Leituras de um Brasileiro: "Onda de Crime, de Vitor Valença"

Na HQ "Onda de Crime", do Vitor Valença, há uma droga nova na cidade: o mofo azul, considerado sagrado por seus usuários. O fanatismo religioso, porém, não diz respeito ao mofo, que chega a ser libertador

14/06/2019 18:17

 

 

Em uma visita pelo site da Escória Comix – http://escoriacomix.iluria.com/ –, encontrei a HQ “Onda de Crime”, do Vitor Valença: em preto e branco, com traço direto e bastante expressivo; o roteiro é fantástico. Longe do besteirol direitista, típico dos palhaços da burguesia, a HQ do Vitor Valença é um protesto sarcástico contra o fanatismo religioso.

Na história, há uma droga nova na cidade: o mofo azul, considerado sagrado por seus usuários. O fanatismo religioso, porém, não diz respeito ao mofo, que chega a ser libertador; os fanáticos são a Aliança Crente, que tenta catequisar a cidade com suas doutrinas reacionárias. Sem adiantar as melhores passagens da HQ, posso citar algumas delas: (1) a Aliança é formada pelo pastor fascista Carlos Castidade, que fora Carla Castiga, uma travesti bêbada e devassa, e o Sminguilido, uma versão do Smilinguido, a formiguinha trabalhadora; (2) entre seus afazeres, o Sminguilido pinta placas de bares e oficinas, introduzindo mudanças nos dizeres para propagar sua ideologia como, por exemplo, trocar o nome do Nazário Bar para Nazareno Bar; (3) nesse bar underground, em que se encontram os foras da lei, Carlos vai, sugestionado pelo falso nome Nazareno Bar, pedir sopa e fazer, indevidamente, suas pregações.

Não quero me perder fazendo análises demoradas da “Onda de Crime”, por isso mesmo, chamo atenção apenas para dois aspectos da HQ: (1) ironicamente, na medida em que o mofo azul é uma religião, denuncia-se, com evidencia, a intolerância religiosa por parte da Aliança, que chega a tomar atitudes criminosas – sugere-se, inclusive, o uso de envenenamento –; (2) a metáfora da formiga, fruto de interpretação equivocada da fábula de La Fontaine, por parte de Carlos e daqueles que agem e pensam como ele.

Os adeptos do mofo não lutam pelo fim da luta de classes, tampouco eles são bandidos sociais, isto é, pessoas levadas ao crime devido às mazelas da sociedade. Eles são drogados, mas, longe da apatia, eles atacam as autoridades policiais – a passagem com o guarda de rua – e morais – as passagens em lugares fora do mundo burguês e as discussões com Carlos Castidade no bar Nazário/Nazareno, outro lugar escuso –. Isso significa que, se o pessoal do mofo azul não afirma revoluções políticas, eles negam a ordem burguesa – representada pela polícia – e o moralismo religioso – representado por Carlos e a formiga –. Nesse anarquismo quase místico, o fanatismo religioso da dupla torna-se mais uma mística, e não a moral absoluta, como a Aliança supõe; isso se revela com veemência quando o Sminguilido não passa de um trapaceiro e o senhor Castidade toma atitudes próximas dos genocidas.

Por fim, a história da formiga. A versão mais conhecida da fábula da Cigarra e da Formiga é em forma de verso, está no primeiro livro de Fábulas, de La Fontaine (1621-1695), e é, justamente, o primeiro poema do livro. Em seu trabalho “O Contexto da Obra Literária”, o analista do discurso Dominique Maingueneau, em comentários bem fundamentados, chama a atenção para o fato de a cigarra e o poeta, autor da fábula, serem, cada um a seu modo, cantores que, para sobreviver, dependeriam seja das formigas, como a cigarra, seja das benesses da nobreza do século XVII, como La Fontaine. Desse ponto de vista, a identificação do autor seria com a cigarra e não, com as formigas; a moral da fábula não seria “trabalhe sem se divertir e despreze os artistas vagabundos”, mas “quem é artista e conhece a liberdade da poesia deve ter cuidado com os idiotas que detém o poder”. Por isso mesmo, essa a versão moralista da fábula é como mais uma placa, que os Sminguilidos adulteraram para enganar a todos.

*Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP

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