Guerras do século 21

Volume de leitura indispensável para quem pretende decifrar o mundo de hoje, o livro/manual 'Guerras híbridas - das revoluções coloridas aos golpes', de Andrew Korybko, explica como um país-alvo é desestabilizado sem bombardeios nem tanques na rua - como ocorreu no Brasil

07/06/2019 18:46

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Se alguém deseja compreender o mundo caótico e cada vez mais irracional em que vivemos, é obrigatório ler o livro do cientista social russo Andrew Korybko, Guerras híbridas – das revoluções coloridas aos golpes.  Lançado no fim do ano passado pela editora paulista Expressão Popular, nas suas 171 páginas ele constrói o  conceito que explica as novas táticas de guerra dos Estados Unidos para derrubar governos – o familiar regime change ou seja, a mudança de um projeto de governo pelo seu oposto, de aceitação incontestável.

Uma mescla de revoluções coloridas com guerras não convencionais, a guerra hibrida é mais econômica que a convencional e o seu custo, inclusive político, é muito menor do que tanques nas ruas e aviões despejando bombas de dissuasão em civis. Uns a chamam de guerra assimétrica, difusa ou de quinta geração, na qual são atacados sentimentos e percepções dos cidadãos.

Seu poder também é letal, mas de modo diferente. Ela  assassina corações e cérebros, às vezes pelo resto da vida das vítimas, através de um bombardeio sistemático e contínuo, durante anos, de informação distorcida, manipulada e com notícias falsas, com campanhas de estímulo ao ódio e à discriminação de ‘’inimigos’’ internos, com o combate exasperado da corrupção (é o principal pretexto para desencadear revoltas e protestos de ruas), a prisão de políticos indesejados na vida pública, a compra desenvolta das elites empresariais locais do país/alvo (os protagonistas dos mercados) e de vastos segmentos de membros de tribunais de justiça - juízes, desembargadores, procuradores e ministros  cooptados.

O poder de destruição da guerra híbrida em um país/alvo é virulento. Destrói-se o futuro democrático do país e a sua soberania para transformá-lo em país-coadjuvante e vassalo do Império.

O sucesso desse tipo de guerra já foi comprovado na Ucrânia e no Egito, e se encontra em adiantado estágio na Síria, onde saiu de controle com o governo de Assad que luta e resiste com a ajuda russa. Na Líbia, ela conseguiu desintegrar o país. E se encontra em fase de processo em outras regiões que estão sendo desestabilizadas. Nos Bálcãs, em vários países centro e sul-americanos – Brasil e Venezuela entre eles, com processos ativos, em curso -, e diversos  africanos.

(Neste último caso, o mais escandaloso, basta seguir o noticiário internacional de canais de TV europeus exibindo cenas diárias, há meses, das violentas disputas locais patrocinadas e alimentadas pelo Império, pela OTAN e pelos próprios governos europeus algumas vezes, em suas ex-colônias: Congo, Moçambique, Sudão, Costa do Marfim, Nigeria entre outros.

Campeiam as guerras de false flag, por procuração, buscando neutralizar o avanço econômico chinês maciço na África.

O autor de Hybrid Wars: the indirect adaptive approach. To regime change lançou o volume em 2015 pela editora da Universidade Russa da Amizade dos Povos. Jornalista na Sputnik News, Kuribko é  analista político e conselheiro do Institute for Strategic Studies and Predictions, uma divisão da universidade moscovita. Os seus estudos são orientados pela geopolítica na Eurásia.

O livro de 171 páginas atualmente roda o mundo e consagrou o cientista como criador da expressão guerras híbridas. O volume, com uma bibliografia expressiva (Edward Bernays e o seu clássico, Propaganda, Leonid Savin, Gene Sharp, Brzezinski e outros, e grande quantidade de documentos americanos desclassificados) foi traduzido para o português no fim de 2018. É resultado dos estudos do autor sobre países/ alvos desse novo tipo de ataque, países estratégicos do ponto de vista geopolítico – como o Brasil, no Atlântico Sul -  ou ricos em gás, óleo, minérios, água – novamente: como o Brasil.

