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Novo livro do escritor cubano Leonardo Padura é um relato ''longe dos simplismos com que a ilha costuma ser tratada'', escreve o ator Wagner Moura na sua apresentação da coletânea de fascinantes pequenos ensaios do autor

29/09/2020 12:29

O escritor Leonardo Padura (Samuel Sánchez/El País)

Créditos da foto: O escritor Leonardo Padura (Samuel Sánchez/El País)

 

O livro de Leonardo Padura, que acaba de ser lançado pela Editora Boitempo, novamente confirma o escritor como uma das presenças mais importantes da literatura cubana nos últimos anos. Depois de O homem que amava cachorros, Hereges, A transparência do tempo e O romance da minha vida, agora Água por todos os lados, um ''armazém de memórias'', como ele diz, chegou e apresenta ao leitor algumas das suas grandes paixões e inspirações: a literatura, o beisebol, a cultura habanera, a terra natal, o seu amado país, a cidade de Havana e o bairro onde sempre morou a família - Mantilla, na periferia da capital.

Prestes a completar 65 anos de idade no próximo dia 9 de outubro, Padura costuma esclarecer que é um ''escritor cubano que vive e escreve em Cuba porque não posso e não quero ser outra coisa, e porque (e sempre posso dizer que apesar dos mais diversos pesares) preciso de Cuba para viver e escrever”.

Os livros do escritor estão traduzidos para 30 línguas, nos mais importantes centros editoriais e também para alguns idiomas restritos; e além do árabe, o lituano e o sérvio.

Antes mesmo de ser publicado, seu mais recente trabalho, deste ano, Como polvo en el viento, já estava contratado para seis idiomas estrangeiros. "Não posso me queixar, não. E não me queixo!'' ele diz, na entrevista que nos deu por email, de Havana, cinco anos depois da nossa conversa para Carta Maior, quando Hereges foi publicado em português.

Repetimos agora a Padura algumas perguntas de 2015 atualizando-as para os novos tempos dramáticos de pandemia e do novo fechamento consumado nas relações do atual governo estadunidense com Cuba.

Quisemos saber de Padura como está atualmente o seu personagem emblemático, o detetive Mario Conde, que atravessa várias histórias. Com o bom humor habitual, Padura nos informa: Conde está bem, fumando seu cigarrillo, bebendo um bom copo de rum e esperando para entrar em cena novamente.

Sobre fazer considerações sobre política, ele segue com a sua posição habitual. ''Não devemos exigir de um escritor cubano o que não é cobrado de autores norte-americanos ou europeus'', ele diz. ''Mais palavras sobre política que a respeito de literatura.''

Abaixo, a entrevista.

Carta Maior - O ódio coletivo parece consumir a todos, em todos os lugares. É um ódio que hibernava e agora emergiu? Na nossa entrevista, cinco anos atrás, você respondeu: ''... sim, o ódio é um elemento próprio da condição humana, bem próximo da inveja (os dois sentimentos estão muito, muito perto um do outro.'' O que pensa hoje sobre esse assunto?

Leonardo Padura
- A humanidade está vivendo um período de profundas crises. Vários economistas e sociólogos importantes falam de uma crise estrutural do capitalismo, o grande vencedor da luta política do século 20. Além dela houve uma crise dos paradigmas da comunicação e da relação entre as pessoas a partir do imenso salto da era analógica e industrial para a digital e pós-industrial. A economia financeira viveu suas próprias crises e a de 2008 deixou demasiadas sequelas. Há crise também nos mercados de trabalho: cada vez mais as pessoas são prescindíveis e a tecnologia torna obsoleta um grande número de mão de obra; inclusive a mão de obra qualificada. E agora, com a pandemia, uma crise sanitária colocou em evidência a crise dos sistemas de saúde de quase todo o mundo.

CM - E a crise das lideranças políticas?

