Leituras

Leituras de um brasileiro: "Um corpo negro - o novo livro de poemas da Lubi Prates"

'Um corpo negro', o mais recente livro de poesias da Lubi Prates, pode ser tema para ricos debates em sala de aula sobre o racismo no Brasil e na literatura

19/02/2019 19:50

 

 

No segundo semestre de 2018, a Nosotros Editorial lançou o livro de poemas “Um corpo negro”, da Lubi Prates; o livro é o resultado de uma bolsa ProAC de criação e publicação de poesia. Para quem não se lembra, o Programa de Ação Cultural (ProAC) é um programa de incentivo à criação artística da secretaria da cultura do Estado de São Paulo. O ProAC, assim como outros programas públicos de incentivo à cultura, é constantemente atacado por críticos equivocados, que ainda acreditam ser a arte apenas uma questão de talento, esquivando-se, assim, de quaisquer compromissos com ela, fora a indústria cultural.

A arte, antes de investir sempre nos mesmos significados e nas mesmas formas de expressão, depura, inova e revoluciona quaisquer tradições. Por isso mesmo, ela tende a se distanciar das formas repetitivas e, via de regra, sem criatividade da indústria cultural sempre disposta a investir, sobretudo, na falta de talento. Por isso mesmo, porque permitem contradizer a indústria cultural, os programas de incentivo à cultura são sempre benvindos.

Um bom exemplo disso é a realização da negritude por meio da literatura, mais especificamente, por meio da poesia. Não há, em países racistas, como a literatura que tematiza a negritude não ser combativa, por isso mesmo sua divulgação, sem projetos de apoio, seria ainda mais difícil, já que a arte comercial pode ser tudo, menos revolucionária. Uma das características do racismo é silenciar sobre ele; essa técnica é bastante utilizada no Brasil, país em que mais da metade da população é negra, mas está longe de ser, em termos políticos, devidamente representada. Isso é tematizado no livro da Lubi Prates; este é apenas um dos poemas com ênfase nessas questões:

“bem-vindo a este mapa / de um território sem fronteiras // bem-vindo a este mapa / de um continente / que se ergue / em corpos negros. // bem-vindo a este mapa: / onde há um conflito ardendo / em linhas / riscadas nas minhas costas. // onde há idiomas diversos / esquecidos na memória / da minha garganta. // bem-vindo a este mapa / de um continente / que se ergue / em corpos negros // bem-vindo a este mapa: // onde há uma espada / pronta para ferir / em minha mão. // onde há uma corrente / desfazendo-se nos meus pés / enquanto planejo fugas. // bem-vindo a este mapa / de um continente / que se ergue / em corpos negros. // bem-vindo a este mapa / de um território sem fronteiras // bem-vindo a este mapa: // onde guardo / no meu ventre / uma revolução”.

Nossos corpos têm muitas cores, tamanhos, formas, gêneros ...; é justamente nesse território, realizado pelo corpo, que se insere a poesia da Lubi. O corpo negro é uma das manifestações mais evidentes das ações afirmativas da negritude; não é à toa que menções a ele sejam recorrentes na poesia negra: o cabelo, a cor da pele, a voz, os modos de andar e de se vestir.

Nesse território, porém, em que o corpo negro assume seus papeis sociais, demarcando-se historicamente, ele também tende a se isolar. Ele se isola porque precisa se definir em meio às relações hostis do racismo, caso contrário, ele estaria condenado à morte de seus valores mais singulares. Desse ponto de vista, embora em seus próprios países, a sensação de exílio político é inevitável para boa parte da população negra. Nesse tema especificamente, o do exílio, a poesia da Lubi ganha revelo especial; estes são os versos de “Tudo aqui é um exílio”:

“apesar do sol / das palmeiras / dos sabiás, // tudo aqui é / um exílio. // tudo aqui é / um exílio, // apesar dos rostos / quase todos negros / dos corpos / quase todos negros / semelhantes ao meu. // tudo aqui é / um exílio, // embora eu confunda / a partida e a chegada, // embora chegar / apague / as ondas que o navio / forçou no mar // embora chegar / não impeça / que meus olhos / sejam África, // tudo aqui é / um exilio”.

A referência à famosa “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, é evidente, ainda mais porque Gonçalves Dias é um poeta negro. Isso pode não ficar explícito em seus poemas, mas omitir sua cor é excluir o papel do negro na literatura brasileira, seja esse papel afirmativo, como o de Luiz Gama, seja apenas participativo, como são os papeis de Gonçalves Dias, Machado de Assis, Mário de Andrade. Na poesia da Lubi ecoa também outra canção de exílio, o “Canto de regresso à pátria”, de Oswald de Andrade, em que as “palmeiras”, de “minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá”, dão lugar a “palmares”, em “minha terra tem palmares / onde gorjeia o mar”. No poema de Oswald, quando é mencionado “palmares”, o conhecido quilombo de Zumbi, destaca-se um foco de resistência à opressão racista, relativizando, assim, as belezas da natureza brasileira – o mar e as palmeiras – com as mazelas sociais do país e a exclusão dos negros.

A poesia do exílio da Lubi, que não se resume ao poema “Tudo aqui é um exílio”, trata de um fato contundente: a possibilidade dos negros brasileiros – vale lembrar, mais da metade da população do país – sentirem-se exilados não da África, mas no próprio Brasil. Ao discutir esse tipo de exílio, a poesia da Lubi Prates levanta questões semelhantes à militância de Ângela Davis. Em seu artigo “Doentes e cansadas de estarmos doentes e cansadas: a política de saúde para mulheres negras”, Ângela Davis cita a escritora Audre Lorde; das citações, que se referem a reflexões de Lorde a respeito de sua própria saúde, posso destacar esta frase, que parece uma resposta às questões da Lubi sobre o exílio: “E isso significa saber que nesse continuum minha vida, meu amor e meu trabalho têm um poder e um significado particulares em relação aos outros. / Significa pescar trutas no rio Missisquoi ao nascer do sol, experimentar o silêncio do campo e saber que essa beleza também é minha para sempre”.

O ProAC fez a sua parte incentivando a criação artística – fico feliz em saber que meu imposto é destinado para isso e não para sustentar políticos fascistas e vagabundos –; a Lubi Prates cumpriu seriamente com seus compromissos e escreveu um livro fantástico que, além da discussão literária, trabalha discussões políticas importantíssimas. Caberia agora, aos profissionais de letras, levar adiante “Um corpo negro”; a poesia da Lubi Prates, por exemplo, pode ser tema para ricos debates em sala de aula sobre o racismo no Brasil e na literatura.

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP

Conteúdo Relacionado