Leituras de um brasileiro: ''Antologia Trans - 30 poetas trans, travestis e não-binários''

Não se trata apenas de fazer manifestos de minorias sexuais; trata-se, além disso, de fazer literatura. Nesse procedimento surgem, quase sempre, algumas questões: seria isso literatura? Como se justificam antologias assim, como a ''Antologia Trans''?

29/04/2019 18:15

 

 
Em 2018, a editora Invisíveis Produções lançou o livro de poemas “Antologia Trans – 30 poetas trans, travestis e não-binários”. Tais antologias de temáticas sexuais e de gênero não são raras: (1) em 2017, Amanda Machado e Marina Moura organizaram a antologia “Poesia Gay Brasileira”, pelas editoras Machado e Amarelo-grão; (2) em 2010, eu e o Glauco Mattoso organizamos “Aos pés das letras – Antologia podólatra da literatura brasileira”, pelo Selo [e] editorial; (3) em 2008, em outra iniciativa minha e do Glauco, organizamos juntos a “M(ai)S – Antologia SadoMasoquista da Literatura Brasileira”, pela Dix editorial. Não se trata apenas de fazer manifestos de minorias sexuais; trata-se, além disso, de fazer literatura. Nesse procedimento surgem, quase sempre, algumas questões: seria isso literatura? Como se justificam antologias assim?

Nas antologias organizadas com o Glauco, eu tomei o cuidado de fazer introduções aos temas, apontando suas relevâncias para a literatura; a “Poesia Gay Brasileira” é introduzida pelo ativista LGBT Jean Wyllys; a “Antologia Trans” conta com breve apresentação do projeto, cujo um dos resultados é a publicação do livro. Essas introduções, porém, são assinadas por ativistas, identificados com suas causas, por isso mesmo, elas podem parecer suspeitas para quem, talvez, desconfie do valor desse tipo de antologia.

Antes de tudo, vale a pena lembrar que a literatura está longe de ser uma forma ideal, que se realiza fora da história e isenta de seus conteúdos materiais. Em outras palavras, não existe o Belo Ideal, mas construções históricas da beleza, entre elas, as belezas da literatura. Tanto em prosa quanto em poesia, os textos não surgem pairando no ar, igual fantasmas, mas são formados em redes de relações, que, inclusive, são materializadas nesses mesmos textos. Um poema, por exemplo, não se faz apenas com versos, rimas e metáforas; todo poema é formado por imagens e temas específicos, próprios das épocas em que são produzidos; a significação literária surge, dinamicamente, nas muitas interações entre leitores e escritores.

As sociedades humanas acompanham as transformações históricas, modificando-as e sendo modificada por elas; assim como não existe o Belo Ideal, também não há sentimentos universais, pois cada cultura reage diferentemente em relação ao mundo, seja o mundo dos objetos, sejam os mundos subjetivos. Contrariamente do que se pensa, cada cultura tem seus modos próprios de sentir, de se apaixonar, de se comover; não há uma psicologia universal e capaz de elucidar a humanidade como um todo, que se realizaria apenas biologicamente.

Na nossa época, as teorias do gênero, em linhas gerais, concordam que a sexualidade é antes fruto das culturas humanas do que de ditames supostamente naturais, justificados por teorias biológicas reacionárias. Se isso procede, o sexo e tudo o que o cerca são temas a ser tratados antropologicamente; tratamento que deve continuar quando tal tema se realiza poeticamente, quer dizer, por meio de arte. Desse ponto de vista, tematizar a sexualidade e a subjetividade trans por meio de poesia é tornar relevantes outros modos de vida, dando pertinência a eles junto às demais práticas sexuais e expressando outras subjetividades além daquelas da heterossexualidade. Em outras palavras, a poesia trans coloca uma situação.

O tema é suficiente para validar o poema? Apenas ele, a resposta é não; o tema da sexualidade trans não é suficiente para justificar a qualidade do poema. Entretanto, ele apresenta novos sistemas de valores capazes de encaminhar novas poéticas, que, certamente, apresentam também modos próprios de serem consideradas. Isso vale para trans, gays, lésbicas, BDSMs e tudo que possa surgir no futuro ou retornar, em outras roupagens, dos aspectos mais divertidos do passado.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP





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