Leituras

Leituras de um brasileiro: ''Fractal, do Ricardo Escudeiro: a nova editora independente de literatura brasileira contemporânea''

Lançada em 2018, a editora Fractal, do agitador cultural Ricardo Escudeiro, começa publicando dois livros de poesia com temática LGBT: ''O sal das suas pernas'', da Izabela Orlandi, e ''Pelicano'', do Rafael João.

31/01/2019 23:25

 

 

Lançada em 2018, a editora Fractal (http://www.fractaleditora.com.br/), do amigo, ex-aluno de Letras e poeta Ricardo Escudeiro, começa publicando dois livros de poesia: “O sal das suas pernas”, da Izabela Orlandi, e “Pelicano”, do Rafael João. Conheço o Ricardo faz alguns anos; além de dirigir a própria editora, ele trabalha junto com outro amigo, ex-aluno e poeta, o Eduardo Lacerda, na editora Patuá (http://www.editorapatua.com.br/). São de lá seus dois livros de poesia: “tempo espaço re tratos”, de 2014, e “Rachar átomos e depois”, de 2016.

O Ricardo é companheiro de luta: (1) o poema “Dar uns tiros” está em seu primeiro livro: “mira o relógio pra ter em mente / feito um viciado / inconsciente / a quantas vai o extinguir / do pó do sempre / e entre um cigarro e o ponteiro / maquinal / pra si / mente / a fumaça intragável do tempo / indizível // só mais um tiro de rotina”; (2) no segundo livro, sua luta continua no poema “Eye of the tiger”: “sobre abelhas e borboletas // jab direto / jab direto // nada // jab jab sai / suave pra esquerda // fatal // o soco e o outro / vez ou outra abdicar da esquiva / ir de encontro / só / quebra o que é dente / só / jorra o que é sangue / só / dói o que é corpo”. Ao fundar sua própria editora, o Ricardo, como todo bom companheiro, começa por proteger seus amigos publicando dois livros de temática LGBT.

Conheci a Izabela Orlandi por meio da literatura quando li seu segundo livro de poesias “Vão dos bichos”, 2015, editora Patuá. Do livro, eis o poema “Decisão do mar”: “Uma lágrima fria / escorre até a base / da construção mais sólida // É puro concreto, / puro. // E o sol de recusa a entrar / em local tão sombrio. // Não enxerga / que a solidez das construções / é destruída com mais facilidade / pelo mar / do que a areia permissiva / que habita a sua margem”.

No começo de 2018, quando ela me pediu para escrever a orelha de seu terceiro livro, notei que do sal do mar e das lágrimas ao “sal das suas pernas”, a temática LGBT se explicitava em vários poemas e terminei enviando para Izabela este breve texto:

“Na virada do século XX para o XXI, acompanhei de perto discussões sobre as relações entre gênero e literatura; na época, enquanto muitos afirmavam que a literatura não teria cor, sexo, etc., outros contestavam, respondendo: literatura tem tudo isso e muito mais. Para as pessoas imersas nos valores do patriarcado – contempladas, portanto, por suas mídias –, talvez essa discussão não signifique nada; para muitas outras, porém, ela quer dizer inclusão, ela significa construir novos sentidos. Nessa renovação da vida, a poesia da Izabela Orlandi – agora com 26 anos de idade, portanto, nascida no seio dessa discussão – continua a luta pela diversidade sexual; em “O sal das suas pernas”, o contato humano dá forma poética às coisas do mundo”.

Para ilustrar uma dessas formas de contato, eis o primeiro poema do livro: “existem só uma ou duas mulheres / que podem te destruir completamente / a violência do mar está presa em seus dedos / existe apenas uma mão na sua memória / eu aposto que ela é firme e que você a sente / nos seus ombros ao pagar a conta do bar / ou entre as suas pernas ao deitar // nossa história foi jogada na sarjeta / e nós a buscamos como fantasmas / e ratos que não têm mais uma migalha // existe o fracasso e sentimos seu gosto / na cama sem prazer por maior que seja / a tentativa de alguns desconhecidos / todos querem um pedaço da sua carne / à noite e você só quer que a porra / do copo não fique vazio / ou um conselho barato / de algum desconhecido // existem só uma ou duas mulheres / que podem te destruir completamente / seus dedos nunca cataram as migalhas / de uma história que quer ser bonita e guardada // existem só uma ou duas mulheres / que podem te destruir completamente / suas mãos são eternas e se você engole a destruição / é como esvaziar um copo em um único gole / é como lamber os dedos do mar”.

Fazendo o espelhamento com o livro da Izabela, o livro do Rafael João tematiza o homoerotismo. Eis o poema “búfalo”: “ele me olha com olhos / de superfície que teme / a minha ânsia profunda / de querê-lo até a última gota / ele tem medo de que eu / na minha imensa delicadeza / de um búfalo engula / sua alma e nunca mais / a devolva ao seu corpo / marcado por mãos que / só conhecem o raso // ele me quer com / a mesma intensidade / que me teme”.

O título do livro refere-se à simbologia do pelicano; conta-se que, para sustentar suas crias, essa ave, caso seja necessário, fere o próprio peito para dar o sangue como alimento. Em vários poemas do livro, o Rafael narra tal procedimento; eis um deles: “não sei se tenho mais sangue / pra sangrar aqui onde tudo parece / ter findado sem dizer adeus não fechamos / as portas porque quem sabe, deus, quem / sabe ele volte para que eu tenha / por quem sangrar / por quem morrer / agora eu tento conter esse sangramento / sem curativos com a boca trêmula / faz um frio quase insuportável / e eu estou sorvendo meu próprio sangue / meu sabor sendo na minha língua / a solidão voltando pra casa / nessa tentativa desesperada de continuar / vivo como vivem as donzelas do século / passado / esperando por seu amado com ou sem / cavalo com suas imensas ferraduras / me dando o coice mais delicado / o golpe que acorda a donzela / de suas esperas vãs / não há quem te despose se tu não / te desnudas da tua própria pele / e / fica em carne / viva / crua / imolada / na boca do leão e da solidão / de quem ainda não / chegou”.

Por decorrência desse mito, o pelicano, na iconografia cristã, ao lado do cervo, do cordeiro ou do leão, torna-se outro símbolo do Cristo. Nessa rede de relações, os poemas são as crias do poeta, que ele alimenta com sua verve; entretanto, a simbologia desencadeada pelo Rafael vai mais longe, quando permite identificar a questão homoerótica à resistência inspirada pela divindade principal de cultos que, via de regra, combatem feroz e irracionalmente as ideologias de gênero.

Por fim, quero lembrar de que os projetos gráficos da Fractal são do companheiro poeta e artista gráfico Leonardo Mathias e dar meus parabéns ao Ricardo Escudeiro por encabeçar mais uma luta!

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP

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