Leituras

Fim de ano na companhia de Jorge Amado, Hatoum, Koribko, Cuarón, Padura e com o vovô Marx - entre outros

 

23/12/2018 18:41

(Divulgação/Arte Carta Maior)

Créditos da foto: (Divulgação/Arte Carta Maior)

 
Precisamos parar. O ano de 2018 parecia não ter fim. Foi muito difícil. Sofremos várias derrotas, em todos os campos, mas ficou a esperança de que ainda possuímos base social para a resistência ao fascismo e uma clara capacidade de derrotá-los. Porém, há muito a fazer.

Não podemos cometer os mesmos erros de 1964/1968 quando imaginamos que as forças do obscurantismo nos "entregariam" o país de volta. Ficaram no poder mais de 20 anos. Muitos dos nossos foram assassinados, outros exilados, mas conseguimos sobreviver e lutar pelas Diretas Já e chegar ao Planalto em 2003.

Agora, trata-se de resistir para manter a Democracia viva. Carta Maior apóia a união das esquerdas, mas aponta para a necessidade de criarmos outro discurso para que o povo nos entenda e possa vir conosco nessa luta duríssima que enfrentaremos a partir de janeiro de 2019.

Os Bolsonaros não são nada. O perigo está por trás deles e - podem ter certeza -, as decisões não são tomadas aqui no nosso território ainda nacional.

Estamos todos na Carta Maior muito esgotados, assim como toda a mídia alternativa. Precisamos dar uma parada para repensar o futuro e encontrar a narrativa mais adequada.

Desta forma, vamos paralisar as atividades domingo, dia 24 de dezembro, retornando somente no domingo, seis de janeiro de 2019, quando já haverá "nova desorientação" do governo.

Durante esse período (24/12 a 06/01) sugerimos que vocês assistam alguns dos filmes que circulam por aí, nas telas e nas telinhas, e que leiam alguns livros, todos importantes.

De alguma forma eles tratam do momento que vivemos no mundo.

Além disso, continuaremos a publicar as Cartas do Mundo, editoria de grande sucesso e que nos estimula a mantê-la no ar tendo em vista que mais de 12 veículos da América Latina estão replicando as matérias ali publicadas.

Neste fim de ano com nada a festejar - o próximo ano se aproxima com perspectivas sombrias – e com pouco dinheiro no bolso para celebrar; celebrar o quê? – aqui ficam sugestões de Carta Maior para buscarmos a Arte como refúgio neste recesso do longo feriadão.

Usufruir de entretenimento barato e inteligente lendo bons livros, assistindo a ótimos filmes e nos preparando para as batalhas que virão.

Com este objetivo reunimos resenhas, pequenas análises e dicas úteis num roteiro informal que atende o gosto de cada um.

Boas férias.

As leituras

De Jorge Amado às Guerras Híbridas

Exemplares do livro Capitães da Areia, de 1937, de Jorge Amado, chegaram a ser queimados em praça pública. Era o início da ditadura getulista do Estado Novo e a repressão começava a mostrar suas garras. O belo livro do escritor baiano versa sobre os meninos de rua de Salvador que se escondem em um armazém abandonado em uma das praias da cidade.  Trata-se de uma das leituras básicas da literatura brasileira assim como O cavaleiro da esperança, do mesmo Amado.

Essa biografia escrita em 1941 foi uma forma de pressionar pela libertação de Luiz Carlos Prestes, preso desde 1936. Com o golpe militar de 1964, o livro voltou a sumir das livrarias. Reapareceu em 1979.

Jorge Amado narra os momentos mais dramáticos da trajetória de Prestes: a épica coluna que atravessou o Brasil entre 1924-27, o exílio, a tentativa frustrada de levante contra Getúlio Vargas em 1935, a prisão na solitária e a entrega de Olga Benário - grávida de Anita Leocádia, que escreve o posfácio dessa edição – pelo governo brasileiro (Supremo Tribunal Federal) ao governo nazista. Leitura imprescindível.

Outras leituras sugeridas para o feriadão: o mais recente livro do amazonense Milton Hatoum, de dois anos atrás, A noite da espera, primeiro volume da sua trilogia O lugar mais sombrio. O tema é o terror da ditadura de 1964. Um dos melhores escritores brasileiros, ele recebeu este ano o Premio Roger Caillois, uma das mais importantes homenagens da França aos escritores.

Outro autor de respeito é Raduan Nassar, vencedor do Premio Camões e autor de Um copo de cólera e de Lavoura arcaica, dois livros de leitura indispensável. Esta semana Nassar, um dos principais e mais corajosos escritores do país, publicou um breve texto no qual avalia: “A destruição da soberania nacional tem um nome: Força Tarefa da Lava Jato”. Para ele, “em conluio com o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República, a Lava Jato não só propiciou o golpe de 2016, como liquidou com a economia, quebrando inúmeras empresas, levando o desemprego às alturas, além da entrega a grupos estrangeiros das riquezas do país, como o pré-sal”. Coloque seus livros na sua lista.

Há também o novo Leonardo Padura intitulado A transparência do tempo, com o mesmo protagonista, o célebre detetive Mario Conde, criado pelo cubano, desta vez às voltas com o roubo de uma valiosa imagem de uma Virgem negra. Catolicismo, santeria, os cortiços e as ruas de Havana, e o passar do tempo são os ingredientes de mais um eletrizante romance do excelente autor de O assassinato de Trotsky.

Outra sugestão é a leitura do livro do primeiro escritor independente a receber o renomado Premio Jabuti, o cearense Mailson Furtado, de 27 anos, que vive e trabalha na cidade de Varjota e escreveu à mão À cidade. Importante conhecer o seu trabalho.

O presente de Natal para os pequenos pode ser ‘’O Capital’’ para crianças, lançado este ano, com grande sucesso de vendas. O autor que adaptou a obra seminal de Karl Marx para leitura de meninos e meninas é o catalão Joan R. Riera, de Barcelona, 40 anos. A co-autora e ilustradora do texto, animado com quadrinhos de excelente qualidade e em cores vibrantes, é Liliana Fortuny. Ela é a autora do pequeno conto de apresentação, no volume, no qual o próprio Karl Marx é transformado em avô Carlos, quem explica aos netinhos como o capitalismo funciona. 

E um dos grandes cartazes de fim de ano, atualmente descoberto (ou redescoberto) pelo chamado grande público: o volume Guerras híbridas (Editora Expressão Popular), do jornalista, analista político e especialista em geopolítica, Andrew Korybko, de 174 páginas, autor da expressão que hoje está rolando mundo afora e onde ele apresenta o perturbador conceito para explicar as novas táticas (sem tanques nem violência aparente, física), dos governos dos Estados Unidos na derruabada de governos.

A chamada guerra híbrida vem a ser uma combinação de revoluções coloridas e de guerras não convencionais que ‘’substituem’’ governos mediante golpes com uma aparência legalista.

Korybko parte do estudo de caso da Síria e da Ucrânia e constrói o novo conceito cujo modo de operação pode ser facilmente identificado em outros conflitos no Oriente Médio assim como na América Latina – Brasil inclusive, em 2016; e atualmente com indícios de inicio na Bolívia e no Uruguai.

Na epígrafe de Guerras híbridas, o autor relembra Sun Tzu, o célebre general, estrategista e filósofo chinês, autor de A arte da guerra: "O Mérito Supremo consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar."

Leitura indispensável.




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