Leituras de um brasileiro: ''Porta do Inferno - uma produção de Luiz Berger e Lobo Ramirez''

Para quem vive no Brasil, nessa era tão macabra que se abateu sobre nós, é cada vez mais fácil entender a ''Porta do Inferno'', a nova coletânea de quadrinhos organizada pelo Luiz Berger e o Lobo Ramirez.

06/02/2019 11:34

 

 
A reunião de histórias em quadrinhos “Porta do inferno” foi lançada em dezembro de 2018, uma produção conjunta das editoras alternativas Gordo Seboso (http://gordoseboso.iluria.com/), do Luiz Berger, e Escória Comix (http://escoriacomix.iluria.com/), do Lobo Ramirez. Logo na capa, no desenho de Abraham Diaz, uma cena grotesca: um demônio voyeur observa escondido, fumando uma bomba, o casal escroto fazendo sexo sadomasoquista, sobre uma privada, em um banheiro suspeito.

Uma das qualidades da obra é, justamente, esse grotesco. A palavra “grotesco” deriva de “grotta”, que significa “gruta”; ela se refere a certo tipo de ornamentação encontrada em escavações feitas em 1500, na Itália. Essas ornamentações consistiam de figuras monstruosas, híbridas de diferentes ordens da natureza: humanos com corpos de cavalos ou cabeças de touros, animais com traços de folhas e flores, sereias e tritões etc. Em concepções pagãs, a moral é bem diferente do cristianismo, credo posterior às origens daquelas ornamentações, por isso mesmo, não se deve olhar para elas como mundos desequilibrados. Na época, porém, em que foram encontradas, período histórico ainda bastante dominado pelas seitas cristãs, elas surgiram como demoníacas aos olhos de alguns interpretes. Mas como isso se relaciona com a Porta do Inferno?

Grutas abertas, desenhos demoníacos... a Porta do Inferno é um dos temas relacionados ao pintor holandês Pieter Bruegel. Em um de seus quadros mais conhecidos, “Os provérbios holandeses”, nas figuras que expressam o provérbio “confessar-se com o diabo”, diferentemente das demais imagens, referentes a outros ditos populares, surge o diabo confessor entre os seres humanos. Em outra pintura, “Gret, a louca”, explicitam-se as imagens da própria Porta do Inferno e dos demônios que por ela escapam, penetrando no mundo dos homens. Esses demônios lembram os ornamentos encontrados nas grutas: o demônio confessor, aquele do quadro dos provérbios, tem a cabeça na forma de vegetal; do mesmo modo, ao redor da imagem de Gret, há insetos com rostos humanos, cabeças sustentadas apenas por braços e pernas etc. Enfim, são figuras grotescas que saem dos infernos.

Na HQ organizada pelo Luiz e o Lobo, a Porta do Inferno é aberta por dois assaltantes, deixando escapar quem estava lá dentro; a partir desse mote, cada artista convidado dá a sua versão da invasão dos demônios. A história do mote é do Luiz Berger; as demais seguem esta ordem: (1) “Quero voltar para o inferno”, da Emilly Bonna: duas irmãs siamesas demoníacas entram em crise quando uma quer ficar na Terra, enquanto a outra quer voltar para o Inferno; (2) “Ave Satã, caralho!”, do Diego Gerlach: um pastor evangélico engana seus fiéis com falsos milagres, esses, porém, longe de serem ovelhas inocentes, são tão canalhas quanto o pastor; (3) “Conexão inferno”, do Lobo Ramirez: condenados ao Inferno, uma mãe e seu filho abortado fogem da perseguição dos demônios; (4) “Fuim – xupador de ossos”, do Victor Bello: o demônio Fuim, um ser invertebrado, rouba os ossos dos humanos para se sustentar; (5) “Neo – Mexico 2999”, do Abraham Diaz: dois demônios discutem sua relação conjugal.

Longe de ser uma coleção de besteiras bem desenhadas, os roteiros são sensacionais; entre os temas tratados, vale a pena enfatizar a condenação da tortura feita por policiais, a estupidez das seitas religiosas, os direitos da mulher sobre seu próprio corpo, as mazelas da pobreza e do terceiro mundo. O teórico da literatura Tzvetan Todorov observa que é mais fácil tratar de temas tabus, por isso mesmo temas evitados ou proibidos, atribuindo práticas humanas a monstros e demônios, que se tornariam, assim, metáforas exageradas. A “Porta do Inferno” do Gordo Seboso e da Escória Comix, contudo, vai mais longe que isso. Na coletânea, não são os monstros que se tornam metáforas dos humanos, mas o contrário, os humanos são metáforas do inferno, os humanos são bem piores do que os demônios. Para quem vive no Brasil, nessa era tão macabra que se abateu sobre nós, é cada vez mais fácil entender quem abriu a “Porta do Inferno”: ascensão do fascismo, fanatismo religioso, assassinatos em massa promovidos pelo capital financeiro.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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