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Engels: um instinto afiado de caçador

Até então inédito em português, está sendo lançado 'Engels - uma biografia', do historiador alemão Gustavo Mayer, originalmente publicado em 1930

24/11/2020 11:45

 

 

Disponível a partir da próxima semana - dia 30 deste mês - está sendo publicada pela Editora Boitempo, pela primeira vez no Brasil, de Gustav Mayer, a biografia que traz um poderoso relato sobre a vida e obra de Friedrich Engels (1820-1895), um dos criadores do socialismo científico.

Passando pelos principais eventos de sua vida, Mayer descreve a infância de Engels, sua vida na academia, seu rompimento com a democracia burguesa, o encontro e amizade com Karl Marx e a importante publicação de O manifesto comunista, em 1848. O biógrafo também apresenta nuances de sua relação com a família, seu trabalho na indústria, publicações e organizações para qual escreveu e militou até sua morte em Londres aos 75 anos.

Publicado originalmente em 1930, em dois tomos, Mayer apresentou em língua inglesa uma segunda versão da biografia, em 1936, mais acessível e enxuta. É essa a versão que chega ao Brasil, em comemoração ao bicentenário de Engels, comemorado no próximo dia 28 de novembro.

Para lembrar ao leitor: Gustav Mayer (1871–1948) foi um jornalista e historiador alemão que se dedicou ao estudo do socialismo e a história do movimento operário. Em 1922, em Berlim, foi o primeiro professor alemão de história da democracia e dos partidos políticos. Após a ascensão do nazismo, mudou-se para a Holanda e, posteriormente, para a Inglaterra, onde viveu até a sua morte.

Abaixo, alguns trechos do seu brilhante trabalho para uma degustação do livro.

“Engels deixou Manchester no final de agosto de 1844 e viajou para a Alemanha, passando por Paris. Depois de longos meses sob o “terrível céu de chumbo” de Lancashire, seu espírito alegre acelerou-se novamente na vida brilhante dos bulevares. Mas a grande experiência dos dez dias que passou em Paris não foram as perambulações pela cidade nem o passeio pelos lugares consagrados pelas memórias de Babeuf, Marat e Robespierre: foi sua nova amizade com Karl Marx”.

'' (...) Engels era muito menos nervoso, muito mais estável que Marx; tinha uma disposição mais brilhante, menos contorcida e mais harmoniosa. Física e intelectualmente, era mais elástico e

resiliente. Frequentemente censurava Marx por permitir que seu temperamento o “tragasse”, por nunca relaxar e nunca estar satisfeito consigo mesmo. Ambos eram igualmente capazes de resistência, tenacidade e persistência, e ambos possuíam grande amor ao trabalho e uma capacidade inesgotável para ele. Ao longo de suas vidas, entregaram-se sincera e desinteressadamente à sua tarefa, perseguindo-a com devoção fanática e uma rejeição indômita da vaidade pessoal. O tom das cartas que trocaram é estimulante, rápido, livre e fácil: ele reflete a modéstia que em ambos se combinava com uma crueldade selvagem contra si mesmos e contra os outros.''
(Páginas 43-4)

'' (...)Wilhelm Liebknecht, que conhecia Engels bem, fala do olhar penetrante de seus brilhantes olhos azuis. Já conhecemos seu instinto afiado de caçador, sua visão segura e sua adesão incansável à verdade: vimos como seu senso de direção ágil e resoluto o serviu durante as perplexidades de sua juventude, ajudou-o a ensinar a si mesmo e, finalmente, a encontrar o objetivo que procurava. Ele sempre foi capaz de descartar o inútil e escolher o útil por meio de um processo instintivo de seleção. Mas a ferroada da controvérsia foi necessária antes que todos os seus poderes de crítica pudessem ser despertados. E, mesmo assim, a crítica intelectual raramente era a força motriz de sua alma; as decisões finais já tinham sido tomadas, pois eram imediatas e talvez inconscientes. Ainda assim, se as críticas fossem necessárias, ele se entregava a elas com muito prazer e destreza, pois era um lutador por natureza. Em seus dias de juventude, quando seus julgamentos agudos e temperamento explosivo ofenderam os outros, ele não evitou desafios ocasionais para duelos; mais tarde, seu interesse apaixonado pela ciência militar lhe rendeu o apelido de “o general”, e seus amigos o consideravam o Carnot de uma futura revolução alemã.'' (Páginas 44-5)

E para quem estiver interessado na vida parisiense de Engels e Marx, trabalhando juntos e também em Londres e Bruxelas, o filme O jovem Karl Marx conta com o excelente ator alemão August Diehl no papel principal, com Stefan Konarske, que faz Engels, com Vicky Krieps como Jenny von Westphalen e Hannah Steele como Mary Burns, a companheira e grande amor de Engels.

O objetivo do filme, segundo o diretor Raoul Peck, um haitiano de 64 anos, foi comemorar os 170 anos, em 2017/2018, do lançamento em alemão do Manifesto Comunista através do recorte dos seus tempos de juventude. O exílio, em Paris, aos 26 anos; os primeiros anos do casamento com Jenny – filha do barão de Von Westphalen, sua companheira histórica, inspiradora e muitas vezes colaboradora; e, sobretudo, o encontro com o rico e burguês Friedrich Engels que viria ser o seu amigo dileto e coautor do documento fundador da filosofia da classe trabalhadora.

O jovem Karl Marx é regado ao som de Bob Dylan cantando Like a Rolling Stone. ''Por que as pedras que rolam?''

Sobre o seu filme, Peck reforça Marx e Engels e diz: ''A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes''.

Na resenha de Egas Moniz Bandeira em Carta Maior, o registro das poesias que os dois amigos escreveram quando jovens.

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