Faz sentido falar em socialismo hoje?

O socialismo é contra a natureza humana? Acaba sempre em ditadura? É possível na União Europeia? Eis algumas das questões abordadas no livro 'ABC do Socialismo'

17/04/2019 19:28

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Créditos da foto: (Divulgação)

O socialismo funciona bem na teoria, mas a natureza humana não o torna impossível de realizar? Constitui uma boa ideia, mas não acabou sempre em ditadura? Tem soluções para resolver a atual crise climática e ambiental? É o socialismo possível na União Europeia?

Estas são algumas das questões colocadas no ABC do Socialismo, livro a muitas mãos de autores distintos mas com o gosto de pensar em comum. Organizado por João Mineiro e Catarina Príncipe, com ilustrações de Gui Castro Felga, o livro conta com contributos de Marisa Matias, António Louçã, Bhaskar Sunkara, Luís Fazenda, Mário Tomé, Erik Olin Wright, Hugo Monteiro, Irina Castro, Izaura Solipa, João Madeira, Manuel de Oliveira, José Guilherme Gusmão, José Soeiro, Keeanga-Yamahtta Taylor, Michael A. McCarthy ou Vivek Chibber, entre outros.

Editado pela Parsifal, o ABC do Socialismo já se encontra nas livrarias. O esquerda.net divulga aqui a introdução do livro.

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Ainda faz sentido falar em Socialismo hoje?

Catarina Príncipe e João Mineiro

Vivemos no capitalismo. O seu poder parece inescapável. Também foi assim com o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser resistido e transformado pelos seres humanos.
Ursula K. Le Guin

Trinta anos depois da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, o mundo vive velhas-novas atribulac%u027ões: o crescimento dos fascismos um pouco por todo o planeta, a crise climática, ressaltos de crises económicas. Mas, trinta anos depois, o mundo continua a ser palco de combates por sociedades mais justas e humanas. Emergiram novos movimentos sociais e laborais, experiências (mesmo que frustradas) de governos de esquerda e novas figuras que, defendendo a ideia de socialismo, conseguem fazer caminho e romper com a hegemonia liberal dos media em países tão importantes quanto improváveis como os Estados Unidos ou a Inglaterra.

Trinta anos depois da declarac%u027ão obsoleta de que as sociedades humanas tinham chegado ao «fim da história», as sociedades e a própria história provam-nos que não, que elas continuam a ser campos abertos de possibilidades, espac%u027os para as lutas decisivas sobre a nossa vida – e é neste contexto que o socialismo (enquanto termo e ideal de construc%u027ão) volta a ocupar uma centralidade perdida até há uns anos.

O que se esconde por detrás de uma palavra

O termo «socialismo» é um local de combate sobre o seu significado e a sua história é feita de desencontros. No âmago desses desencontros cruzam-se polémicas tão distintas como a natureza dos sistemas de dominac%u027ão, a relac%u027ão entre partidos e movimentos sociais, o papel e a natureza do Estado ou a relac%u027ão entre o indivíduo e o coletivo. Além disso, inúmeros acontecimentos foram também estruturantes de encontros e desencontros no campo socialista: da Comuna de Paris à revoluc%u027ão russa; da emergência do estalinismo à Guerra Civil Espanhola; do Maio de 68 à autodeterminac%u027ão dos povos colonizados; do Prec à construc%u027ão da UE.

Após a queda da Unia%u003o Soviética, que se denominava socialista, e com a revelac%u027ão das suas características antidemocráticas e violentas, o termo «socialismo» ganhou uma conotac%u027ão essencialmente negativa para a maioria das pessoas. Simultaneamente, algumas tradic%u027ões políticas dentro do amplo espectro da esquerda que se denominam socialistas defendem e aplicam políticas liberais. Em Portugal, por exemplo, quando pensamos nos ou nas socialistas, tendemos a pensar nas pessoas afiliadas no Partido Socialista, um partido fundamentalmente liberal. Resgatar, portanto, a definic%u027ão original e o sentido político do termo «socialismo» – sem deixar que ele sirva para definir estados autocráticos ou políticas liberais – é um dos grandes combates que os socialistas travam ainda hoje e é também o propósito deste livro.

