Leituras de um brasileiro: ''O que foi irritante na Oficina Irritada''

Antes de tudo, embora esteja de pleno acordo com as notas de repúdio, não concordo com o cancelamento do evento, que soa, nos tempos de hoje, como censura. As notas não pedem censura, apenas discordam dos encaminhamentos da curadoria

23/05/2019 23:43

 

 
Sou professor de Letras da FFLCH-USP; ministro cursos de pós-graduação em duas áreas: Semiótica e Criação Literária. Por esses motivos, busco pelo o que acontece do mundo literário nas casas de cultura, museus, redes sociais, etc. No final do mês de abril, recebo, via Facebook, notícias sobre a “Oficina Irritada (Poetas Falam)”, uma oficina de criação literária, que viria a ser ministrada no Instituto Moreira Salles, nos dias 7, 8 e 9 de maio, Rio de Janeiro. O evento teria a curadoria dos poetas Eucanaã Ferraz e Bruno Consentino; os palestrantes seriam 18 poetas da literatura brasileira.

A notícia, porém, veio acompanhada de notas de repúdio – uma delas, assinada pelo “Movimento Respeita! Coalizão de Poetas”, está publicada na Carta Maior – denunciando o fato de não haver, entre os 18 poetas, algum poeta negro. Em sua defesa, a curadoria teria respondido: “(...) num reduzido encontro de poetas, a questão do direito não se coloca”. Em razão da polêmica, o Instituto cancelou a oficina.

Antes de tudo, embora esteja de pleno acordo com as notas de repúdio, não concordo com o cancelamento do evento, que soa, nos tempos de hoje, como censura. As notas não pedem censura, apenas discordam dos encaminhamentos da curadoria; conheço pessoalmente vários dos 18 poetas convidados para a oficina e posso afirmar: “todos são pessoas de bem, nenhum deles é racista”. Do que, então, se trata?

As notas de repúdio insistem na falta de poetas negros. Isso procede; já que mais da metade da população brasileira é negra, é fácil escolher dez poetas negros: Cuti, José Geraldo Neres, Ricardo Aleixo, Marcelo Ariel, Ricardo Escudeiro, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Elisa Lucinda, Lubi Prates, Elizandra Souza. Nas notas, há comentários a respeito da poesia LGBT. Embora seja bom levantar essa questão, havia pelo menos uma escritora lésbica, já que Angélica Freitas está na antologia “Poesia Gay Brasileira”, 2017, organizada por Amanda Machado e Marina Moura. Contudo, o que justifica não convidar Horácio Costa? Se LGBTs estão parcialmente contemplados, nós, BDSMs, sentimos falta de Glauco Mattos, para muitos, um dos maiores poetas brasileiros vivos. Se o critério fosse somente o identitário, a lista seria longa; incluindo critérios sociais, cabe perguntar se seria tão difícil encontrar poetas nos morros do Rio de Janeiro. A questão, todavia, vai além dos critérios identitários e sociais: trata-se de indagar por quê, em um país com maioria negra, quase ninguém se lembra de convidar negros não apenas para falar de poesia, mas também para a curadoria de eventos assim, como a “Oficina Irritada”, em que nem todos os poetas falam.

Recapitulando, uma das respostas da curadoria teria sido “(...) num reduzido encontro de poetas, a questão do direito não se coloca”. Ora, isso não é bem assim... com 18 poetas, o evento não é tão pequeno para não refletir a população brasileira com menos imprecisão. O procedimento reflete, isso sim, o critério utilizado, baseado predominantemente nas relações dos poetas com o mercado editorial e, antes de tudo, nas velhas relações de amizade. Reflete também, por parte da curadoria, certo amadorismo em não saber como anda a poesia brasileira “fora da turma”, além da falta de sensibilidade com as novas demandas sociais que incidem, enfaticamente, nas práticas poéticas.

Desde 2017, faço a curadoria do evento Fome Forma na Casa das Rosas / Casa de Poesia Haroldo de Campos, cidade de São Paulo; mesmo a Casa sediando eventos com curadores negros, cujo tema é literatura negra, literatura e racismo, etc., sempre tivemos o cuidado de convidar poetas mais velhos, jovens poetas, poetas negros, mulheres, LGBTs, BDSMs, poetas pagãos, poetas da academia, poetas marginais... com isso, esperamos, pelo menos, contrariar o cânone literário excessivamente branco, masculino e assexuado da poesia brasileira.

