Leituras

Manipulados e manipuladores

Na Nova Era que se inicia será difícil termos eleições livres e justas com dados pessoais de eleitores ainda sendo sequestrados, diz a autora do livro 'Manipulados', Brittany Kaiser, ex-CEO da Cambridge Analytica.

14/07/2020 11:42

 

 
É um bom momento para ler a edição brasileira do livro da americana Brittany Kaiser, agora que foram suspensas milhares de contas do Facebook nos Estados Unidos e no Brasil e no início de campanhas políticas nos dois países, ambos governados por negacionistas e conservadores eleitos em pleitos hoje reconhecidamente fraudados. O livro é um manual sobre roubo de dados e como operam os manipuladores.

A autora do volume Manipulados (Ed. Casa dos Livros/2019) é familiar aos muitos espectadores que a viram como protagonista desenvolta e relevante no documentário Privacidade hackeada (The great hack) que estourou o número de acessos na Netflix, um ano atrás, quando foi lançado no catálogo brasileiro dessa palataforma.

Vinda de família de classe média do bairro norte de Chicago, Kaiser tem 34 anos. É um produto da tribo de jovens nerds, talentos digitais excepcionais que são cooptados para trabalhar em TI, a Tecnologia da Informação de grandes empresas; como ocorreu com ela.

Outros fazem carreira como autônomos. São blogueiros e hackers pagos por grupos de empresários e ricaços que se escondem no anonimato e pagam para difundir notícias mentirosas de seu interesse - as fake news -, disparar tweets em massa e criar robôs e perfís falsos de pessoas existentes e outras, fictícias.

No Brasil, alguns desses personagens acabam de ser presos, nas últimas semanas, em Brasília, nos arredores da capital. Eles estão instalados no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Brittany é um desses talentos. ''Há delatores e há pessoas como Kaiser, que são manipuladores se apresentando atualmente como ativistas dos direitos de propriedade de dados de usuários das redes,'' define um leitor da ex-CEO da empresa Cambridge Analytica.

Ela desnudou para a justiça britânica quando foi acionada como testemunha os bastidores escabrosos das operações de comunicação ilegais do grupo sustentado pela família do bilionário Robert Mercer e dirigido por Alexander Fix, chefe da autora desse volume lançado aqui pouco antes do início da pandemia.

Mas por que interessa a leitura do mea culpa da muito inteligente e perspicaz Brittany que agora diz ter mudado de lado declarando-se arrependida dos seus pecados na Cambridge Analytica?

Porque ela narra por dentro os bastidores das operações do escandaloso roubo de dados de milhões de usuários do Facebook que resultou na eleição de Trump, nos Estados Unidos, no Brexit, na Grã-Bretanha, na eleição presidencial brasileira de 2018 e em diversas campanhas políticas de ultradireita na Europa.

Como parte original da equipe de manipulação de massa da CA, Kaiser pretende parecer mais uma madalena arrependida do que uma delatora por convicção. Embora atualmente ela diga que ''a nossa democracia é vendida pelo maior lance que ofertarem e sem o nosso consentimento", sabe-se que a democracia foi vendida e com sua ajuda antes de sua redenção moral.

No doc Privacidade hackeada a moça se defende repetindo, cândida e cìnicamente o que declarou numa audiência do processo: "São táticas de comunicação usadas como arma".

A empresa de Nix foi fechada. Mas daqui por diante, nesta Nova Era que se inicia, '' será difícil termos eleições livres e justas com dados pessoais de eleitores ainda sendo sequestrados e usados contra nós mesmos,'' Kaiser prevê, autodenominado-se "delatora".

Mas por quê, é a pergunta parada no ar, ela não apitou um pouco mais cedo e antes dos delitos da Cambridge Analytica se tornarem notícia de primeira página da mídia do mundo?

Vamos ao seu livro.

Kaiser trabalhou na empresa-mãe da Cambridge Analytica, o SCL Group, seduzida, ela diz, pelo dinheiro oferecido. Precisava saldar dívidas e pagar pelo tratamento dispendioso do velho pai doente, em Chicago. O seu trabalho, na época, como ativista da campanha de Barack Obama, não a recompensava. Então se deixou seduzir por Nix que dizia oferecer messaging projetado para o mundo do século 21 alcançando novos consumidores e não apenas alcançando-os, mas convertendo-os. O princípio da empresa: '' O Santo Graal das comunicações é quando você começa a mudar o comportamento das pessoas."

Ela entrou para a empresa que não era uma agência de publicidade, como se apresentava, mas como uma ''agência de mudança de comportamento'' no entender de Nix.

Kaiser traça sua rotina profissional a partir de então entre o trabalho extenuante, almoços e jantares com estrelas da política americana, britânica, européia e asiática, painéis e debates que organizou nos encontros de Davos e conversas e episódios de bastidores que chegaram a determinar o futuro do mundo.

Até que se deu o ''terremoto'', como escreve. O Facebook começava a admitir que sua plataforma havia sido usada (pela CA) para espalhar fake news e provocar controvérsias.

Os tempos mudavam e Brittany achou que começava também a sua hora de mudar - de lado, inclusive. ''Steve Bannon foi enxotado da Casa Branca pela filha e pelo genro de Trump e isto foi perturbador para mim e para outros da Cambridge,'' ela prossegue.

Estrada para a redenção - 23 de março de 2018 aos dias de hoje- é o título do último capítulo da saga da jovem de Chicago, após as ''descobertas sombrias'' que fez ao longo do passeio na ''montanha-russa da Cambridge Analytica'', e depois das audiências não apenas com a justiça de Londres como também com o FBI, em Washington, e com o Procurador-especial dos EUA Robert Mueller em relação às interferências russas na eleição de Trump.

''Eu disse sim, consentindo em compartilhar tudo.''

Sempre esperta, e sempre útil como informante, Brittany ainda dá um recado aos seus leitores nas linhas finais do seu Manipulados. ''Use o Signal e não o WhatsApp! Mark Zuckerberg enfraqueceu a criptografia para extrair dados e usá-los em targeting''.

A moça não é fácil. Vale lê-la. Teremos eleições decisivas em breve, nos EUA e aqui. E o ''pessoal'' continua na ativa.

*Mais informações sobre 'Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque'

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