniformidade de dominós” (p.271). Algum americano conhecia os séculos de lutas do Vietnã por sua independência relativamente aos vizinhos? Os GIs que desembarcavam em Saigon não falavam nem francês nem vietnamita. O racismo implícito nesta visão do “perigo amarelo” teve sem dúvida um papel importante (p.296).

A autora usa um conceito rico, cognitive dissonance, que poderíamos traduzir como dissonância cognitiva, em que o conjunto da narrativa criada se mantém, apesar dos fatos a desmentirem de maneira escandalosa. Entre a realidade e a narrativa, dane-se a realidade. “Para o governante é mais fácil, uma vez que entrou num casulo político (a policy box), permanecer dentro dele. Para um político em nível hierárquico inferior é melhor, para o bem da sua posição, não gerar marolas, não pressionar com evidências que o chefe encontraria penoso aceitar. Os psicólogos chamam esse processo de filtrar evidências discordantes de ‘dissonância cognitiva’, uma forma fantasiosa para o acadêmico dizer ‘não me confundam com fatos’” (p.322). Em outros termos, o apego aos erros torna-se mais rígido. Como é possível, com mais de 1,5 milhões de toneladas de bombas, mais do que da II Guerra Mundial, os vietnamitas não se convençam de que devem negociar? Mais bombas! (p.367).

Tuchman, claramente, não tem muita confiança na lógica do poder ou na inteligência dos grupos que o manejam. “A ausência de pensamento inteligente no exercício do poder é outro dado universal, que levanta a questão de a que ponto, nos estados modernos, há algo na vida política e burocrática que reduz o funcionamento do intelecto em favor de ‘manejar as alavancas’ sem considerar as expectativas racionais. Isso parece ser uma prospectiva que se mantêm.” (398) A filosofia que permeia os escritos de Barbara Tuchman resulta sem dúvida dos seus próprios estudos da história, mas o seu ceticismo relativamente ao exercício do poder tem raízes mais antigas. A autora lembra Platão: “Ele também teve de aceitar que os seus colegas humanos estavam ancorados na vida de sentimentos, agitados como bonecos pelos fios dos desejos e medos que os fazem dançar. Quando o desejo não está de acordo com o julgamento da razão, disse ele, há uma doença na alma. E quando a alma se opõe ao conhecimento, ou opinião ou razão que são as suas leis naturais, isso eu chamo de insensatez” (p.404).

*Ladislau Dowbor é economista e professor da PUC-SP. Seus artigos e livros estão disponíveis no site dowbor.org.

Referências da obra: Barbara W. Tuchman: The March of Folly: from Troy to Vietnam – Random House, New York, 2014 – 470 p.




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