LP - Soma-se a elas, essa crise das lideranças políticas: o caso paradigmático é o de Trump, o qual não se pode ver como causa, mas sim como uma consequência de todas as outras crises e ele, por sua vez, provocando outras crises que se encontravam escondidas, como a da discriminação e divisão racial, social e de classe no país mais poderoso do mundo...

CM - O que podemos esperar então?

LP -
Lembro a você um exemplo terrível: a ascensão do fascismo foi o resultado de uma conjunção de crises... O que podemos esperar agora? Tensão, enfrentamentos, convulsões, desesperança. Tudo isto resulta em ódios, ressentimentos, frustrações. O mundo está vivendo uma grande crise e brada por muitas soluções. Esperemos que uma delas não seja a ascensão dos novos fascismos. Sou alarmista demais? Creio que não. Estou falando apenas o que os sociólogos, economistas e politólogos mais sérios estão repetindo já há anos.

CM - Você fala e escreve sobre a importância de sonhar com a utopia possível. Quais seriam essas utopias, hoje? Um sonho que ainda está vivo?

LP -
Justamente por causa desse estado de crise geral e sistêmica seria desejável pensar em saídas que sejam inclusivas e que permitam um mundo não mais dividido entre uns poucos ricos e muitos milhões de pobres. Como seria essa sociedade que podemos qualificar de utópica? Não sei. Apenas penso que seria necessário encontrar soluções que não nos levem, como ocorre, a um desastre social e político como o que está se prefigurando no horizonte.

CM - E qual seria o ''novo homem'', o do século XXI?

LP -
Na realidade, o homem do século XXI é um homem novo. Entre a minha geração e a dos jovens que hoje têm 20 anos, aqueles que vão controlar o mundo dentro de alguns poucos anos, as diferenças em quase todos os sentidos são tantas que somos como espécies humanas diferentes. A grande mudança tecnológica, científica e política dos últimos 20 anos foi a mais violenta e radical sofrida pela humanidade. Nós somos diferentes; eles são novos. E não são como previu a propaganda comunista. São produto da realidade, uma realidade em que o comunismo triunfante é o modelo chinês, o mais cruel que se pode imaginar na medida em que não é comunismo utópico, mas sim pragmático: poder comunista, economia capitalista, ambos em suas manifestações mais cruas.

CM - O manejo do tempo é um dos seus maiores atributos como escritor. Você vai e vem, passeia pelas décadas e pelos séculos com desenvoltura. Suas viagens no tempo estão relacionadas à experiência pessoal de vida em um país com fases históricas tão distintas. Anos 60, pós-revolução, período especial, embargo, abertura maior ao turismo; e agora, cinco anos depois de nossa conversa anterior, fechamento do governo Trump, um novo embargo, novas dificuldades?

LP
- Sim e não. Eu diria que a evolução cubana me dá uma dimensão de como, em um país no qual o sistema político não mudou, a realidade se transformou e a sociedade não é a mesma. E esse processo tem a ver com questões internas, porém também com fenômenos globais como a já mencionada globalização do mundo digital. Mas, na verdade, quando eu olho a História tento fazê-lo com uma perspectiva mais abrangente. A História como um desfile de acontecimentos que marcam cada etapa dela, mas também como fenômenos permanentes, atitudes e conflitos que me permitem ver a complexidade de processos nos quais vislumbro traços históricos, fenômenos estudados minuciosamente, especulares, e retrocessos e permanências. Eu olho a História sempre com a intenção de iluminar o presente e de procurar encontrar nela as respostas da condição humana diante de suas circunstâncias - essas que, como eu dizia, deixam vestígios, que são como olharmos num espelho que nos demonstra que não lemos a História como uma experiência vivida que nos permita não repetir os nossos erros.

CM - De cinco anos para cá, quais os autores que você incorporou ao seu elenco de prediletos?