O socialismo é, neste sentido, uma proposta de organizac%u027ão das sociedades humanas em todas as suas esferas. Uma arte de organizac%u027a%u003o coletiva da nossa vida, com vista à transformac%u027ão das relac%u027ões desiguais de poder que se expressam nos mais variados lugares – no trabalho, nas relac%u027ões de género, na família, na escola, no bairro, no hospital, no prédio, nas associac%u027ões, nos partidos, nas religiões, nas prisões, na arte, na noite, no sindicato, nas redes sociais, nas eleic%u027ões... O socialismo é uma disputa por uma sociedade que acabe com qualquer forma de dominac%u027ão de pessoas sobre pessoas, ou seja, onde não haja lugar para nenhuma forma de explorac%u027ão (o domínio económico de pessoas sobre pessoas) ou opressão (o domínio social, político, cultural e interpessoal de pessoas sobre pessoas).

O socialismo constrói-se, por isso, em oposic%u027a%u003o ao capitalismo, uma forma de organizac%u027ão económica que tem como pilar fundamental a dominac%u027ão dos muitos pelos poucos, e às suas articulac%u027o%u003es com as diferentes formas de opressão. No sistema capitalista, as decisões que afetam cada esfera da nossa vida não são realmente nossas, as noc%u027ões de democracia e liberdade são mancas e fundamentalmente enviesadas, a economia é organizada em func%u027ão do lucro e as sociedades são estratificadas e desiguais. Por causa dessa desigualdade estrutural, o desenvolvimento humano é tolhido da sua potencialidade, as nossas aspirac%u027ões e desejos toldados, toda a potencialidade que temos para criar, inventar e crescer é subjugada aos ditames dos mercados, do lucro, da competic%u027a%u003o e da ganância.

Mas, além de ser um objetivo, o socialismo é também uma prática concreta sobre como atuamos no mundo que temos, para o conseguir transformar. Não pode ser um discurso para dias de festa. É definic%u027ão de estratégias, de forma a construir a forc%u027a necessária para mudar o mundo. A política socialista não é uma religia%u003o, o culto de um mito ou uma filosofia abstrata. É uma política concreta para intervir nos conflitos do nosso tempo, mas que tem um horizonte estratégico, que procura superar a ordem capitalista.

Este livro é um reflexo de todos estes debates. Para propormos uma sociedade nova precisamos de pensar sobre cada uma das suas esferas e termos proposta sobre como agir sobre elas. Este livro nasce da vontade de debater diferentes dúvidas que a maioria das pessoas tem sobre o socialismo. Para isso, não bastam declarac%u027o%u003es de intenc%u027ões: é necessário analisar cada pergunta ou dúvida com seriedade, compreender a sua pertinência e experimentar respostas. Para essa tarefa convidámos gente de muitos percursos e que gosta de pensar em comum: Irina Castro, Hugo Monteiro, João Madeira, António Louc%u027ã, Luís Fazenda, Marisa Matias, Mário Tomé, Carlos Carujo, João Carlos Louc%u027ã, José Soeiro, João Manuel de Oliveira, Izaura Solipa, José Guilherme Gusmão, Nuno Teles, Gui Castro Felga, Erik Olin Wright, Mike A. McCarthy, Vivek Chibber, Bhaskar Sunkara e Keeanga-Yamahtta Taylor.

Embora a prática seja o que acontece fora deste livro, queremos que ele seja um instrumento que nos ajude à reflexa%u003o e ao debate — para podermos agir. Marx tinha como mote questionar tudo. E é com os olhos da crítica e da pergunta que olhamos, também, para o debate teórico. Isto significa que não temos de concordar com tudo o que os e as autoras escrevem: significa, sim, que podemos questionar e continuar os debates que queremos que sejam cada vez mais abrangentes e feitos por mais pessoas. O socialismo move-se na heterogeneidade, com lugar à divergência, e onde a diversidade é uma forc%u027a para encontrarmos aquilo que temos em comum.

