Leituras

Leituras de um brasileiro: ''Histórias de Samurai''

Sobre a cultura japonesa, quero destacar dois encaminhamentos: (1) brasileiros valendo-se de suas tradições de origem, como faz a brasileira Talessa K. em sua história de samurais; (2) brasileiros citando a cultura japonesa em meio a narrativas tipicamente brasileiras, como é o Zé Murai, um cangaceiro que, em vez de peixeira, utiliza uma katana.

26/03/2019 13:14

 

 
Para quem gosta de histórias de samurai, quero sugerir duas novelas gráficas, lançadas no ano passado: (1) “Os cinco vermelhos”, da Talessa Kuguimiya (2018, edição da autora); (2) “Zé Murai – malassombros na terra do sol”, uma criação de Ricardo Sousa e Tiago Oaks (2018, edição dos autores). Por que essas duas? Porque, além da qualidade gráfica e da engenhosidade das tramas, elas permitem discutir alguns traços da presença asiática na cultura brasileira.

Nasci em 1964; lembro-me de alguns desenhos ou seriados de televisão que, certamente, marcaram outras pessoas da minha geração: “Vingadores do Espaço”, “Super Dínamo”, “A Princesa e o Cavaleiro”. O primeiro é um seriado de televisão em que são narradas as aventuras de Goldar, um robô gigante em sua luta contra monstros gigantes; estreou no Brasil em 1973. Os outros dois são desenhos animados, surgiram no Brasil em meados da década de 70: Super Dínamo é um menino super-herói; a princesa é a princesa Safiri, que se veste de menino para poder governar o Reino de Prata. O Goldar e a princesa Safiri são criações do grande mestre Osamu Tesuka; Super Dínamo é criação de Hiroshi Fujimoto e Motoo Abiko. Na época, porém, não me dava conta de que eram produções japonesas – nem do valor artístico merecidamente atribuído a elas –, origem cuja influência não se limitava a desenhos e seriados.

Quando se pensa nos fundamentos da cultura brasileira, sempre são evocados índios, negros e portugueses. Essa antropologia é bastante tosca; entre seus muitos defeitos está o descaso com a pluralidade de povos indígenas e africanos, que não podem ser resumidos às classificações gerais “negros” e “índios”, assim como o descaso com vários outros povos, que também migraram para o Brasil: espanhóis, judeus, árabes, italianos, coreanos, chineses, japoneses etc. Sobre a cultura japonesa, das muitas relações estabelecidas entre tantos povos, quero destacar duas: (1) brasileiros valendo-se de suas tradições de origem, como faz a brasileira Talessa K. em sua história de samurais; (2) brasileiros citando a cultura japonesa em meio a narrativas tipicamente brasileiras, como é o Zé Murai, um cangaceiro que, em vez de peixeira, utiliza uma katana.

Em “Cinco vermelhos”, da Talessa K., são narradas as aventuras de uma menina, sobrevivente de uma matança, em busca de vingar a morte de seus pais. Uma menina que também se veste de menino para atingir seus objetivos, como muitas outras mulheres: (1) A princesa Safiri, da animação de Tezuka; (2) Silvestre, a personagem medieval vivida por Maria da Medeiros, no filme de João César Monteiro; (3) Diadorim, do “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa – as duas últimas, assim como a guerreira da obra de Talessa, vestem-se de homem para vingar a morte do pai –. Não vou me perder detalhando a narrativa; quero apenas chamar a atenção para um detalhe importantíssimo da HQ: os cinco vermelhos são os cinco capítulos, em que a história de fecha, mas também podem ser os cinco haikai, que introduzem cada capítulo.

Ao lado dos mangás e animes, talvez o haikai seja uma das artes japonesas mais conhecidas no Brasil. Para quem conhece um pouco de literatura japonesa, sabe que os haikai são versos de 17 sílabas, com séries de coerções de seus modos de composição, entre elas: citar as estações do ano, cada uma delas expressa por símbolos convencionais, os kigos, recolhidos em tratados; valer-se de marcadores linguísticos para encaminhar sua interpretação, os kirejis. Na poesia brasileira, vale a pena mencionar Guilherme de Almeida, que deu forma poética ao haikai em língua portuguesa e Pedro Xisto, quem elevou as propostas de Almeida ao nível das poéticas experimentais. Por tudo isso, haikai estão longe de ser apenas poemas breves, de três versos, com vaga inspiração esotérica...

Em sua HQ, a Talessa escolhe cinco poetas japoneses devidamente reconhecidos – Hashin, Bashô, Sogetsu-Ni, Buson e Shiki –. Cada haikai encaminha a narrativa do capítulo que introduz; o capítulo surge como o desdobramento da significação do poema que, por isso mesmo, dissemina o viés quase religioso do haikai no mundo dos homens, expresso na trama. Isso ressignifica completamente a HQ. Mesmo assim, ao conversar com a autora, ela me confessou que nem todos os seus leitores se deram conta disso, de que havia haikai na composição do texto. Ora, HQs não se resumem a seus desenhos; desprezar roteiros e roteiristas coloca quem faz isso próximo dos apedeutas.

Dos haikai, vamos para a literatura de cordel e um de seus personagens mais populares, o cangaceiro. Embora fruto do banditismo social, os cangaceiros não foram, necessariamente, revolucionários; Lampião, por exemplo, atacou a Coluna Prestes em 1926. No cinema novo brasileiro, porém, devido ao imaginário de Glauber Rocha, os cangaceiros, por combaterem em seus filmes os latifundiários, aproximam-se dos guerrilheiros de esquerda. Por travar combates semelhantes, o cangaceiro Zé Murai me lembrou o cangaceiro Coirana, personagem de “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, filme de Glauber, 1969. O Zé, entretanto, não se vale da peixeira, mas da katana, por isso mesmo, ele é o Zé Murai; seus inimigos são seres sobrenaturais, entre eles, o demônio disfarçado de coronel, uma mocinha que na verdade é uma onça e a própria Morte. Enfim, temas presentes na literatura de cordel e nos contos populares do nordeste brasileiro, terra de Lampião, Corisco... de Antonio das Mortes e, agora, também de cangaceiros samurais.       

A HQ “Zé Murai – malassombros na Terra do Sol” é uma coletânea de histórias da personagem; ao todo, são cinco aventuras do Zé: “Encontros macabros”, de Tiago Oaks e Ricardo Sousa – os criadores do Zé Murai –; “Papangu”, de Kung Fu e Panda; “Girassol”, de Larissa Palmieri e Pedro Okuyama; “Cão das bila”, de Samuel Bono; “Dados marcados”, do Al Stefano.

Assim, entre haikai e cordéis, a arte brasileira segue adiante...

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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