Leituras

Livro de memórias de Woody Allen é publicado nos EUA

A autobiografia do polêmico diretor de cinema, Apropos of Nothing [A Propósito de Nada], tinha sido descartada por sua editora original

25/03/2020 13:58

Woody Allen ao lado da capa de sua autobiografia 'Apropos of Nothing' (AP)

Créditos da foto: Woody Allen ao lado da capa de sua autobiografia 'Apropos of Nothing' (AP)

 
As memórias de Woody Allen, abandonadas por sua editora original após críticas generalizadas, encontraram um novo lar.

O livro de 400 páginas, ainda chamado de Apropos of Nothing, foi lançado na segunda-feira (23) pela Arcade Publishing.

“O livro é um relato pessoal sincero e abrangente que Woody Allen faz de sua vida”, anunciou a Arcade, “desde sua infância no Brooklyn até sua aclamada carreira em cinema, teatro, televisão, comédia impressa e stand-up, além de explorar seus relacionamentos com a família e os amigos."

Com pouco aviso prévio, o livro do cineasta de 84 anos chega em um momento em que grande parte do mundo está preocupada com a pandemia de coronavírus. Arcade é uma marca da Skyhorse Publishing e uma porta-voz da empresa disse que nenhuma decisão foi tomada sobre se Allen daria entrevistas. Os detalhes financeiros de seu acordo com a Arcade não foram divulgados e a porta-voz não comentou imediatamente se o livro seria lançado na Europa, onde editores de vários países manifestaram interesse.

Apropos of Nothing começa no tom irônico de heróis literários como JD Salinger e George S. Kaufman, descrevendo sua criação e seus casos de amor na cidade de Nova York com Diane Keaton e outras, com uma sensação de nostalgia e angústia que espelha os filmes de Allen que vão desde A Era do Rádio e A Rosa Púrpura do Cairo até Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Hannah e Suas Irmãs.

Mas tornasse melancólico e defensivo quando ele se lembra de seu relacionamento com Mia Farrow e das acusações de abuso da filha Dylan Farrow, que para muitos passou a definir sua imagem pública nos últimos anos.

Allen foi casado com Farrow por mais de uma década e relembra momentos felizes com a atriz "muito, muito bonita", que esfriaram ao longo dos anos, especialmente após o nascimento de 1987 de seu filho biológico, Ronan (chamado Satchel no nascimento).

Como ele alegou antes, ele e Farrow estavam essencialmente separados quando começou a namorar sua filha Soon-Yi Previn, que é mais de 30 anos mais nova que ele, no início dos anos 90. "Nos estágios iniciais de nosso novo relacionamento, quando a luxúria reina suprema ... não podíamos tirar as mãos um do outro", escreve ele sobre Previn, com quem se casou em 1997 e a quem dedica o livro.

Lembrando o dia em que Farrow soube do caso, depois de descobrir fotografias eróticas de sua filha de vinte e poucos anos no apartamento de Allen, Allen escreve: “É claro que eu entendo seu choque, sua consternação, sua raiva, tudo. Foi a reação correta. Mas ele não se arrepende de terem, ele e Previn, se tornado amantes.

"Às vezes, quando as coisas ficaram difíceis e eu era difamado em todos os lugares, perguntavam-me se eu teria esposado Soon-Yi, caso tivesse sabido antes dos resultados, escreve ele. "Eu sempre respondi que faria de novo em um piscar de olhos."

Allen nega, há muito tempo, ter abusado sexualmente de Dylan. “Eu nunca coloquei um dedo em Dylan, nunca fiz nada com ela que pudesse ser mal interpretado como abuso; foi uma completa invenção, do começo ao fim”, ele escreve. Ao descrever uma visita à casa de Farrow, em Connecticut em agosto de 1992, quando ele supostamente molestou Dylan, ele reconhece ter, brevemente, colocado a cabeça no colo da filha de sete anos de idade, mas acrescenta: "Eu certamente não fiz nada de errado com ela. Eu estava em uma sala cheia de pessoas assistindo TV no meio da tarde.”

Allen não foi acusado, depois de duas investigações separadas nos anos 90. Dylan sustentou que ela foi abusada e suas alegações foram acolhidas na era #MeToo. Ellen Page e Greta Gerwig estão entre as atrizes que disseram que não trabalharão com Allen novamente e seu filme mais recente, Um Dia de Chuva em Nova York, não foi lançado nos EUA. (A Amazon, que lançaria esse e outros três filmes de Allen, encerrou seu acordo com ele; Allen processou a empresa e um acordo extrajudicial teria sido alcançado). Dizem que vários editores se esquivaram de suas memórias quando um representante da Allen as ofereceu no ano passado.

"Não posso negar que, contribui para minhas fantasias poéticas, ser um artista cujo trabalho não é visto em seu próprio país e é forçado, por injustiça, a ter seu público no exterior", escreve Allen. “Henry Miller vem à mente. DH Lawrence. James Joyce. Eu me vejo de pé entre eles desafiadoramente. É nesse ponto que minha esposa me acorda e diz: 'Você está roncando'."

Enquanto Allen escreve longamente sobre seu rompimento com Farrow, ele lembra calorosamente seus filmes juntos, entre eles Hannah e Suas Irmãs e Broadway Danny Rose, e a chama de atriz de versatilidade e profundidade. Ele também elogia defensores de longa data como Dick Cavett e Alec Baldwin e compartilha boas lembranças de Mel Brooks, Bette Midler e Neil Simon, entre outros.

O anúncio inicial de Apropos of Nothing aconteceu no começo deste mês, quando a Grand Central Publishing confirmou à Associated Press que lançaria o livro de Allen em 7 de abril. Mas a notícia foi recebida com crescente indignação, centrada nas alegações de abuso de Allen à filha.

Ronan Farrow, que compartilhou o prêmio Pulitzer com o New York Times por sua investigação, para a New Yorker, sobre Harvey Weinstein, ficou furioso ao saber que o livro de Allen estava sendo publicado pela mesma empresa-mãe, o Hachette Book Group, que lançou seu Catch and Kill. Dezenas de funcionários da Hachette fizeram uma paralisação por conta do livro e Farrow, que trabalhava em Catch and Kill na época em que Hachette adquiriu as memórias de Allen, disse que deixaria de trabalhar com a editora.

A Hachette cancelou o lançamento menos de uma semana depois. Stephen King estava entre os que questionaram a decisão, escrevendo no Twitter: "O que me preocupa é quem será o próximo amordaçado".

Em um pós-escrito para a edição da Arcade, Allen alega que Hachette tinha prometido publicar Apropos of Nothing apesar de ele "ser um pária tóxico e uma ameaça à sociedade". Mas, ele escreve: "quando a oposição real chegou, eles reavaliaram cuidadosamente sua posição" e "descartaram o livro como se fosse uma grande porção de Xenônio 135". O Guardian entrou em contato com Hachette para obter uma resposta.

A editora do Arcade, Jeannette Seaver, disse em comunicado: "Nestes tempos estranhos, quando a verdade é muitas vezes descartada como 'fake news', nós, como editores, preferimos dar voz a um artista respeitado, em vez de nos curvarmos àqueles determinados a silenciá-lo".

A Skyhorse é uma empresa prolífica e, às vezes, provocadora, com um catálogo de livros escrito por todos, de Samuel Beckett e Octavio Paz a Jim Garrison, um dos teóricos da conspiração que assassinou Kennedy, e Alan Dershowitz, advogado e defensor de Donald Trump.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli



Conteúdo Relacionado