Com o número 18, gostaria de fazer uma proposta não centrada em 18 poetas, mas em 18 mesas temáticas com, no mínimo, dois poetas por mesa. Isso deslocaria o eixo da individualidade burguesa de cada poeta, refletindo uma mentalidade menos narcisista e mais coletiva na orientação dos trabalhos. Para tanto, eu convidaria a Lubi Prates, representante da literatura negra, engajada mais com o movimento negro do que com seu ego, e, por motivo semelhante, o poeta de periferia Hélio Neri. Passo, em seguida, a listar 6 mesas, devidamente justificadas, que eu proporia a meus colegas curadores, responsáveis pelas demais 12 mesas:

(1) Eu, Maurício Salles Vasconcellos e Reynaldo Damazio. Eu e o Maurício somos os professores da USP responsáveis pelo primeiro curso de pós-graduação, com mestrado e doutorado, em escrita criativa dado nessa universidade; o Reynaldo coordena o Centro de Apoio ao Escritor na Casa das Rosas.

(2) Leila Mícollis e Glauco Mattoso. A Leila é responsável pelas primeiras antologias de arte pornô, da década de 70; o Glauco Mattoso, entre seus muitos talentos como escritor e militante LGBT e BDSM, bateu o recorde mundial de sonetos, compondo 5555 sonetos.

(3) Horácio Costa e Simone Teodoro. Ambos são militantes LGBT: o Horácio é poeta autorizado por Otávio Paz, Haroldo de Campos e José Saramago; a Simone é uma das revelações da poesia brasileira contemporânea.

(4) Lubi Prates, Lilian Aquino e Marília Garcia. A Lubi ministra cursos de poesia negra na Cada das Rosas; a Lilian ministra cursos de escrita criativa na mesma casa; a Marília é uma das vozes mais singulares da poesia brasileira contemporânea.

(5) Edson Cruz e Eduardo Lacerda. Ambos são agitadores culturais: o Edson coordena e produz o site Musa Rara; o Lacerda é o responsável pela maior editora independente de literatura do Brasil, a Patuá, com mais de 500 obras no catálogo.

(6) Delmo Montenegro e Djami Sezostre. Essa seria uma mesa sobre poesia experimental: o Delmo é poeta pernambucano, cuja a poética recupera e atualiza as vanguardas históricas; o Djami, poeta mineiro, representaria a poesia sonora e sua atualização brasileira em poesia biossonora.

O local do evento também seria descentralizado; sendo na cidade de São Paulo, eu proporia o prédio de Letras da FFLCH-USP, a Casa das Rosas, o Museu Alceu Amoroso Lima, a Casa Amarela e o Centro Cultural Benjamim Peret, do PCO. Para terminar, gostaria de tratar, rapidamente, ainda de três questões: o estatuto pedagógico de uma oficina literária; o lugar do evento sendo o Instituto Moreira Salles; o título da oficina.

Não se aprende a ser poeta em 18 lições, nem em 180. É possível, porém, em eventos chamados oficinas literárias, ensinar algo a respeito dos aspectos fabris da literatura; em outras palavras, mostrar, no mínimo, o trabalho com a linguagem, próprio de qualquer prática artística, seja ela literária ou outra. Em poesia, por exemplo, mostrar que a quebra de verso pode ir além dos constituintes da oração; que a métrica poética é uma fonte inesgotável de efeitos de sentido; que o uso excessivo de alguns procedimentos sintáticos, como as orações adjetivas, prejudica a sonoridade do poema justamente pela repetição do pronome relativo... enfim, não basta contar anedotas ou falar da subjetividade vulgar.

Sobre o Instituto Moreira Salles, confesso que nunca fui lá, mas uma visita pelo site lançou alguma luz sobre o espírito do lugar: fotografias de uma piscina, cadeiras a seu redor... o que poetas podem fazer ali? Que público seria esse, além das socialites? Na beira da piscina, é difícil irritar-se com qualquer coisa; não compreendo, nesse contexto excessivamente burguês, porque chamar “Oficina Irritada”. Melhor seria, para gerar contextos políticos completamente contrários, batizar a oficina homenageando um brasileiro de quem nem todos se lembram que também foi poeta: Oficina Carlos Marighella.

Enfim, a última observação: em vez de cobrar R$300,00 da burguesia desocupada, eventos assim deveriam ser gratuitos e abertos a todos.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



Conteúdo Relacionado