Leituras de um brasileiro: ''As Histórias em Quadrinhos premiadas na feira Des.gráfica 2018''

Nos dias 3 e 4 de novembro de 2018, aconteceu na cidade de São Paulo a feira de histórias em quadrinhos Des.gráfica, no Museu da Imagem e do Som, o MIS

22/01/2019 13:03

 

 
Nos dias 3 e 4 de novembro de 2018, aconteceu na cidade de São Paulo a feira de histórias em quadrinhos Des.gráfica, no Museu da Imagem e do Som, o MIS, cuja curadoria é do artista plástico Rafael Coutinho. Esse foi o terceiro ano consecutivo da feira; como é costume aqui na nossa coluna desde a primeira feira de 2016, encaminho uma breve resenha sobre os quadrinhos premiados no ano passado.

Em textos anteriores sobre os quadrinhos brasileiros, já tive a oportunidade de comentar como a falta de grandes editoras comerciais de HQs no Brasil, se por um lado encarece a vida dos artistas, que se tornam produtores dos próprios trabalhos, por outro lado permite que a HQ nacional, felizmente, seja feita às margens da indústria cultural, deixando espaço para a criatividade de cada autor. Nesse contexto, em que a pluralidade dos estilos, sobretudo gráficos, torna-se regra, os cinco premiados de 2018 são artistas completamente diferentes. Não há ordem entre os finalistas, por isso mesmo, a ordem em que os apresento é uma escolha minha, ditada por minha facilidade em discorrer sobre os temas – quer dizer, por meus limites – do que por juízos de valor:

– “Indivisível”, de Marília Marz, é uma excelente discussão sobre a identidade brasileira, que toma por base o bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo. A HQ pode ser lida em duas direções, depende de como o leitor se orienta da capa ao centro da encadernação. Em uma delas, conta-se a experiência do asiático, que dá ao bairro as características pelas quais é conhecido; na outra, a história da população negra. Em teorias culturais bastante racistas, o brasileiro é fruto de uma mistura infeliz entre “portugueses grosseiros”, “negros malandros” e “índios preguiçosos”. Em meio às muitas bobagens de falsas antropologias como essas, além da explicitação da falta de inteligência e do racismo explícito de quem as autoriza, está a negação da participação de outras culturas na formação do Brasil, como por exemplo árabes, judeus, japoneses, chineses etc. A HQ da Marília discute justamente isso, inserindo o asiático nessa questão e, quando reflete sobre a presença do negro, relembrando o heroísmo de Francisco José das Chagas. A autora não muda apenas de tema ao compor a HQ, os estilos gráficos e a narrativa visual são completamente distintos nas duas direções de leitura.

– “Sua voz”, de Flavushh. Se em “Indivisível” há uma tematização da identidade nacional, em “Sua voz” é tematizada a identidade sexual. Recapitulando antropologias grosseiras, geralmente quando se discute gênero – não gêneros literários ou discursivos, mas gêneros sexuais –, há confusão entre questões eróticas e questões biológicas, fazendo crer que genética e sexo são a mesma coisa. As modernas teorias do gênero, contrariamente, complexificam essa discussão, insistindo o quanto a natureza biológica pouco tem a ver com a diversidade erótica. A HQ de Flavushh, porém, não é um mero panfleto contra a repressão sexual; trata-se, isto sim, de uma história bastante dramática, em que a vítima sofre psiquicamente e é, a seu modo, muito violenta. Não se pretende, contudo, afirmar que a vítima seria violenta porque seria, antes de tudo, “maluca”, mas, em vez disso, problematizar a peste emocional que nos assola.

– “Rapsódia para máquina operatriz”, de Ian Indiano. Da repressão sexual, intimamente ligada às ideologias políticas, passamos à discussão explicitamente social na HQ do Ian. A partir de uma metáfora recorrente, a do homem-máquina nas esteiras de produção do capitalismo, o protagonista, em seu mundo possível, é ligado a um torno mecânico logo ao nascer. Nessa ficção científica macabra, esse ciborgue do capitalismo, de operador do torno, passa ser operado por ele. Um torno mecânico serve para fazer peças; esse homem-peça, entretanto, não é construído como mera engrenagem, mecanicamente, pois, além da denúncia da deformação humana em armaduras de caráter, o Ian faz uma exposição detalhada das relações entre esse sujeito e suas deformações ideológicas, imerso em concessões, desconfortos e revoluções passageiras.

– “Partir”, de Grazi Fonseca. Nas menções anteriores, terminei me detendo mais nos discursos do que nos aspectos propriamente visuais, enfatizados na HQ da Graziela: a trama é um delírio gráfico, mas é também um delírio semiótico. Via de regra, os quadrinhos comerciais pretendem ser realistas em suas concepções visuais e bastante lineares, gerando leitores despreparados para ler trabalhos que não sejam convencionais. “Partir” vai, justamente, de encontro a essa cultura da banalização da arte. O início da trama tende ao realismo, mas, lentamente, as formas gráficas assumem a narrativa visual, passando por delírios surrealistas, em que as imagens são condensadas, como nos sonhos – um relógio cujos ponteiros são pernas humanas –, ou são convertidas em imagens abstratas – a o Sol é um círculo, cartazes são retângulos –.

– “Minha casa está um caos”, da Sofia Nestrovski e da Déborah Salles. Valendo-se de outra metáfora recorrente, nessa HQ as autoras fazem da casa a metáfora de quem nela mora. Em meio as situações e reflexões das autoras, vale a pena comentar a metáfora que me parece ser a organizadora de toda a narrativa: a batata na geladeira. A batata é um rizoma, o que remete a um conceito filosófico recorrente em ciências humanas: o conceito de rizoma, proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Em linhas gerais, o ponto de vista rizomático está em oposição a pensamento estruturados pela metáfora da raiz, nos quais, a partir do centro, são derivados ramos, subordinados ao eixo central. Em vez disso, os rizomas possuem vários núcleos, descentralizando e complexificando tal concepção. Uma vez fora da geladeira, o rizoma estaria pronto para germinar; nesse sentido, encaminham-se as relações entre ordem e caos em cada leitor, em sua casa.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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