Leituras

Lenin, uma figura colossal

Sobre o líder da Revolução Russa, "uma das poucas pessoas que se pode encontrar na história do mundo" como escreveu Karl Kautsky, no epitáfio a Vladimir Ilytch, dois volumes são fundamentais para leitores e estudiosos. Sua vida, sua obra e o pensamento filosófico

28/06/2018 11:09

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Créditos da foto: Divulgação

 
‘’Não obstante admirar Lenin, assim como Trotsky, nunca fui leninista nem aceitei a doutrina da IV Internacional, apesar de qualificado como trotskista, por endossar e apoiar as denúncias dos crimes cometidos por Stalin, como serial killer dos que fizeram a Revolução Russa,” deixa bem claro o historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, no prefácio da quarta edição do seu livro Lenin - Vida e Obra. Há um ano este volume escrito em 1968 foi relançado. Mas ele foi publicado pela primeira vez dez anos depois, por obra da censura e da repressão da ditadura civil-militar de 64 da qual o professor chegou a ser vítima direta, em prisão do exército, no Rio de Janeiro.

Bem mais que um singelo ‘’livro de divulgação’’, o trabalho foi realizado concomitante ao lançamento de uma reedição revista e ampliada de outro volume de sua autoria. O Ano Vermelho (ambos da Ed. Civilização Brasileira), como parte dos festejos e da comemoração do centenário da Revolução Russa.

“Lenin foi uma figura colossal, das quais pouco se pode encontrar na história do mundo, ’’ exalta Karl Kautsky, em janeiro de 1924, no epitáfio de Vladimir Ilytch  Ulianov -  Volodia era o seu apelido de família –, relembra o autor. Embora ferrenho, mas sempre respeitado adversário do regime instituído na Rússia, em 1917, o jornalista e pensador tcheco-austríaco e um dos herdeiros de Marx reconheceu  ‘’ a grandeza do gênio da revolução proletária’’ nessa sua elegia. É com a elegia dele que Moniz Bandeira finaliza Lenin- Vida e Obra.

O pensamento de Kautsky, como o de Plekhánov, Trotsky, Rosa Luxemburg, Pavel Axelrod, Eduard Bernstein, o perfil de Nadezhda Krupskaya, sua colaboradora e com quem viria a casar, e das grandes lideranças da época, de vários outros teóricos da social-democracia europeia e de protagonistas do movimento socialista de então constituem objetos das finas análises de Moniz Bandeira que retrata com vivacidade a atmosfera da Primeira Internacional Socialista, quando foi fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Lecionando, escrevendo e trabalhando na Alemanha nos últimos 20 anos de sua vida, em Heidelberg-Karlsruhe, com a família, (seu filho Egas, é conceituado advogado e contribuiu para pesquisas do pai), o professor Moniz Bandeira segue no belo último prefácio escrito pouco antes da sua morte, em novembro de 2017: “Quase meio século depois, 49 anos passados depois que foi escrito, este pequeno livro continua válido. ’’

‘’É claro que fiz alguns acréscimos e comentários, porque, a partir daquela época, os acontecimentos desdobraram-se e a história é movimento. Infinita. ’’

Na sua observação, ‘’a revolução russa, que marcou profundamente todo o século XX, foi toda a vida e a maior obra de Lenin. É necessário conhecê-lo – vida e obra – para a compreensão de toda uma época que se desvanece. ’’

Para Moniz Bandeira, ‘’o fim da União Soviética, em 1991, constituiu uma catástrofe geopolítica. Desequilibrou, ele escreve, ‘’a correlação de forças, no contexto das relações internacionais, e resultou na desordem mundial.‘’ E ampliando a área de acumulação do capital, ‘’ao incorporar ao sistema dominante no Ocidente as estruturas não capitalistas do Leste Europeu,  possibilitou a preeminência do capital financeiro internacional, do cartel ultraimperialista das potências mais ricas, sob a hegemonia dos Estados Unidos, e subordinadas, militarmente, pelo Tratado do Atlântico Norte (OTAN), cujo múltiplo objetivo sempre fora, ‘’to keep the Americans in, the Russians out and the German down.’’