O livro é um manual completo com o beabá do assunto: como dar um golpe em um governante’’inimigo’’.

 

A Economia desses estados cobiçados é usada como uma arma  da desumana guerra imperial nesse novo formato que foi concebido, estudado cientìficamente, planificado e gestado  há décadas.

O primeiro passo da abertura para a guerra híbrida é dado, necessariamente, com uma revolução colorida que pode assumir em seguida diversas formas segundo a realidade local.

No Brasil, hoje está claro o que se passou em 2013, os protestos de rua contra o aumento de alguns centavos no preço de passagens de ônibus se tornaram rapidamente ações violentas em curto espaço de tempo, foram estimulados e apoiados com vigor e persistência pela mídia oligárquica e culminaram, três anos depois de crises e sabotagens, no golpe à presidente Dilma Rousseff.

"As revoluções coloridas funcionam melhor quando há algum grau de insatisfação latente ou explícita em direção ao governo ou à sua agenda", escreve Korybko. "Isso ajuda a atrair "naturalmente" mais pessoas para a mudança de regime".

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Em geral", ele escreve, "são movimentos que podem ser concebidos como "protestos populares" organizados ou desencadeados do exterior e visam derrubar o governo através de meios supostamente "pacíficos". O que não significa que todos que levantam uma bandeira e marchem numa rua da cidade sejam "agentes estrangeiros". Eles apenas estão sendo manipulados como "tolos úteis" ajudando a alcançar o objetivo estratégico de elementos estrangeiros".

Uma observação precisa de Korybko é esta: as revoluções coloridas têm uma tendência alarmante para evoluir em direção ao terrorismo urbano; mas a percepção da sociedade, desses movimentos, é a de que eles são "pacíficos".

"Qualquer tipo de violência por parte dos movimentos de ruas é noticiado pela mídia como sendo consequência de "provocações" do governo". Segundo o cientista russo, "o mais assustador sobre as revoluções coloridas é elas parecerem  "protestos populares legítimos": e é esta a narrativa promovida pela mídia principal".

A grande mídia precisa ser a fiel e indissociável parceira dos agentes promotores do movimento colorido, lembra Koribko. "Depois de uma provocação planejada, ela precisa incitar o estado a responder com força contra os "manifestantes". E deve continuar, como fez aqui, no Brasil, a argumentar que o governo "perdeu legitimidade" e, portanto, deve "renunciar".

A propósito,  ele lembra a observação do americano William Lind, há 30 anos, num artigo na Marine Corps Gazette: "As notícias televisionadas se tornarão uma arma operacional mais poderosa do que as divisões armadas".

Profecia que está se cumprindo com a inestimável colaboração das suas co-irmãs whatsapp, facebook, youtube, twitter, aplicativos de toda ordem, e afins.

O jornalista Pepe Escobar, analisando todos esses processos no Brasil, recentemente destacou que é "essencial como primeiro passo (NR: de uma revolução colorida) influenciar uma classe média não comprometida com seu país para avançar com os métodos de desestabilização política de um governo, e operando sobre pequenos grupos de jovens, nas redes sociais, para que fomentem o descontentamento".

"No Brasil", diz Escobar, "isso se apresentou com toda clareza na construção da narrativa de que Dilma Rousseff e Lula eram os políticos mais corruptos do país, assim como no uso massivo de fake news durante as eleições de 2018".

E Andrew Koribko acrescenta: " A parte agressora, as salas de bate-papo online e as páginas no facebook se tornam o novo covil dos militantes".

Na leitura deste trabalho – indispensável, repetimos – chamamos a atenção para a apresentação do volume, de autoria do historiador gaúcho Miguel Enrique Stédile, onde ele diz: "(...) o leitor não terá dificuldade em identificar um modo de operação idêntico com episódios recentes na Venezuela e mesmo no Brasil".

E conclui: "Para Koribko, os Estados Unidos são o único país a travar a guerra híbrida hoje e faltam aos países-alvos compreensão do funcionamento e da totalidade da extensão deste método. Assim, conhecê-lo é o primeiro passo para prevenir e evitar as revoluções coloridas e fabricadas, mas principalmente, os golpes".



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