LP
- Na realidade, de alguns anos para cá eu fiz poucas descobertas literárias. Necessito ler autores que me comuniquem alguma coisa e me ajudem no meu processo de escrever, e por isso releio bastante aqueles que sei que me garantem essa possibilidade. Mas nos últimos tempos encontrei autores como Jonathan Franzen, Michel Houllebecq, Arnaldur Iriadson com os quais descobri afinidades que têm me servido para iluminar meus interesses.

CM - Se você fosse o Paul Auster, como escreve no seu livro, no capítulo intitulado ''Eu gostaria de ser Paul Auster", perguntaria como você se posiciona, como escritor, a respeito do governo atual do seu país no que diz respeito à cultura?

LP -
Como cidadão. Como cidadão que escreve. Como cidadão que escreve sobre a sua realidade e que procura deixar uma reflexão sobre ela. Não sou um ativista. Sou um observador. De certa forma, um cronista. Porque acredito que muitos poucos livros podem ajudar a mudar o mundo. Mas do que estou convencido é que muitos livros podem ajudar as pessoas a compreender o seu mundo, a compreender a si mesmo ou conhecer melhor a si mesmas. E serem conscientes da realidade na qual elas vivem.

CM - Alguns, muitas vezes o qualificam como um escritor crítico do sistema cubano.

LP -
E de fato eu sou. Critico diversas decisões, formas de organizarmos a vida. Mas, sobretudo, falo dos resultados dessas políticas do sistema na vida das pessoas; as pessoas que me rodeiam e a cujas preocupações, esperanças e frustrações eu sempre procuro estar muito atento. Esta é uma das razões pelas quais vivo e escrevo em Cuba e me envolvo como cidadão.

 CM - Padura, o que mudou de cinco anos para cá em relação à relação cultural Cuba/Estados Unidos com essa nova fase de fechamento?

LP -
Tudo que eu disse em 2015 é página virada. Aquele era um momento em que Obama praticava uma política de aproximação que podia ser muito benéfica e muito perigosa ao mesmo tempo. Mas em janeiro de 2017 chegou à Casa Branca o senhor Donald Trump e tudo mudou. Tudo. Hoje essas relações perigosas não existem mais porque a única coisa que chega dos Estados Unidos a Cuba, por via política, são restrições e fechos. Vou dizer a você apenas uma coisa para não me estender mais sobre esse assunto: hoje, as relações entre Cuba e Estados Unidos se encontram no seu momento mais baixo desde os anos da crises dos mísseis; de volta a 1963.

CM - Há cinco anos você me disse que seu próximo livro seria sobre cubanos em Miami.

LP
- Bem, o projeto cresceu e nele aparecem cubanos em vários lugares: Miami, Madri, Barcelona... e Cuba. É uma novela sobre a diáspora da minha geração, sobre a perda de ilusões e de fé, a busca de outras ilusões e de outras crenças, e sobre a permanência e a distância. O livro se intitula Como polvo en el viento, está nas mãos dos meus editores da Boitempo e espero que possamos tê-lo em português no próximo ano. Por enquanto, ele foi lançado nos países de idioma hispânico e está indo muito bem. Em três semanas já ocupa os primeiros lugares de vendas na Espanha e na Argentina, ganhou boas críticas e, sobretudo, recebe bons comentários por parte dos leitores.

CM - E o detetive Mario Conde, seu personagem mais conhecido, ''policial de ofício, mas não de alma''? Ele continua vivo, firme, forte?

LP
- Em Como polvo... Conde não aparece. Não era a história dele embora seja a sua época e seu espaço porque a novela vai de 1989 a 2016... Neste momento, Conde está esquentando os músculos para entrar em uma próxima novela que vou começar a escrever quando passar esse furacão de entrevistas e apresentações que estou vivendo agora... Sim, Conde está bem, esperando o seu momento, com um cigarro numa mão e um copo de rum na outra, olhando o que está ocorrendo em Cuba ... e envelhecendo, como eu. Que horror!




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