Sobre Stalin, o autor relembra a histórica Carta ao Congresso também conhecida como o Testamento de Lenin, que pouco antes de morrer, qualifica aquele que viria a ser seu sucessor como ‘’demasiado rude’’ e sugere, em um célebre adendo ao documento, que se buscasse um meio de retirá-lo do posto de secretário-geral nomeando ‘’outro homem que o supere em todos os sentidos, isto é, que seja mais paciente, mais leal, mais afável e mais atento com os camaradas, menos caprichoso etc.’’ Recomendava, em suma, a sua remoção do posto de secretário-geral do Partido Comunista.

O futuro logo confirmaria os receios de Vladimir Ilytch e mais adiante, o que também se viu, muito depois, ocorrer na China. Stalin ‘’aboliu a economia de mercado, o capitalismo privado sob o controle do estado, instituído por Lenin’’, registra Moniz Bandeira. “E foi o que, posteriormente, Deng Xiaoping implantou na China, a partir do final dos anos 1970, após a morte de Mao-Tsé-Tung.’’

Outro volume que traz a marca de Lenin está sendo colocado agora no mercado pela Editora Boitempo. É o segundo volume da coleção Arsenal Lenin e tem o título de Cadernos Filosóficos. Trata-se de um conjunto de textos pouco conhecidos do grande público produzidos durante os intensos dez últimos anos de vida de Vladimir Ilytch. Vale a pena lê-los.

São escritos que inspiraram a articulação do internacionalismo socialista e aprofundaram os estudos sobre o capitalismo, os efeitos do desenvolvimento desigual, o imperialismo e o Estado.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, e a cisão por ela gerada no interior da Segunda Internacional, Lenin deixou seu exílio na Polônia e estabeleceu-se na Suíça. Durante o período em que esteve em Berna, ele leu, fichou e comentou textos filosóficos de diferentes épocas e procedências, de Aristóteles a Hegel e Marx, passando por Feuerbach, Plekhánov e muitos outros. Todos convergiam, no entanto, para uma preocupação central: a fundamentação dialética da transformação social.

Ainda que fragmentárias, suas anotações representam uma mudança qualitativa em relação a sua obra filosófica conclusa mais conhecida, Materialismo e empiriocriticismo. 

A maioria dos ensaios, manuscritos, fragmentos e notas que compõem este precioso volume foi publicada pela primeira vez em 1929/1930, na União Soviética, como parte integrante da Coletânea Lenin. A edição da Boitempo apresenta os textos-base traduzidos diretamente do russo pelo coletivo das Edições Avante! e com revisão da tradução de Paula Vaz de Almeida. A introdução é de Henri Lefebvre e Norbert Guterman, datada de 1935 e traduzida do francês por José Paulo Netto. O posfácio é de Michael Löwy.

Tem-se aí estas leituras, novidade para muitos leitores e estudiosos.

Como a ‘’figura colossal’’ de Kautsky abriu o caminho para o seu trabalho gigantesco – reflexão e prática? Uma das chaves está na narrativa contida no volume do professor Moniz Bandeira quando se refere à morte por enforcamento do irmão mais velho de Volodia, o estudante universitário de 21 anos Aleksandr,  acusado de conspiração contra o governo czarista, na época em que começava a estudar Marx e quando terminara a tradução para o russo da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

Aleksandr se destacava pela ‘’firmeza de caráter extraordinária, ternura e sensibilidade,” lembra o autor, que conta esta passagem:

 “Aleksandr Ilytch Ulianov subiu ao patíbulo, a 5 de maio de 1887, na fortaleza de Schlusselburg.

Vladimir contava com 17 anos. Mais tarde, quando o prenderam pela primeira vez, um colega, na cela, lhe perguntou:

-Que pretendes fazer depois de libertado?

Ele respondeu:

-Meu irmão mais velho iluminou o caminho. ’’






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