Leituras

Eduardo Coutinho à borda do pândego e do trágico

Segundo o mestre do 'cinema de conversa' e das entrevistas dos seus documentários, algumas das razões para escutar os outros são respeito, cortesia e curiosidade

06/12/2019 12:09

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
''O esforço inalcançável é se colocar no lugar do outro para entender de que lugar o outro está falando."

Eduardo Coutinho, um dos mais brilhantes cineastas brasileiros e refundador do filme documentário no Brasil, diz isto no livro Sete faces de Eduardo Coutinho, lançado há um mês, que versa sobre sua obra - um trabalho de referência - de autoria do jornalista, crítico de cinema e colaborador de Carta Maior, Carlos Alberto Mattos. Além de esmiuçar as diversas facetas da personalidade do diretor e dos seus filmes, o livro vai além.

Leitura recomendada para as férias de fim de ano, é um travelling exemplar de uma época efervescente e hoje saudosa da cultura do país. Vai da década dos anos 60 até fevereiro de 2014. É cenário da trajetória do maior documentarista brasileiro, nascido em São Paulo e morto no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

Percorre os tempos do Cinema Novo (Coutinho, na produtora Mapa, no Rio), os filmes realizados na época por Glauber Rocha, Cacá Diegues, Gustavo Dahl, Leon Hirszman - seu ''pai espiritual'' -, quase todos contando com a participação do futuro diretor, e a sua autoria nos roteiros de diversos filmes da época - como Garota de Ipanema; e poucos lembram desse trabalho de Coutinho -, e em adaptações de Nelson Rodrigues.

Depois da sua passagem como redator do Caderno B do Jornal do Brasil, na fase dourada, na Avenida Rio Branco, Carlos Alberto Mattos nos apresenta o cineasta trabalhando com Paulo Gil Soares e o jornalista Washington Novaes na série de documentários preciosos exibidos nos anos 70 pelo Globo Repórter quando ''Coutinho entendeu que o documentário de entrevistas era uma construção da qual participavam, em igual medida, o entrevistador e o entrevistado.''

O volume vai além da pesquisa desenvolvida pelo autor, acurada e recheada de minúcias, e apresenta uma valiosa seleção de imagens pessoais de Coutinho quando jovem e estudante no mitológico IDHEC de Paris (o Institut des Hautes Études Cinématographiques), mais fotos de still de toda a filmografia do diretor, e expõe o afeto e respeito, humano e intelectual, pelo seu personagem e protagonista com o qual conviveu em contato próximo.

A entrevista que Mattos fez com Coutinho, em 27 de agosto de 2003 e prolongada por seis horas, na época do lançamento da obra maestra Edifício Master, consta do fim do volume e é leitura obrigatória para cinéfilos, estudantes de cinema e ''para todos aqueles que venham a se interessar pela vida e pela obra do documentarista'', escreve no prefácio o cineasta Silvio Da-Rin.

Durante a conversa, no seu humor permanente e ferino, Coutinho comenta, entre dezenas de outras revelações do seu modo de ser e de filmar: (...) ''eu sempre disse que se me derem um tema de merda - escovar os dentes, por exemplo - no Nordeste, será melhor do que fazer um grande tema em São Paulo ou no Paraná. A riqueza oral do Nordeste, ou mesmo de certos lugares de Minas Gerais, é espantosa."

As sete faces às quais Carlos Alberto se refere no título do seu livro são as do ''Coutinho estudante, ficcionista, repórter, documentarista social, cineasta de conversa, experimental e, finalmente, o Coutinho personagem de sua própria vida, o homem sempre à borda do pândego e do trágico."

"Ele aparece aqui,'' diz o autor na sua Introdução, " como diretor de teatro e cinema, roteirista, ator e crítico, numa variedade de funções pelas quais passou enquanto não reunia condições de descobrir e assumir, tardiamente, sua verdadeira vocação."

Coutinho, para ele - e com toda razão -, ''tornou-se o mais importante e influente documentarista brasileiro da virada do século XX para o XXI não somente por seu modo judicioso de proceder, mas também pelo corpo da obra que erigiu ao longo da carreira.''

''A veia humanista de Coutinho, '' acrescenta Mattos, '' aliada à longa experiência de contato com gente desfavorecida, levou-o a um rigor cada vez maior no trato com as palavras alheias.''

Sete faces de Eduardo Coutinho aborda o diretor ficcionista de O pacto: influência de Nelson Rodrigues, O homem que comprou o mundo e Faustão. Na equipe do Globo Repórter, quando trabalhou em Seis dias de Ouricuri, Theodorico, o imperador do sertão e Cabra marcado para morrer: o cadáver sai do armário, entre outros vídeos desse programa que, no seu tempo, fez história na Globo.

No dizer do autor, como ''documentarista social'', dentre outros filmes, Coutinho fez O jogo da dívida, O fio da memória, Boca de lixo. Como ''cineasta de conversa', os filmes Santo Forte, Babilônia 2000, Edifício Master, Peões, O fim e o princípio, As canções. Chegou a participar de Últimas conversas - sobre o qual deixou anotações, e foi editado pela sua montadora Jordana Berg e terminado por João Moreira Salles, um grande amigo.

E no cinema experimental, os filmes Jogo de cena, Moscou e Um dia na vida.

''Importante capítulo do livro,'' escreve o documentarista Silvio Da-Rin, "é aquele dedicado a Coutinho como personagem, composto por anotações sobre seu estilo de vida, suas preferências e idiossincrasias. Um capítulo como esse só poderia ser escrito por alguém que teve a ventura de privar, ao longo de décadas, de contato próximo com o biografado."






Conteúdo Relacionado