Leituras

Leituras de um brasileiro: ''Também estivemos em Pompéia, com a Simone Teodoro''

No filme ''A filha de Drácula'', de 1936, a vampira deve morrer porque, além de ser demoníaca, ela é lésbica; isso significa que, sem resistência, quer dizer, sem os contos da Fátima Mesquita, os quadrinhos da Alison Bechdel ou as poesias da Simone Teodoro, as lésbicas sempre seriam retratadas como mulheres demoníacas

08/08/2019 13:17

 

 

No começo do ano de 2019, recebo uma notícia boa: minha querida amiga Simone Teodoro me escreve pedindo que eu prefaciasse seu novo livro de poesias. Livro novo... poesias inéditas para ler... outro prefácio feito com amor.

Há os prefácios técnicos... creio, porém, que esse tipo de discurso não seria honesto com a Simone. Não porque sua poesia não mereça análises literárias, longe disso, ela é bastante rica, mas porque o momento político brasileiro pede outros encaminhamentos, considerando a bestialidade que tomou conta da política brasileira nas eleições de 2018. O momento histórico pede algum, senão bastante, engajamento político contra tudo isso, justamente porque minha amiga Simone está na lista das pessoas não gratas pelos fascistas. Pude acompanhar a angústia com que LGBTs sofreram e continuam sofrendo as investidas irracionais daqueles políticos criminosos, das difamações aos assassinatos; posso participar, felizmente, das reações contra eles e abracei o prefácio com carinho.

Um prefácio feito entre nós, as minorias? Isso ajuda: ficar entre nós? Mas quem somos nós? Eu sou um cara BDSM; a Simone, dentre os LGBTs, é L; ... mesmo que cada um de nós seja bem mais do que algumas siglas, é reconfortante se colocar sob algumas delas, no mínimo, para evitar a sensação sempre penosa de isolamento. Protegidos por esses guarda-chuvas, deveríamos nos dar conta de que, pelo menos, sempre tivemos a incompreensão contra nós. Vamos a alguns exemplos: (1) em seu artigo “James Bond: uma combinatória narrativa”, Umberto Eco mostra que os inimigos do agente 007, o espião representante dos valores do patriarcado e do imperialismo, não são apenas os inimigos geopolíticos – chineses, cubanos, russos –, mas também os inimigos morais – lésbicas, casais gays –; (2) no filme “A filha de Drácula”, de 1936, a vampira deve morrer porque, além de ser demoníaca, ela é lésbica; (3) na maioria dos filmes, os BDSMs são maníacos homicidas.

A Simone me lembra minha amiga Débora. Conheci a Débora por volta de 2005; nesse tempo, ela fazia os cursos de Letras na FFLCH-USP e colocava uma situação: andava de mãos dadas com as namoradas pelos corredores; beijava na boca as namoradas sem fazer cerimônias... ela fez, na época, a iniciação científica sob minha orientação, estudando os contos de temática lésbica da Fátima Mesquita, publicados no livro Julieta Julieta, de 1998, editora GLS – uma sigla antiga, antes de virar LGBT –. Anos depois, ainda comigo, fez o mestrado sobre a temática lésbica na história em quadrinhos Fun home, da Alison Bechdel. Na iniciação científica, Débora fez questão de apontar como os contos da Fátima Mesquita contradiziam o esperado final das obras com personagens lésbicas, em que ela se recupera, tornando-se heterossexual, ou morre – a filha de Drácula quase se “recupera” pelo amor de um homem, mas morre no final do filme –. Ou seja: meninas “vestem rosa” ou devem morrer.

Isso significa que, sem resistência, quer dizer, sem os contos da Fátima Mesquita, os quadrinhos de Alison Bechdel ou as poesias da Simone Teodoro, as lésbicas sempre seriam retratadas como mulheres mesquinhas, desajustadas, loucas, demoníacas. Isso acontece com os BDSMs; para os reacionários, não passaríamos de serial-killers sem a resistência de artistas como Wilma Azevedo – quem introduziu a discussão SM no Brasil, em plena ditadura militar –, Glauco Mattoso – que dá forma literária ao SM brasileiro –, Liliana Cavani – como esquecer o polêmico filme “Porteiro da noite” –, Henri-Georges Clouzot – em “A prisioneira”, longe de ser maníaco homicida, a personagem SM é dono de galeria, versado em fotografia, música dodecafônica e op art –. Essa demonização das minorias acontece com gays, mulheres, negros... estrangeiros, imigrantes... no Brasil, acontece com os nordestinos... em nível mundial, com pensadores progressistas... com comunistas... com usuários de drogas.

Para mim, foi bastante penoso acompanhar todos os dissabores enfrentados pela Simone e por outr@s companheir@s LGBTs durante as campanhas políticas brasileiras de 2018, marcadas pela homofobia e que conseguiram agrupar fanáticos religiosos, dementes, reacionários, assassinos e políticos venais, enfim, todo espécie de sub-humanidade, sob os mesmos bandos de falsos partidos – muitos deles, passada a fraude nas eleições, sequer existem mais... –.

Por fim, algumas palavras sobre o título do livro. A Simone esteve na Itália e visitou Pompéia – ela me contou –; em seus versos, ela faz, dessa experiência, uma metáfora do medo e do desespero, tendo por inspiração as expressões de pavor diante da erupção do Vesúvio, imortalizadas em alguns dos corpos carbonizados. Naquelas quase estátuas, a Simone se deteve no desespero diante de uma calamidade oriunda dos movimentos da natureza, que pareciam inofensivos; em seus poemas, consigo me ver diante da calamidade social advinda do fascismo e da extrema direita, resultante das eleições de 2018 no Brasil, que colocou verdadeiros dementes no poder e, mesmo assim, subestimada por tantas pessoas. Por isso mesmo, Simone, estou em Pompéia junto contigo, “respirando a poeira do tempo” e lutando contra a poeira da humanidade.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP

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