O que pretendemos também com este livro é questionar aquilo que nos dizem ser inevitável. Para a maioria das pessoas é mais fácil imaginar uma invasão alienígena, um exército de zombies ou uma distopia tecnológica do que um mundo que não se reja pelas regras do capital. E essa é uma tarefa central para os e as socialistas: quebrar as fronteiras do possível já existente e imaginar outros possíveis para que possamos, coletivamente, imaginar e construir «um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres», como dizia Rosa Luxemburgo. Porque esse mundo está mesmo apenas ao alcance da nossa vontade.

O socialismo é humanidade

Muitas vezes os e as socialistas são tidas como pessoas exclusivamente pragmáticas e rígidas, movidas apenas pela racionalidade. Embora isso possa ter um fundo de verdade, aquilo que nos move vai muito além disso.

O objetivo do socialismo é tão simples quanto bonito: libertar todas as pessoas das diversas formas de dominac%u027ão e substituir os sonhos perdidos e a alienac%u027ão pelo florescimento humano, pela criatividade e pela solidariedade. No fundo, queremos um mundo onde nos possamos realizar plenamente, um mundo onde a competic%u027ão seja substituída pela cooperac%u027ão e onde a noc%u027ão e prática da solidariedade — que todos e todas já experienciamos entre amigos, família, colegas e desconhecidos — sejam a base das nossas sociedades.

O socialismo move-se pelo direito mais do que fundamental a sermos felizes. E esse direito na%u003o é só possível; ele é absolutamente necessário. Conseguiremos torná-lo realidade com a nossa forc%u027a, a nossa resiliência, a nossa alegria apesar das dificuldades, a nossa teimosia, a capacidade de contarmos as nossas histórias e de imaginarmos um mundo tão melhor do que este. Nós somos muitos e eles são poucos e precisam de nós muito mais do que precisamos deles. Como escreveu Arundhati Roy, «um outro mundo não é só possível, ele já está a caminho. Nos dias silenciosos, já o conseguimos ouvir respirar». E tem toda a razão.

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Catarina Príncipe é ativista social e política desde os 15 anos. Com um percurso académico irregular (entre o teatro, a literatura e os estudos culturais e de género), tem desenvolvido o seu trabalho teórico em torno do desenvolvimento da esquerda europeia e da relac%u027ão entre os Estados-nac%u027ão e a União Europeia. Trabalha ocasionalmente para a Fundac%u027ão Rosa Luxemburgo como investigadora e tradutora, depois de ter vivido quatro anos em Berlim. É, desde 2014, editora convidada da revista Jacobin, para a qual escreve, traduz e edita. Nos últimos anos, tem corrido a Europa e a América do Norte em conferências, debates, congressos e entrevistas. Coeditou, com Bhaskar Sunkara, o livro Europe in Revolt, publicado nos Estados Unidos em 2016. Tem capítulos em livros, artigos em várias publicac%u027o%u003es e continua a fazer da crítica ao capitalismo e da busca por um mundo melhor o centro de toda a sua atividade.

Joa%u003o Mineiro Mestre em Sociologia pelo ISCTE-IUL, é investigador no Centro em Rede de Investigac%u027ão em Antropologia. Encontra-se a desenvolver uma tese de doutoramento em antropologia financiada pela FCT. Entre outras distinc%u027ões, recebeu recentemente o Prémio de Iniciac%u027ão à Investigac%u027ao Sociológica da Associac%u027ão Portuguesa de Sociologia. Foi dirigente da Associac%u027ão de Estudantes do ISCTE-IUL e representante de estudantes no Conselho Geral. Publicou recentemente, e em coautoria, O Espectro dos Populismos. Ensaios Políticos e Historiográficos (Tinta-da-China, 2018), Caloiros e Doutores. Um Estudo Sociológico Sobre a Praxe Académica em Portugal (Mundos Sociais, 2018), O Estado por Dentro: Uma Etnografia do Poder e da Administrac%u027ão Pública em Portugal (FFMS, 2017) e Desobedecer à Praxe (Deriva, 2015). É ativista da CULTRA.

*Publicado originalmente em esquerda.net

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